segunda-feira, 8 de agosto de 2011

LA QUESTION

Rafael Perez - "Everytime I look At You"

Para ele tudo tinha um lugar definido. A vida estava organizada e todas as peças do quebra-cabeças tinham um encaixe perfeito. Pelo menos essa era a sensação que tinha superficialmente. E superficialmente funcionava bem. Porém, quando lançava um olhar interior mais detido, conseguia ver a desorganização e a poeira que se acumulava nos cantos. Justamente por perceber isso, evitava a tarefa dolorosa de vasculhar seus cantos escondidos. Bastava estar vivo e estar seguindo o que havia sido designado para si por outros. E não viveria mal dessa forma irrefletida. Sabia que era possível viver assim a vida toda.

Começou a perceber, porém, que surgia uma intensa angústia, como se um cordão tensionado estivesse prestes a rebentar ou uma comporta prestes romper em algum lugar ainda desconhecido dentro de si. E sabia que essa explosão seria devastadora. Evitaria o quanto pudesse esse momento. Tratou de cobrir toda a poeira com filosofias orientais, comida macrobiótica, religião, psicanálise, álcool, relacionamentos fugazes. Tentou fechar todas as janelas, todas as portas, cobriu todas as frestas da luz do sol, tirou o telefone do gancho, não leu e-mails, não atendeu à campainha. Como sempre foi cético e um tanto soberbo, achou que conseguiria manter tua vida numa câmara de laboratório com temperatura, umidade e pressão controladas. Era um cientista, trabalhava com dados precisos, tinha metas e queria resultados claros. Imaginava que conseguiria criar um casulo hermético. Afinal, já havia conseguido controlar tantas coisas e era exigido por todos a manter o controle, que essa tarefa parecia ser, além de fácil, o que todos esperavam dele. Vestiria o avental branco, manipularia os materiais e ao fim teria a velha sensação de dever cumprido, de ter feito o que seu pai esperava, o que sua mãe havia planejado para ele, o que seus pares desejavam.

Não adiantou. Existia algo, talvez externo, e muito mais forte que ele.  Foi obrigado a reconhecer que não conseguiria conter ou manipular a energia da vida e da natureza. Essa vida que invadia todos os lugares, penetrava profundamente todas as coisas e tornava-o frágil e desprotegