sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A COLÔNIA QUE NÃO SAI DA GENTE

 Obra: Aquarela. Jean-Baptiste Debret


Dia desses, eu estava almoçando com uma amiga e na mesa ao lado chegou um grupo de quatro pessoas. O restaurante estava lotado e existia uma única mesa disponível. Pouco antes, outro grupo havia deixado o local, abandonando pratos com restos de comida, talheres, guardanapos e copos amontoados. Natural, afinal os garçons fazem esse trabalho de organizar as mesas antes e depois de utilizadas. Eles não são notados e fazem um trabalho silencioso. A não ser que não venham imediatamente. Foi o que aconteceu. O garçom demorou a chegar para atendê-los. Um ultraje. Prontamente, um rapaz desse grupo que acabara de chegar tratou de juntar os utensílios da mesa para que eles pudessem ocupá-la. Muito solícito. Segurando uma pilha de pratos e talheres, um tanto atabalhoado, chegou a nós perguntando se já estávamos de saída. Já havíamos terminado de almoçar, mas como é costumeiro, ficamos papeando enquanto eu tomava um café e minha amiga comia sobremesa. Eu disse que não estávamos de saída, mas que ele poderia largar a pilha de pratos sobre a nossa mesa até que o garçom, que estava sozinho e se vendo louco para atender a todos, chegasse para limpar tudo.

Eu já havia percebido que existia alguém “diferente” nesse grupo porque o tratamento de todos a uma das pessoas, em especial, era diferenciado. A ele eram dispensados gestos e palavras exageradamente corteses, e um tratamento constrangedoramente polido e subserviente. Além de todos se esforçarem para falar a língua dessa pessoa.  Até aí tudo bem. É delicado receber bem um visitante. Mas algo era visivelmente fora do tom. Ao ponto de uma pessoa, ao invés de chamar o garçom, prontamente recolher pratos e posicionar a mesa ao gosto do convidado, jogando todo o descarte na mesa mais próxima (a nossa) para livrar-se da sujeita e desorganização.

Apesar de todo o rapapé e alarde dessas pessoas, ainda tive um lampejo sobre meus pensamentos, achando que era preconceito meu pensar que era um circo tudo aquilo. Mas minhas suspeitas se confirmaram quando ele, meio constrangido, largou a pilha de louça sobre a minha mesa e como se não bastasse completou: “Desculpa, é que tem um professor estrangeiro com a gente”.  Um estrangeiro-eiro-eiro-eiro! Isso ecoou em minha cabeça como um badalo.  Aí tudo fez sentido. Então, estar com um estrangeiro confere a essas pessoas o direito de desovarem sua sujeira em território alheio? Os domínios do colonizador devem estar em perfeita ordem, enquanto os domínios do colonizado ficam de qualquer jeito, inclusive com os detritos e as sobras do próprio colonizador? Isso sem pensar na torpe troca de favores, na submissão em troca de possibilidades acadêmicas escusas pelo fato do estrangeiro ser professor, talvez destacado entre professores menos importantes, os tupiniquins. Continuamos fazendo as mesmas coisas nesta Terra Brasilis desde o século XVI.

Naquele momento eu fiquei meio atônito e não comentei nada para não criar caso por aparentemente uma bobagem. Tive vontade de dizer: “Moço, chama o garçom. Minha mesa não é aterro sanitário”. Mas apenas concordei em deixá-lo colocar a pilha da “nossa sujeira” longe dos olhos do estrangeiro. Limpo e rápido. Era falha do restaurante não colocar mais funcionários em horário de pico, obviamente. Entretanto, povo solidário que somos, eu deveria ser cúmplice e tratar de causar boa impressão e proporcionar bem estar ao visitante. Mas a forma escolhida pelo rapaz da mesa ao lado de resolver isso não foi a mais cidadã e civilizada, embora demonstre sua grande brasilidade.

O que o colonizador quer, em última instância, é um novo establishment. O seu, obviamente. E nós, que fomos subordinados historicamente aos níveis mais baixos na pirâmide social, estamos acostumados com isso e achamos que está tudo bem, está tudo ótimo. E pior: esperamos que eles olhem para nós e nos concedam a honra de sentarmo-nos à sua mesa.

Posso estar sendo demasiadamente radical. Ocorre, porém, que tenho um sentimento, apenas um sentimento, que me alerta para a iminência de, travestidos de defensores dos nossos direitos, eles nos cercearem e estabelecerem, com o peso de suas verdades, a obrigatoriedade de seguirmos suas regras. Enquanto a dependência é econômica está tudo sob controle, pagamos a conta e estamos livres, mesmo que às vezes tenhamos que vender nossas almas num leilão para isso. Mas quando as celebridades impõem padrões de beleza e riqueza, exigindo que sejamos tudo aquilo o que jamais conseguiremos ser, ou quando as Exodus Cry da vida vem fazer proselitismo por estas bandas, o buraco fica mais embaixo. Dentro de uma moral religiosa retrógrada, esse grupo propõe a criminalização da prostituição e do aborto, por considerar – implicitamente – que são abominações, assim como são abomináveis a mulher que aborta clandestinamente ou a prostituta que não teve outra opção na vida. Não tardará o dia em que criminalizarão tudo o que, segundo eles, "fere os princípios da moralidade cristã", mesmo que os colonizados não sejam cristãos. Não por acaso esse grupo americano de extrema direita cristã foi recebido pelos fidalgos da Comissão de Direitos Humanos do Senado. Ainda somos tratados como índios, sem alma e sem direitos individuais.

Não considero os estrangeiros inimigos. Tampouco acho que somos superiores ou melhores em tudo. Mas existe na nossa relação com eles uma pretensa exploração e um pressuposto de nossa submissão. Ademais, temos a característica de considerar os colonizadores sempre bem-vindos. Temos impregnado na pele um cheiro de colônia. De Brasil Colônia. Olhamos o estrangeiro como superior porque somos uma nação com baixa autoestima. Carnaval e futebol não cicatrizarão essa ferida de exploração histórica. Aliando isso à falta de conhecimento, somos presas fáceis para exploradores.

Quando estamos na presença do colonizador à nossa mesa, emerge das profundezas de nossa alma o sentimento forte e intrínseco de colonizados. É como se fôssemos perdoados de uma dívida ou do pecado primordial de sermos subdesenvolvidos, ou ainda como se fosse quebrada a maldição de sermos terceiro-mundistas. Somos inundados por uma gratidão medíocre. Subitamente, por nos julgarmos amigos do Rei, surge um brilho soberbo no olhar pelo sentimento de superioridade àqueles que servirão de depósito para nossos pratos sujos.

Se existe uma crise internacional, ela não nos sensibiliza profundamente. Afinal, somos calejados da recessão, somos escolados em crises e termos a sensação, embora ilusória, de estarmos saindo do atoleiro. Reconhecermo-nos como emergentes já nos torna “um deles”. Temos cartão de crédito internacional, viajamos de avião a qualquer hora (que luxo!), compramos carro em cento e vinte parcelas e até financiamos nossa casa própria em trinta anos. E queremos salvar nossa própria pele, ou melhor, ostentar aquela pele com a marca da grife famosa, impressa bem grande. Beijo no ombro para a ralé!

Com a barriga cheia podemos dispensar mais tempo para superficialidades e supérfluos. E adoramos futilidades! Ao que parece, os americanos estão abandonando o “american way of life” porque já não lhes cabe. Mas aqui ainda serve muito bem para a elite emergente. Para muitos é símbolo de status consumir como os americanos, ostentar riqueza como os árabes e ter as maneiras dos franceses ou ingleses.

Por melhor que seja o que produzimos aqui, seja material ou imaterial, o melhor de tudo o que produzimos ainda é “para exportação”. Da mesma forma, o produto importado, mesmo sendo de qualidade inferior é mais valorizado e é sinônimo de status pelo simples fato de não ser fabricado aqui. Certo, a lógica não serve para os produtos chineses, que tem preços e qualidades em geral bem inferiores, devido ao processo de produção, mão de obra escrava e pelos altos impostos cobrados aqui, o que acontece desde quando éramos colônia de Portugal. Mas isso já é outro assunto.

O que aconteceu ao grupo do restaurante? Não sei. Todos comeram o mesmo feijão com arroz e batatas fritas do buffet que os demais naquele dia. Cada um deve ter tomado seu rumo provavelmente voltaram às suas cortes ou colônias de origem. E o rapaz, o cicerone tupiniquim? Bem, talvez esteja acompanhado de outros grupos e juntando pratos para acomodar outro colonizador.  Ou tentando um doutorado sanduíche no exterior. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

SOBRE FÁBULAS E GIGANTES


Ontem ouvi um relato com o qual fiquei profundamente tocado. Um amigo comentava sobre um tempo em que trabalhou com integrantes do Movimento Sem-Terra (MST) em um assentamento nos confins deste imenso país. Ele falava sobre as dificuldades dessas pessoas sem condições dignas de moradia, sem escola, sem alimentação, sem higiene, vivendo em barracões e dormindo em camas de varas e em constante tensão, devido às represálias violentas de latifundiários e capatazes de fazendas. Uma vida dura que a maioria de nós, urbanóides de classe média, só conhece pelos jornais e pelas frestas das janelas que abrimos vez ou outra para ver como é o mundo do lado de fora do nosso bunker climatizado a acarpetado.

O trabalho dele era prestar apoio emocional e espiritual a essas famílias, tão privadas e carentes de tudo. Um dia, ele decidiu fazer um momento de reflexão com um grupo. Abriu, então, espaço para quem desejasse falar sobre o que sentia, para que fizessem pedidos ou expressassem desejos íntimos. Nesse momento, uma senhora, mãe de dois filhos, ergue a mão. A palavra é concedida a ela. Então ela diz que desejava que Deus permitisse que naquela região existissem mais flores. Disse que queria que essas flores desabrochassem porque os beija-flores estavam quase sem alimento, uma vez que a seca na região estava sendo severa e a vegetação estava morrendo.

Na hora, contou-me ele, a primeira coisa que pensou foi: “Uma pessoa que está em uma situação tão extrema se preocupar com a alimentação dos beija-flores? Com tanta coisa para se preocupar, com filhos fora da escola, vai pensar em pássaros? Tem alguma coisa errada nisso”. A reflexão que meu interlocutor me deixou foi a de que, mesmo nas situações mais adversas, mesmo sendo privados de tudo, não podemos deixar que a vida nos embruteça. E ele me dizia que levava para sua própria vida, desse momento com essa senhora humilde, uma grande lição: a de manter vivo dentro dele o que existe de mais humano. E confessou a mim que desde então traz consciente um esforço diário para não deixar de pensar nas necessidades daqueles que o cercam, preocupar-se com as necessidades dos beija-flores, mesmo que suas costas doam e sua barriga ronque de fome. E eu consegui sentir a verdade do que ele dizia através de sua voz serena e seu olhar profundo.

Tenho tentado ver de perto o que está acontecendo no país. Pinço aqui e ali informações sobre essas manifestações que invadem as ruas, que em última instância clamam por um país melhor e mais justo, tentando deixar de lado minhas emoções, quase sempre afloradas e erráticas. Tenho o sentimento de que essas mobilizações públicas são o retrato de um país que ainda engatinha no que se refere à democracia. Um país que está aprendendo a reivindicar coletivamente nas ruas seus direitos, que não conhece ainda o que é ter liberdade de expressão e que, num dado momento, renega a coletividade de determinados grupos mais heterogêneos. E principalmente que é manipulável por um poder paraestatal e estatal, orquestrado pela mídia e por alguns partidos políticos que estabelecem diferenças maniqueístas do tipo "nós, os bonzinhos" e "eles, os malvados". Acho que a questão é maior que esse debate dicotômico “pacifismo VS. Violência”, partidário contra não partidário, a luta do rochedo com o mar, do Estado com (contra?) o cidadão.

Percebo que existe uma cisão entre dois discursos ideológicos, que acabam criando dois grupos bem distintos. Vendo o que vem ocorrendo em Porto Alegre tenho isso bem claro. Em uma das noites de manifestações, nas duas vias da Av. Ipiranga, separados pelo Arroio Dilúvio, estavam dois grupos: Um, “pacífico”, “politizado”, fazendo uma marcha de cara limpa e com palavras de ordem e cartazes de protesto em punho. Do outro lado do arroio havia outro, enervado, de rostos cobertos, gritando desordenadamente e portando pedras e paus. O primeiro usa a voz para ser reconhecido. O segundo ameaça a ordem e o patrimônio. A mídia traz, de forma emblemática dentro de uma lógica de consumo capitalista, que "milhares de pessoas seguiram pacificamente pelas ruas e um pequeno grupo agiu com violência". Protesto Pacífico e Vandalismo são produtos de consumo agora. Guerra e Paz sempre venderam muito. Obviamente, a guerra é muito mais lucrativa. E não é de hoje. Essas abordagens me causam desconforto. E tenho percebido que esse discurso é sistematicamente repetido. Parece que existe uma forma certa e uma forma errada de ir às ruas. E concordo que, em certo sentido, existe mesmo. Não acho que depredação do patrimônio público e violência sejam formas eficazes de reivindicação. Pelo contrário, é são formas até um tanto burras. No fim, todo mundo paga a conta e ninguém consegue o que quer. Mas talvez a questão seja ainda mais profunda. Não é somente o vandalismo em si, mas a construção midiática – e social - que se faz do vândalo.

Agora, ergue-se a bandeira de uma manifestação sem bandeiras partidárias. Confesso que acho um tanto contraditório. O brazilian way of life “meu partido é um coração partido” é uma quimera, amigos. E tenho os três pés atrás com esse tipo de discurso. Afinal, de que forma os grupos se organizam politicamente sem um partido? Essas organizações não deveriam, independente da sigla, estarem afinadas entre si e com a totalidade do movimento? Rasgar bandeiras partidárias não será uma forma meio torpe de pulverizar as reivindicações e tirar o foco político das manifestações? Lembremos que foi um grupo (bastante!) partidário que começou esse movimento, o Movimento Passe Livre. Onde está a liberdade de expressão e a livre associação política? Que regras são essas que pululam agora que parecem querer estabelecer um modus operandi ou um código tácito e implícito de conduta para as manifestações públicas que nega sua origem? Queimar as bandeiras dos partidos políticos, levantar cartazes reivindicando questões com propósitos de origem e matrizes ideológicas bem duvidosas, literalmente vestir a bandeira do Brasil e cantar emocionadamente o Hino Nacional, reivindicando de forma vazia e imprecisa que o país simplesmente mude, parece ser a reinvenção de um ufanismo nacionalista rançoso com uma carga fascista quase patológica.

Como todo “guri” que viveu preso e é libertado do controle paterno, o Brasil saiu correndo ensandecido pelas ruas, gritando eufórico sua liberdade, querendo provar tudo, tocar em tudo, absorver tudo, desajeitado e meio inconsequente. O “gigante” parece um elefante na loja de cristais. Mas talvez estejamos provando uma falsa sensação de liberdade. Talvez estejamos ainda dentro do cercadinho que papai montou para poder nos controlar. Será que não nos tornamos os manifestantes que “eles” querem que sejamos? Será que não estamos sendo condicionados e formatados a pedir o que queremos “do jeitinho” que “eles” querem? Parece que basta, para que exerçamos nossa cidadania, para que sejamos “brasileiros, com muito orgulho, com muito amor”, vestirmos máscaras de Guy Fawkes (aquela da série V de Vingança), que a imensa maioria não tem a menor ideia de quem foi, nos enrolarmos em nossas cangas de praia com a estampa da bandeira do Brasil e redescobrirmos um amor pelo país que há muito tempo abandonamos, se é que algum dia sentimos. Esse patriotismo todo soa fake aos meus pobres olhos que já viram muita bobagem acontecer. 


O gigante não está acordando, ele é ainda um recém nascido, desengonçado e bobalhão. Não adianta obrigá-lo a andar de monociclo fazendo malabarismos se ele está aprendendo a engatinhar e a balbuciar precariamente seus desejos e necessidades. E lá no fundo, algo me diz que ele tem muito para amadurecer no que se refere a lutas sociais. Ainda temos muito para aprender. Não sei se o país anda no caminho certo. Nem sei qual seria o caminho certo. Tampouco se existe um. Que o caminho se aprende ao trilhá-lo é tudo o que sei. A gente aprende a caminhar, caminhando; a falar, falando; a reivindicar, reivindicando. E a viver em sociedade, vivendo. Independente de estarem acontecendo coisas certas do jeito errado, que pelo menos consigamos nos conectar aos nossos sentimentos mais humanos. E que não nos esqueçamos também dos beija-flores. Assim como nós, eles também tem fome. 


segunda-feira, 17 de junho de 2013

NANOCONTO

Ron Mueck, Angel (Exchange Agreement), silicone rubber and mixed media, 1997. The Collection of Marguerite and Robert Hoffman.




Ele surgiu. Eu suspeitava. Ele chegou. Eu já esperava. Ele teceu. Eu arrematava. Ele tentava. Eu teimava. Ele partiu. Eu fiquei. Ele desistiu. Eu desesperei. Não conseguimos. Seguimos. 







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quarta-feira, 5 de junho de 2013

FRAGMENTOS DE VIDA GUARDADOS NO BOLSO


William Kentridge: “Drawing for the film Stereoscope [Felix Crying]” - 1998-1999 - Charcoal, pastel, and colored pencil on paper 47 1/4 in. x 63 in. (120.02 cm x 160.02 cm). The Museum of Modern Art, New York.


“Tu misterio es mucho
Más interesante que
Mi imaginación”

(Perotá Chingó - Canción Para El Viento)

A abundante e mansa chuva fina que banhou meu caminho estava prevista. Ainda assim, fui pego de surpresa. Da mesma forma que a chegada dele em minha vida, não esperava que chovesse tão de pronto. Sempre duvidei de previsões do tempo, na mesma proporção que desacreditei em oráculos, astrologia ou misticismos exóticos, muito embora recorresse até mesmo ao ocultismo quando estava em apuros e ligasse o rádio de pilhas todas as manhãs para saber como seria o clima do dia. Acho, sinceramente, que tudo é superstição. Ignorância minha, eu sei. De fato, confio tanto em meteorologistas quanto em analistas. E por pensar que tudo é bobagem, não daria tratos à bola quando interpelado pela Esfinge, sendo indubitável e inevitavelmente devorado por ela a caminho de Tebas. Como duvido das previsões, sempre ando sem guarda-chuva. E sempre acabo molhado. Também por culpa dessa dúvida hiperbólica cartesiana patológica abandonei todos os meus analistas e amantes. Ou fui abandonado por eles, nunca soube ao certo porque a verdade é algo completamente fora do meu alcance.

Preparei-me com cuidado para esse momento. Não para a chuva, obviamente, e sim para o encontro que teria no fim desse caminho áspero de frio e umidade que enfrentava como se fosse um valente cavaleiro. Dispensei aquele cuidado típico de quem quer causar boa impressão sem parecer que esse é o objetivo. Vesti um casaco escuro de veludo de corte ajustado, que disfarçava os excessos de uma vida inteira de desregramentos, marcados indelevelmente em minha região abdominal, uma camisa branca meio gasta no colarinho, o velho jeans surrado e o único par de sapatos confortáveis que tinha, porque a estrada era muito comprida e as curvas enganam o olhar.

Apertei o passo para não molhar-me. Foi meio em vão. Àquela altura tanto fazia. Mesmo querendo causar boa impressão, não importava mais a aparência que eu tinha. Talvez quisesse, bem lá no fundo, mostrar que não tinha essas máscaras, queria chegar o mais próximo do que supunha – e queria – ser em essência, com minhas roupas largas e velhas, minhas marcas e meu pouco senso de humor. Somente queria chegar, desarmado, e dizer que não faria qualquer jogo. Até mesmo porque suspeitava que desaprendera a jogar. Ou então, que nunca cheguei a aprender, afinal não lembrava imediatamente de algum dia ter chegado a jogar e ganhar. Queria dizer a ele que estava cansado de duelar, cansado de danças cadenciadas e marcadas. E ela já havia me dito: “A impossibilidade e o mistério cansaram com força seu coração”. Cansaram mesmo, Mrs. Lispector. Queria libertar-me da carapaça. Assim, simples. Tinha vontade de chegar e não sentir ameaças, não sentir constrangimentos. Queria somente olhar fundo nos olhos dele e saber que seria nítido, cotidiano, que eu poderia descalçar os sapatos apertados e as meias puídas, sem que ele reparasse no quão feios e disformes são meus pés, muito brancos, com dedos curtos unhas irregulares. Queria que, numa tarde qualquer de sábado, eu pudesse pousar livremente meus pés estranhos sobre a grama fresca e sentir o cheiro de terra, deitado com os braços abertos e os olhos fechados para senti-la fazer cócegas em minha nuca. Queria esquecer asperezas sob o sol de junho, que eu sabia que surgiria nos dias subseqüentes àquela chuva fina de outono. Então, ele repousaria sua cabeça de cabelos dourados e finos sobre meu peito e não precisaríamos dizer nada porque não havia nada a dizer. E mesmo que houvesse, prescindiríamos da palavra falada. Bastaria sabermos que havia vida pulsando dentro de nós. Essa seria nossa linguagem. Para mim seria suficiente sentir sua respiração tranqüila e olhar sem pressa seus olhos de um verde-esmeralda profundo pousados nos meus, negros como a noite.

Eu sabia que ele queria o mesmo que eu. Ou talvez me esforçasse para reconhecer, como uma pomba alimentando-se de farelos de pão jogados no chão pelas mãos rugosas de uma austera senhora, os fragmentados sinais que ele não conseguira esconder. Entretanto, como não creio nas minhas impressões sobre o mundo, tampouco em meus próprios sentimentos e nos insights que tenho, achei que poderia estar enganado. Se fosse realmente um engano, jamais me recuperaria do fracasso. Aliás, reconheço tantos fracassos acumulados que há tempos jazeu aquela sensação confortante que me fazia crer que as dores do mundo me tornariam mais forte. Protejo-me do mundo justamente porque reconheço minha precariedade e a cada nova marca na pele fico mais vulnerável, fragilizado e dolorido. Por isso visto minha armadura de lata e saio pelo mundo, buscando incansavelmente um coração.

Não queria mais sofrimentos. Sendo assim, não dava muitos passos no escuro. Mas ainda restava alguma coragem, embora também parca, que me impulsionava em direção a novas possibilidades. E ele era uma possibilidade, eu via e era nítido para mim. Por isso enfrentei uma noite escura e sem estrelas, por isso não amaldiçoei o momento em que começou a chover e eu estava sem qualquer proteção. Eu estava realmente sem qualquer proteção e era uma escolha consciente. Queria chegar assim, mesmo molhado, ofegante e desalinhado e dizer que estava de peito aberto e alma leve, que não estava pronto, mas estava inteiro ali naquele momento.

Não sabia exatamente quem ele era, nem física e muito menos psicológica e emocionalmente. Não conseguia sequer recordar-me dos detalhes de seu rosto. Talvez isso faça parte do mecanismo de defesa que minha mente ergue quando existe uma possibilidade de vida fora de meu casulo autoimposto. Eu acessava minhas memórias difusas para que não houvesse a chance de abordar um desconhecido. Mas não, isso não aconteceria, eu sabia intimamente. Porque quando o visse saberia que seria ele, mesmo lembrando apenas de detalhes impalpáveis e esparsos como um olhar profundo, uma sensação leve de roçar de cabelos ou um gosto de mar ou lágrimas.  

Cheguei cedo. Sou ansioso. Sentei-me num canto e puxei um livro do bolso do casaco. Clarice Lispector, “O Lustre”. De tempos em tempos ela retorna e me faz companhia. Respirei fundo, tentei achar uma posição confortável no banco frio de concreto, protegido das intempéries em um coreto coberto de glicínias roxas. Cruzei as pernas, abri o livro sobre elas, mantendo-o aberto colocando ambas as mãos espalmadas sobre margens das páginas, e pousei os olhos no seguinte trecho: "Ele estava vivendo longe. Eu te sinto em alguma parte e não sei onde estás - conseguia ela pensar em palavras. Seu amor era tão fino que ela sorriu constrangida, atravessada por uma frígida sensação de existir. Parecia-lhe extremamente estranho que nessa mesma noite ele vivesse nesse mesmo mundo, que não estivessem juntos e ela não visse o que ele fazia, tão mais forte que a distância era o seu pensamento de amor. Amor era assim, não se compreendia a separação - concluía com docilidade". Se eu fosse dado a crenças místicas nos mistérios da vida, acharia que era um sinal do universo. Talvez uma mensagem de Clarice, talvez de Deus, talvez d’Ela a pedido d’Ele, talvez d’Ele através d’Ela e do livro que eu tinha em mãos. O fato é que sinto que Clarice me entenderia, se estivesse sentada ao meu lado naquele banco do coreto da praça da matriz. Se eu pudesse sentar com ela e conversar sobre a vida, eu diria que estava sentindo, no momento em que li essas palavras, exatamente o que ela tinha dito naquelas páginas.

Olhei na contracapa a data da publicação da obra: 1946. Provavelmente escrito entre 1943 e 1944. Isso era o menos relevante. Ocorreu-me que esse livro havia sido escrito muitos anos antes do meu nascimento. E lembrei-me de um pensamento infantil que era recorrente até minha adultez: quão estranho é imaginar que existia vida antes de nascermos! Que desconcertante é imaginar que coisas próximas – e importantes - já estavam lá antes de existirmos! Eu tinha plena consciência que era soberba minha pensar que nada de importante que se relacione à minha vida poderia existir antes do meu nascimento, mas como disse, era um pensamento infantil. É diferente de pensar na existência do Rei de Portugal ou na Rainha da França, eles eram mitos distantes. Mas pensar que Clarice escreveu aquelas palavras que eu lia e que pareciam escritas para mim, que pareciam diálogos que ela travava comigo, era surreal demais para meu pobre coração. Quis voltar no tempo e encontrá-la, especificamente nos dias em que ela escreveu aquelas palavras, a fim de que ela própria confirmasse que ambos somos feitos do mesmo barro. Impossível, naturalmente, afinal sempre fui um homem inviável constituído de impossibilidades.

Será que ele eu éramos feitos do mesmo barro? Para isso eu não precisaria desejar voltar no tempo. Pelo contrário, desejava que o tempo passasse mais rápido, desafiando todas as leis da lógica e da natureza, e que ele chegasse logo para que eu pudesse olhar em seus olhos claros, que eu supunha indisfarçavelmente tristes, e confirmar o que meu coração e minha mente suspeitavam, para que ele confirmasse que minha pulsação alterada era indício da sabedoria do meu corpo sobre os mistérios de existir. Algo em mim vibrava quando sentia a aproximação dele, mesmo que não física. Eu gostava da sensação de sabê-lo próximo. Apesar da ansiedade e da tensão desse encontro, do desconforto do banco onde estava sentado e da ausência etérea da voz de Clarice, que em momentos como aquele me arrebatava ainda mais, eu estava em paz porque encontraria alguém que dava indícios – pelo menos em meu imaginário – de ser uma possibilidade de amor.

Éramos tão desconhecidos e ao mesmo tempo tão próximos. E embora fosse angustiante essa esfera vermelha que se expandia em meu peito, eu estava arrebatado. Vivíamos de limites, de precariedades, de antagonismos. Minha mente era inundada por pensamentos contraditórios. Sentia um prazer enorme por saber que existia alguém que se interessava por mim do jeito que eu era e logo pensava que muito provavelmente ele não me conhecia, porque eu mesmo devia ter me mostrado com algumas nuances abrandadas para ser mais facilmente aceito. Sentia uma paz quase búdica por saber que eu poderia criar um elo profundo com alguém sem necessitar de defesas e sem sentir-me ameaçado. E encadeada com essa sensação eu era invadido por uma insegurança tremenda por pensar que essas experiências eram apenas projeções de um sujeito inquieto e solitário que, em última instância, somente queria amar e ser amado. Sentia uma ponta de medo pulsando no estômago por pensar que assim como eu projetava nele meus sonhos de amor, ele fazia o mesmo, tentando fazer de mim a peça quadrada que encaixaria no redondo espaço vazio de sua existência. Será que ele me via de verdade ou via algo que queria ver? Será que eu conseguiria corresponder às suas expectativas? O que ele queria, afinal, de mim? A cada passo que eu dava em direção ao local marcado para nosso encontro surgia um novo questionamento. Porém, ao invés de ser refreado em meus impulsos na direção dele com esses pensamentos, comecei a andar mais rápido, como se pudesse deixar toda dúvida para trás se corresse ao seu encontro.

Caiu a noite, dura e fria. A garoa cessara e as luzes dos postes refletiam fugidias nas poças d’água das sarjetas. A rua, antes frenética de automóveis e pedestres, silenciara. Era como se o tempo tivesse parado. Não havia sons externos, não havia movimento fora de mim. Havia somente Clarice, a espera e eu. Eu conseguia ouvir meus batimentos cardíacos, sentia minha pulsação acelerar e uma sudorese viscosa na testa, que tentava secar passando a manga do casaco. Ele estava sensivelmente atrasado, mas tentei achar uma desculpa, como habitualmente faço. Em mais de duas horas muitas coisas poderiam acontecer: Poderia ser o trânsito; ele poderia ter tido problemas mecânicos com o carro, com o táxi, com o ônibus, van ou lotação, com o Zeppelin, balão ou helicóptero, porque não sabia de que forma chegaria; poderia ser um acidente com ele; poderia ser um acidente com outra pessoa que impediu a circulação porque a pista estaria inundada por produtos químicos altamente tóxicos; poderia ter errado o caminho e ter se perdido na cidade que mal conhecia, até acabar em uma boca de fumo, sendo seqüestrado por uma facção terrorista da Al-Qaeda na América Latina; podia ser medo, dor de barriga, ataque cardíaco fulminante, aneurisma cerebral, falta de vontade, falta de jeito, falta de interesse, bomba nuclear, abdução alienígena, convocação militar para defender nossas fronteiras de ataques do Irã. Poderia ser ele, poderia ser eu. Poderia não ser nada. Nada disso.

Esperei. Pensei. Busquei justificativas. Segurava o telefone entre as mãos quase numa súplica para que tocasse. Silêncio. Não resisti e tentei fazer uma chamada. Caixa postal. Escrevi uma mensagem dizendo que estava aguardando no lugar marcado, que entendia o atraso, supunha que algo de grave estava acontecendo e que ficaria esperando por ele, mas não tive coragem de enviá-la. Ainda restava em mim algum orgulho ordinário e descabido. Tentei recobrar a calma voltando às páginas finais do livro. As últimas palavras de Clarice para mim naquela noite foram: “[...] de súbito, numa primeira experiência de vergonha, ele sentiu dentro de si um movimento horrivelmente livre e doloroso, um vago ímpeto de grito ou choro, alguma coisa mortal abrindo no seu peito uma clareira violenta que talvez fosse um novo nascimento”.

E foi um novo nascimento. Será que ele eu éramos feitos do mesmo barro? Nunca saberei. Engoli o choro, coloquei Clarice no bolso interno do casaco para protegê-la do mundo, ergui a gola, coloquei as mãos nos bolsos e saí rua afora sem rumo certo, saltando sobre as poças d’água, como fazia quando criança, até exaurir os pés ou até as poças e as lágrimas secarem.


* [Clarice Lispector: “O Lustre” (1946)]

quarta-feira, 15 de maio de 2013

DE JUNIOR A RUSSO: A NÓS, QUE NÃO SOMOS MAIS TÃO JOVENS



Com atuações mornas e um recorte temporal desconexo e pouco justificável, filme de Antonio Carlos da Fontoura não chega a atingir o ponto de satisfazer a todos os corações oitentistas apaixonados por Legião Urbana

Já nos preparativos para ir ao cinema eu tive uma sensação quase doída de saudade, só de pensar em revisitar uma fase da minha vida que foi de grandes descobertas e transformações profundas. Sou nostálgico, isso não é segredo. Revisitei minha adolescência. Voltei a ter treze ou catorze anos. Adolescer é complicado. A gente está sempre à flor da pele - bem, eu continuo -, tudo afeta muito mais, tudo acontece mais rápido, tudo na vida são urgências e precariedades. A verdade é que crescer dói. E depois que o turbilhão de emoções passa, quando olhamos para trás e vemos de longe o que vivemos, às vezes reminiscências vem à consciência.

Quando o filme Somos Tão Jovens entrou em cartaz eu já estava predisposto a cultuá-lo e pensava nos sentimentos que seriam despertados em mim durante a exibição, ensaiando como conseguiria engolir o choro ao revisitar meu passado despertado pelas músicas e imagens de um de meus heróis mortos. Minha vida toda é cadenciada por trilhas sonoras específicas. Na adolescência isso era mais forte. Sempre foi na música, na literatura e no cinema que busquei refúgio e compreensão do mundo e de mim mesmo. E fui fã (in) condicional e ardoroso de Legião Urbana desde oitenta e bem poucos, quando eu ainda era guri de cara lisa e voz desengonçada. Supunha que o filme seria uma apoteose de imagens e sons, que seria recheado com as músicas da banda, quase um songbook ou um documentário. E ensaiava a dissimulação da catarse que teria quando os créditos subissem e as luzes do cinema acendessem. Acho que esperei demais. Ou fui invadido por outra coisa, por um sentimento inesperado, no limite entre a frustração e o desapontamento.

A produção, que foi um fenômeno de bilheteria e o maior sucesso do cinema nacional de 2013 até o momento, faz um recorte entre 1976 e 1985 da história musical do jovem Renato Manfredini Junior, um atípico adolescente de classe média que vive em Brasília no período do fim da ditadura militar. O filme de Fontoura, cujo roteiro é de autoria de Marcos Bernstein (Central do Brasil), retrata um garoto retraído e frágil física e emocionalmente, que passa de forma um tanto artificial pelo movimento punk, até realizar o sonho de ser líder de uma banda de rock de sucesso.  Assim como acontece com muitos adolescentes, a música era uma forma de autoconhecimento e de expressão para Russo. Esse momento inicial da vida e da carreira artística de Renato, de Manfredini Junior a Russo, é protagonizada nas telas pelo ator Thiago Mendonça (Dois Filhos de Francisco). Do início da carreira, com a formação da banda pós-punk Aborto Elétrico, embrião da banda Legião Urbana, à formação inicial desta última propriamente dita, são dadas algumas leves pinceladas na trajetória do autor de hinos de uma geração como "Que País é Este?", "Geração Coca Cola", "Eduardo e Mônica" e "Faroeste Caboclo".

Fontoura e Bernstein mostram um Renato mais Junior que Russo. Isso é bonito e às vezes quase consegue ser poético, mesmo forçando um pouco a barra. Eles nos apresentam um jovem que também era afetado pelas dores do mundo, que também tinha uma adolescência permeada por sofrimentos, alegrias, descobertas, frustrações e pelas limitações que o mundo impunha. Um adolescente comum que falava a linguagem de sua geração.

O filme é um intermezzo entre a formação intelectual e musical solitária de Renato nos anos 1970 e o fenômeno que foi a banda Legião Urbana entre as décadas de 1980 e 1990. Da mesma forma que o recorte escolhido pelo diretor não foi o que fez mais justiça à trajetória, nem de Renato Russo e tampouco da banda, as atuações dos principais atores foram medianas, pautadas por diálogos artificiais, em especial as expressões construídas a partir das músicas compostas por Russo. Sandra Corveloni (Linha de Passe) e Marcos Breda (Sargento Garcia e For All) são os pais de Renato. Suas atuações não merecem maiores comentários além do registro de não serem mais que bastante superficiais. Faltou entrosamento e familiaridade com a história. O próprio Thiago Mendonça parece demorar mais da metade do filme para encontrar o ponto certo do personagem, embora acerte nos trejeitos em alguns momentos e até consiga arranhar o timbre de Renato quando canta ao vivo. Porém, somente demonstra alguma veracidade mais orgânica ao lembrar vagamente Renato Russo com a barba e os óculos de grau característicos do cantor em tomadas em planos bem abertos. De resto, o filme é arrastado e demora a encontrar o tom. A primeira metade do filme é uma introdução arrastada para algo que não chega a acontecer na metade final.

A banda Legião Urbana foi um marco na cultura musical do país. Foi um dos principais expoentes do rock brasileiro dos anos 1980. Isso tem uma carga enorme. Mas a proposta, pelo menos ao que parece, era contar o início da carreira de Renato e até o surgimento da Legião Urbana e não a trajetória da banda ou uma biografia detalhada do cantor. A impressão que fica é que haverá uma continuação do filme. Quem sabe não vira uma trilogia do tipo Crepúsculo? Acho meio herético, but okay. A bem da verdade, faltaram elementos, faltou profundidade, faltou paixão. Sobrou superficialidade, atuações que ficaram como promessas e uma história que ao final nos deixa com a sensação de que algo se perdeu no caminho ou não foi dito por preguiça dos realizadores. A impressão é que foi retratada uma vida observada pelo buraco da fechadura. Faltou amplitude.

Como contar a biografia de um ídolo no cinema? Como fã, talvez nenhuma biografia faça justiça a um artista da envergadura de Renato Russo. Da mesma forma que alguns escritores, como Caio Fernando Abreu, Charles Bukowski, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, outros cantores como Cazuza, Chico Buarque, Maria Bethânia e outras bandas como The Smiths e umas boy bands insípidas, Renato Russo e a Legião Urbana povoaram meu imaginário pós-infante e pré-adolescente. As músicas da Legião traduziram-me. Confortaram, desestabilizaram, transformaram meu mundo interior. Ousaria dizer que parte do que sou – ou pelo menos do que fui nessa época – devo a essa potência transformadora das letras e melodias dessa banda. Por isso eu sempre esperarei mais de uma biografia, seja contando a trajetória musical do grupo, seja contando a trajetória pessoal de Renato Manfredini Junior, o Russo.

Sua voz ecoou fundo em minha geração continuou ecoando nas gerações posteriores. Essa face de Renato permeia sua obra, sua poesia e nos faz relembrar que mesmo que nossos rostos mostrem as marcas do tempo e das batalhas nem sempre vencidas, somos jovens e ainda é cedo, cedo, cedo. Há nesse filme claramente a escolha de não se explorar as tragédias pessoais de Renato, como sua morte prematura, vitimizado pela AIDS em 1996, ou sua homossexualidade, que é tratada com sutileza e delicadeza. Respeitoso e honesto com a memória do cantor, que em raras oportunidades expôs na mídia sua vida íntima, o filme não traz novidades ao grande público, mas não faz sensacionalismos baratos. E por isso, exatamente por isso, o filme já vale a pena ser assistido. 



terça-feira, 7 de maio de 2013

QUANDO FAL(T)A O CORAÇÃO




Tem um dia da semana que é o meu predileto. É o dia em que as salas de cinema tem promoção de meia entrada. É meu dia de cinema barato em Wonderland. Nesse dia, chego cedo para conseguir comprar ingressos e para não enfrentar muitas filas. Nestas terras longínquas ao sul do equador as pessoas cultivam filas como entes queridos. Às vezes, porém, sou surpreendido.

Cheguei na hora do início da sessão. Imaginava ter que enfrentar uma multidão. Enganei-me. Não havia fila. Nem ao menos a moça da bilheteria estava em seu posto. Tampouco a moça da pipoca ou a que recebe os bilhetes controla a entrada dos espectadores. Aliás, nesse caso, a da pipoca e a da porta eram a mesma pessoa. Além de ser essa mesma moça quem higienizava os sanitários, como ela mesma comentou. Sinais da crise? A sala de exibição estava completamente vazia. As duas funcionárias do cinema, cujas funções eram acumuladas, não pareciam estranhar o fato de estar acontecendo uma sessão praticamente particular, o que me leva a crer que é um fato corriqueiro. O fato de o filme não cair no gosto do público brasileiro não me espanta. Não existe uma política de formação de público por estas paragens. Os espectadores aqui não são talhados para esse tipo de produção porque o ritmo diferente do blockbuster americano é estranho ao olhar.

De Coração Aberto (À Coeur Ouvert) é uma produção franco-argentina e conta com a participação da musa francesa Juliette Binoche (Mila) e do venezuelano Edgar Ramírez (Javier) nos papéis principais. Binoche, que já participou dos pungentes Os Amantes da Ponte Neuf (1991), A Liberdade é Azul (1993), do aclamado O Paciente Inglês (1996) e do interessantíssimo Cópia Fiel (2010), fica apagada nesta produção. Reconhecidamente uma das grandes atrizes francesas da atualidade, parece que nos últimos anos ela não tem feito boas escolhas. Ramírez, por sua vez, talvez esteja no auge da carreira. Somente em 2012 participou de três produções: A Hora Mais Escura, Fúria de Titãs 2 e De Coração Aberto. Desses assisti somente o último, confesso. O roteiro e a direção ficam a cargo de Marion Laine. Este é o segundo longa da diretora, que também assina a direção do sensível e intimista Un Coeur Simple, de 2008, baseado na obra do escritor francês Gustave Flaubert.

À Coeur Ouvert é um filme interessante. A trama é repleta de símbolos possui vários pontos atrativos. Javier e Mila formam um casal de cirurgiões cardíacos apaixonados, independentes, alternativos, descolados e bem longe do padrão dos casais convencionais. São parceiros na vida e no trabalho. Ele é um latino que conseguiu reconhecimento na Europa. Ela é francesa. Ele é competente e alcoólatra. Ela é talentosa e uma ameaça profissional a ele. Vivendo juntos há dez anos, são surpreendidos por uma gravidez inesperada, o que melindra a relação e traz à tona medos e angústias individuais de ambos. E isso é mostrado quase de forma explicativa logo nas primeiras cenas do filme. Daí em diante, existe pouca – ou quase nenhuma – surpresa.

O esvaziamento das salas nas exibições desse filme deveria ser um sinal. Já havia lido que a produção foi um fracasso de bilheteria em seu país de origem, mas não via isso como um sintoma. Porém, após a exibição saí da sala com a sensação de que os atores estavam um tanto descompassados com a atmosfera do filme e entre si, o que me dispersou e me fez olhar o relógio várias vezes. Em alguns momentos a narrativa é arrastada e há dissintonia entre discurso e ação.  Com a falta de uma boa direção, os protagonistas ficaram sem um balizador do tom de suas atuações. Binoche estava um tom abaixo e Ramirez um tom acima. A delicadeza quase etérea dela e a voracidade hercúlea dele em uma narrativa, que ao que parece aspirava ser naturalista, ficaram negativamente acentuadas e desconexas. Ao invés de serem exploradas as chagas de corações abertos em uma relação em crise, parece que foi realizada, de forma febril e inconseqüente, a crônica de um amor louco que beirava a histeria.

Nessa geléia de enganos de uma narrativa repleta de obviedades e truculências, os diálogos superficiais e monótonos não chegaram sequer a ser um rascunho do que talvez fosse a ideia do filme. Existem tentativas de instigar o espectador com metáforas e simbologias artificiais, como a relação bem óbvia da profissão de ambos com o título do filme e com a ideia de corações partidos e a casa onde eles vivem, que se deteriora à medida que a relação se transforma. Mesmo que eu não esperasse a redenção do amor, ou tivesse criado qualquer expectativa com relação aos destinos da trama, parece-me que desfecho foi abrupto, como uma necessidade premente de encerramento porque os recursos – financeiros e narrativos - escassearam. Ademais, a atmosfera realista e naturalista da trama se dilui em um final alegoricamente fantástico repleto de artificialidades.

Apesar de algumas virtudes do roteiro e do talento dos protagonistas, o filme se perde em superficialidades e falhas de direção. É um filme que não é mais que tangente. Tangencia os temas centrais, tangencia a profundidade da relação dos protagonistas, tangencia as simbologias que aponta ao longo da narrativa. Mesmo com uma boa fotografia, que se percebe pelo cuidado com alguns detalhes de luz e textura, o filme tem algumas quebras que tiram a atenção do espectador de forma inevitável. Talvez tenha faltado traquejo à Marion Laine. Faltou jeito e um olhar mais sensível na direção dos atores, na condução das tomadas, na montagem (que às vezes é bem sofrível). No fim da sessão entendi os motivos do fracasso. E embora não justifique a sala onde assisti ao filme estar vazia - porque os motivos aqui no Brasil são outros - faz sentido uma sessão praticamente vazia. É lastimável porque o filme tinha tudo para dar certo. Porém, o pulso de Laine foi frouxo. Espero que ela tenha mais sorte (e lucidez) na próxima investida. 

terça-feira, 23 de abril de 2013

ACERVO PARTICULAR


 “Personal Saint”, by Natalie Shau

[Para ler ao som de "These Days" – Nico]

Parábola sobre a vida cotidiana mais comum que poderia ser a biografia de qualquer um.

Meu nome é Nico. Este não é meu nome original, mas detesto meu nome de batismo. Meu pai que me perdoe, mas é um nome realmente muito feio. Por isso rebatizei-me. Gosto de ser chamada assim, lentamente: Ni-co. Descobri dia desses, mexendo no fundo de uma gaveta do banheiro, que tenho uma coleção bizarra e involuntária. “Coleciono” escovas de dentes de pessoas que passaram fugaz e efemeramente pela minha vida, que surgiram do nada e desapareceram sem deixar rastros. A bem da verdade, algumas marcas ficaram. E eu esfrego, nego e escondo para que elas desapareçam ou sejam esquecidas. Só no último ano, “conquistei” quatro novos bustos para o hall of fame. “Tornei-me perita em extrair faísca das britas e leite das pedras”, lembrando Calcanhoto. “Acordo”.

Se eu fosse dada a crenças ocultistas, diria que meu banheiro tem uma maldição: A maldição do porta-escovas. Depois desse emblemático momento, no qual meu território é demarcado por um forasteiro e o espaço vago da escova de dentes é ocupado por um objeto novo e estranho, o prazo para que a escova (e eu) sejamos abandonadas por quem a cravou nesse lugar é de sete dias. Certo, sete dias pode parecer exagero. Mas já existiram situações em que o sumiço aconteceu em menos tempo. E tenho vontade de cantar para todos eles: “I had a lover, / I don't think I'll risk another / These days, these days. / And if I seem to be afraid / To live the life that I have made in song / It's just that I've been losing so long.”*

Já pensei em fazer uma instalação em uma parede da sala com esses objetos. Quase como um memorial em homenagem a mortos de guerra. O nome seria bonito: “Memorial do Amante Desaparecido”. Numa sala branca e completamente vazia, colocaria na parede cada uma em uma moldura, também branca, como uma caixa de madeira com vidro, e sob elas uma legenda contanto sua história. Seria hilário e triste. E como as pessoas adoram ver a desgraça alheia, eu cobraria ingressos. Histórias de separação e abandono sempre captam público. Seria sucesso garantido.

Vendo essas escovas eu percebo que, assim como a gaveta de meias, as escovas de dentes contam muito da personalidade de seus donos. Por que acho isso? Porque fiz uma longa pesquisa de campo, ao longo de vários anos. Se você tiver a chance, dê uma espiada na gaveta de meias (vale gaveta de cuecas ou calcinhas) de seu/sua pretendente e veja se a gaveta não é exatamente uma fotografia da forma de viver dessa pessoa. Veja se as meias estão dobradas em pares ou soltas, empilhadas ou todas misturadas, se são coloridas ou se são todas brancas, se estão separadas por cor e tipo, se são na maioria de algodão, esportivas ou sociais, se estão encardidas, furadas ou puídas. Perceba o que você sente ao ver essa gaveta. Repare em suas próprias reações. E ao menor indício de que algo está errado nessa gaveta, acenda a luz vermelha de alerta. E fuja enquanto é tempo. Provavelmente existe algo que será, no futuro, um foco de tensão entre você e seu/sua aspirante a par(tner). Por outro lado, se a gaveta lhe causar boa impressão e admiração - ou inveja porque a sua é muito mais caótica - veja nisso um estímulo e invista nessa relação. Mas alerto: Nunca, nunca mesmo, deixe que a outra pessoa perceba que você fez esse tipo de análise! Essas idiossincrasias nunca são bem vistas pela população “normal”. Essa investigação deve ser muito particular e sigilosa.

Mas voltemos às escovas que herdei e seus respectivos donos. Uma delas está praticamente intacta, é uma daquelas cheias de tecnologias, anatomias e ergonomias, do tipo que tem propaganda na TV em laboratórios iguais aos da NASA e os atores - sempre com dentes alvíssimos - usam jalecos tão brancos quanto os dentes. Cerdas super macias, cabo emborrachado, tons neutros. Deve ter sido usada no máximo duas vezes e provavelmente foi comprada com o intuito específico de ocupar meu banheiro. Ele era assim também: asséptico e parecia ter sido criado em laboratório. Outra delas é nova também, suponho. Teve pouco uso, pelo menos. É dessas baratinhas, simplíssimas, reta, em plástico de cor lilás de gosto duvidoso, tamanho grande e cerdas médias. É do tipo que se compra em supermercados, normalmente são quatro ou cinco unidades de cores berrantes num pacote promocional, provavelmente o valor por cada uma não chega mais que alguns centavos. Seu dono, se fosse colocado à venda no mercado público, também não valeria muito mais que isso. Outra, ainda, é uma escova dessas de viagem, cujo cabo vira um estojo para proteger as cerdas. Brinde de uma rede de Hotéis, é aquele tipo precário de escova de dentes, que deve ser usada pelo tempo em que se está hospedado no hotel ou até ser encontrada uma drogaria 24h para que se compre uma escova digna. Não foi o caso, acho. Escova de viajante, ela é também bem viajada. Provavelmente ele encontrou-a perdida em sua mala de resolveu desová-la aqui em casa. Prático. Suas cerdas estão gastas e tortas e o estojo que deveria protegê-las de contaminação mais parece uma daquelas placas de laboratório para cultura de fungos, tamanha a quantidade de resíduos esbranquiçados e pretos de creme dental e bolor. Seu dono deve estar perdido até hoje em alguma ponte aérea entre Amsterdã e Teerã e a escova jamais fará falta, porque sempre há um novo hotel no caminho entre nada e lugar nenhum. A última é idêntica à escova de dentes que uso. Achei uma coincidência tão romântica duas escovas exatamente iguais em meu banheiro. Cheguei a pensar que poderia ser algum sinal do universo para que eu não perdesse a esperança na humanidade. São escovas simples e anatômicas, de tamanho pequeno e cerdas macias, haste transparente com detalhes emborrachados na extremidade e possuem protetores de cerdas na cor da haste. Para não confundir as duas, fiz uma marca na minha. Não tive nem tempo de fazer confusão pela manhã. A escova foi utilizada uma única vez. Esperei semanas que ela fosse utilizada novamente. O símbolo do infinito, que tatuei na minha escova em sua homenagem, ficou. A escova dele foi para seu devido lugar. Quando desisti de esperá-lo infinitamente, joguei-a na gaveta para perdê-la de vista para sempre. A gaveta do esquecimento é um bom lugar para elas - escovas e pessoas.

Mas para dor de amor eu não faço sala**. Por isso, hoje decidi: visitas à minha casa somente guiadas e sem pernoite. Ou então posso fornecer um kit-permanência, de cortesia, com escova, creme dental, fio dental, talvez algum mimo opcional, em uma nécessaire que deve, obrigatoriamente, ser levada embora no dia seguinte e retornar na próxima visita, caso exista. Talvez devesse colocar meu cartão de visitas, nunca se sabe. Porque, né, assim todos estaremos livres das maldições ou de vagarmos, erráticos, pelo samsara. Mas ainda não coloquei isso em prática. E provavelmente nunca colocarei. Esta é uma daquelas metas das listas de início de ano que nunca cumpro. Deveria incluir na próxima lista que devo carregar minha própria escova e cravá-la em banheiro alheio. Seria minha libertação. E antes disso preciso anotar na porta da geladeira para não esquecer e repetir como um mantra: - Nico, imponha limites: Sua casa, suas regras.

Apoio-me sobre a pia com a mão direita e com a esquerda seguro essa quase meia dúzia de escovas. Inclino-me e vejo minha imagem refletida no espelho. Mesmo sentindo ser prática, cotidiana e nítida, ao melhor estilo Passagem das Horas, esse processo de construção e reconstrução de mim mesma é cansativo. É preciso encerrar um ciclo para começar outro. É preciso liberar espaço na gaveta, mesmo que seja para enchê-la com as mesmas coisas. Penso nisso pouco antes de jogar todas essas lembranças na lixeira ao lado do vaso sanitário. E sinto uma pontinha de mágoa no peito porque no fundo, bem lá no fundinho mesmo, queria ter uma vida pacata, de casinha com cerca branca, jardim florido, cadeira de balanço na varanda e em seu interior sonhos compartilhados. Porque a Felicidade, desse jeito mesmo com letra maiúscula, como se fosse o nome de um ente querido, é assim bem Nora Ney: “Felicidade é uma casinha simplesinha / Com gerânios, em flor na janela / uma rede de malha branquinha / E nós dois a sonhar dentro dela.”

Encerro mais um ciclo nesta ciranda infinita. Enquanto ouço o barulho das escovas batendo no fundo da lixeira, tiro o pé do pedal que sustenta a tampa erguida, fazendo com que ela bata em um soco seco. E penso, bem Nico - a outra: “Esses dias eu pareço pensar sobre / Como todas as mudanças vieram em minhas direções / E eu penso se eu vou ver outro caminho.” ***

Amanhã, quem sabe?


____________________________

* “Eu tive um amante
Eu não acho que arriscarei outro
Esses dias, esses dias
E se eu parecer estar com medo
De viver a vida que eu criei na música
É só que eu estive perdido há tanto tempo” (Nico – These Days)

**Ralador – Mariana Baltar

*** “These days I seem to think about
How all the changes came about my ways
And I wonder if I'll see another highway.” (Nico – These Days)




quarta-feira, 10 de abril de 2013

E VOCÊ, JÁ FEZ SEU “OUTING”?



“Lembro quando você me falou,
dentro do armário,
só tem bolor e naftalina.
Vem já pra fora, meu bem,
que só aqui é que tem,
calor e adrenalina.”

(Zeca Baleiro – Armário)


“Sair do armário” é um termo com o qual ainda estamos nos familiarizando. Mesmo quem não sabe exatamente o que significa, já ouviu o termo em alguma roda de conversa e tem uma ideia, mesmo vaga, do significado. Trocando em miúdos, a saída do armário é a decisão de indivíduos, que desenvolvem relacionamentos homoafetivos, de assumir publicamente suas inclinações amorosas. A origem do termo é um tanto controversa. Em uma versão irreverente - que eu particularmente acho engraçada, sendo verdadeira ou não - compara o “Coming Out” ("sair para fora") de indivíduos homossexuais ou bissexuais com um Baile de Debutantes, ou seja, uma espécie de apresentação desses sujeitos à sociedade. O termo “coming out” teve a palavra “closet” agregada posteriormente, segundo consta por volta dos anos 60, a partir do levante de Stonewall, em Nova Iorque, numa alusão à vida no armário como uma vida de negação, sombras, sigilo e segredos escamoteados. Então, sair do armário é sair das sombras, é deixar a escuridão e assumir publicamente “a dor e a delícia de ser o que é”, como cantaria nosso bom Caetano.

Nos últimos dias esse tema tem povoado ainda mais nosso imaginário coletivo e as timelines de nossas redes sociais. Nem sempre de forma positiva, às vezes de forma indigna, vez ou outra em tom um tanto desrespeitoso e jocoso, em vários momentos de forma incoerente, preconceituosa e até mesmo leviana. Mas se há democracia, é necessário que haja esse espaço para o debate, para posturas corretas e distorcidas e para a manifestação livre de pensamentos. Percebo que o tema surge como uma atitude de revolta e repúdio às posturas totalitárias, principalmente de religiosos fundamentalistas. Ao que parece, “o amor que não ousa dizer o nome”, termo que o escritor Oscar Wilde utilizava para referir-se à sua homossexualidade, está mostrando sua cara, em reação a uma minoria que se diz representante de uma maioria. E desconfio que essa “maioria” não foi consultada se queria ser representada por esse seleto grupo. Eu, pelo menos, não fui. Você foi?

Não se faz política apenas em movimentos sociais organizados ou ocupando cargos públicos. Tampouco apenas em redes sociais. Fazemos política a todo momento, da hora de acordar até a hora de dormir, desde os atos mais simples, como o de escovar os dentes todas as manhãs ou o “sagrado pingado com média” em pé no balcão do boteco da esquina. Militamos socialmente com o porteiro do prédio, com o motorista do ônibus, com a atendente da farmácia, com o pai, com a mãe, com o irmão, com o namorado ou a namorada. E até mesmo sozinhos em nossos quartos, no escuro, às três da manhã, enquanto pensamos nas mancadas que damos na vida.

Em uma entrevista dada ao jornal O Estado, Daniela Mercury diz o seguinte, sobre sua recente união homoafetiva: "Ou se assume o ônus de quebrar padrões ou você vive numa posição de discriminado." Esta frase é de uma profundidade enorme. O ato de dizer ao mundo sobre sua orientação sexual é, para muitos, libertador e revolucionário. Mas qual é a real necessidade de falar ao mundo sobre por quem nossos sinos dobram? Simples. Porque é uma forma de fincar a estaca no chão e delimitar nosso espaço, nosso lugar no mundo. Porque é um ato político. No entanto, mais que mostrarmos quem somos, é uma forma de mostrarmos a que viemos.

Ouvi pessoas criticando essa superexposição de algumas figuras públicas em relação a algo que é estritamente de foro íntimo. A quem interessa saber dos sentimentos mais ternos e particulares que dispensamos aos demais? Quem quer saber, em última instância, com quem nos deitamos? Que necessidade é essa que homossexuais ou bissexuais tem de declarar ao mundo suas afeições que heterossexuais não possuem? Essas foram perguntas que eu também me fiz. E arrisco uma resposta. Não interessa a ninguém a quem destinamos nosso amor, ninguém tem que saber quem é o fiel depositário dos nossos sonhos e desejos. E digo que não, não é exclusiva de homossexuais a necessidade de falar publicamente sobre seus sentimentos. É uma necessidade humana. Mas tem um tom contestador (ou subversivo) quando um homossexual vem a público falar sobre sua intimidade. Subverte a ordem porque choca ver quebrado o modelo de amor que povoa nossa imaginação. Alguns ficam, no mínimo, estarrecidos ao imaginar que não existe somente o modelo “Papai e Mamãe”, “João e Maria”, “Adão e Eva”. Como essas pessoas, que tem suas convicções abaladas, vão sobreviver à existência afetiva  - e como estrutura familiar - de “Adão e Ivo”?

Pensado como ato político, “sair do armário” não é somente uma decisão de liberdade individual, é também um direito social. Mais que falar sobre sexualidade, é dizer que sujeitos políticos nós somos. Ao externarmos publicamente o que pensamos, expondo nossos sentimentos mais íntimos, sejam eles quais forem, definimos nosso lugar no mundo. E isso é um ato importante na nossa construção como indivíduos.

Ações afirmativas surgem de uma demanda originada pela suposta maioria hegemônica heterossexual, que normatiza conceitos, posturas e sentimentos, que estabelece o que é certo e o que é errado. Principalmente proíbe veementemente o exercício daquilo que ela própria definiu como errado. E não é uma imposição, não é uma “ditadura” (gay), como muitos bradam com tochas em riste, querer defender o direito a não viver conforme uma norma estabelecida por terceiros sobre algo que é absolutamente íntimo e particular. Por isso é importante que o oprimido mostre sua cara e use sua voz. Por isso é importante que existam grupos organizados para defender esses interesses. Porque é imprescindível dizer que amor não tem credo, amor não tem gênero, amor não tem cor. O amor está em todos nós e é um direito nosso exercê-lo como manda o coração. Como diria Drummond, “Amor foge a dicionários / E a regulamentos vários”.

Precisamos sair do armário. Não para assumirmos publicamente nossa sexualidade. Para muito mais que isso. Para assumirmos quem somos em essência, “assumir o ônus” de declararmos quem somos em profundidade, para lutarmos por dignidade e por nossos direitos mais fundamentais como humanos, para gritarmos em uníssono por aqueles que não conseguem gritar, para estendermos a mão àqueles que são iguais a nós. E àqueles que são diferentes de nós também.

Em tempos de Felicianos e corjas de inquisidores moralistas, covardes e hipócritas, é necessário cada um faça seu “outing” e juntos brademos que somos evangélicos, católicos, umbandistas, budistas, negros, brancos, pardos, índios, homens, mulheres, gays, bissexuais, heterossexuais, transgêneros, jovens e velhos. Porque somente sabendo e assumindo quem somos, poderemos escolher conscientemente quem nos representa.


O LADO BOM DA SESSÃO DA TARDE




Mesmo tendo certa resistência a determinados tipos de produções cinematográficas, me propus a assistir (em meu ritmo biológico peculiar) a todos os filmes concorrentes, pelo menos nas principais categorias, e aos vencedores do Oscar 2013. Já havia comentado sobre Amour, de Michael Haneke. Agora é a vez de registrar algumas impressões sobre o incipiente “oscarizado” O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook), dirigido por David O. Russell, o mesmo de O Vencedor. As virtudes do filme são confirmadas pela quantidade de indicações ao Oscar, o que mostra que a obra está afinada com o objetivo do Academy Awards. Ou então que o Prêmio da Academia está afinado com a finalidade comercial do filme, demonstrando a coerência de um prêmio cujo objetivo é reconhecer e celebrar a indústria cinematográfica americana. Foram oito indicações, incluindo melhor filme, melhor roteiro adaptado, melhor ator (Bradley Cooper), melhor ator coadjuvante (Robert De Niro) e melhor atriz (Jennifer Lawrence).

Pelo elenco e pelo roteiro já é possível medir a febre da produção. Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) é um homem que entra em crise, perde o emprego e um casamento fracassado e é internado em um manicômio judiciário. Por decisão da mãe (Jacki Weaver) é levado para casa dos pais para continuar o tratamento, em liberdade condicional. Ele retorna obcecado por reconstruir a vida que ele mesmo pôs a perder. No processo de reinserção na vida “normal”, ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma mulher também desajustada que provoca mudanças em seus planos futuros. Com esse enredo já tive certa preguiça e já previ o que aconteceria. Não me enganei. Impossível não fazer spoiler logo na segunda frase da sinopse ou já no título do filme no Brasil, não mais infeliz apenas que o título em Portugal (“Guia Para um Final Feliz”).

Embora Jennifer Lawrence, vencedora do Oscar, do Globo de Ouro e do SAG Award de Melhor Atriz, esteja realmente boa no filme - e sua atuação o salve em alguns momentos mais enfadonhos - ele não passa de um americanóide previsível. Apesar de todo mérito da moça - e de Robert De Niro, justiça seja feita - ainda acho uma injustiça ela vencer a espetacular e densa atuação de Emmanuelle Riva em Amour. Quando penso nessas injustiças da Academia, lembro que o prêmio não é para os melhores do ano, é para os melhores do ano nos Estados Unidos. Então meu coração se acalma.

Minha sorte é que era um dia qualquer de meio de semana, num fim de tarde com pouco ou quase nada para fazer. Entre um papo relativamente descontraído (e muito inusitado) em uma cafeteria e uma passada de olhos no jornal do dia vi que o filme começaria em quinze minutos. Não hesitei e me joguei na sessão. E se a proposta era um passatempo qualquer sem pretensão alguma, o filme se prestou perfeitamente.

O lado bom do filme é ser bem feito, bem amarrado e sintonizado ao que se propõe. Ele diz a que veio e cumpre satisfatoriamente. Resumidamente, ninguém se lembrará dele daqui a seis meses, mas é um filme honesto. É “levinho”, “divertidinho”, “bonitinho”. É um filme "inho". Mas confesso agora: em alguns momentos torci para que acontecesse o que aconteceu no desenrolar da trama. Adoro clichês, inclusive na vida real. Pena que do lado de cá da tela, nem sempre os finais são felizes. Por isso nos refugiamos da vida real nessas salas escuras, nem sempre confortáveis.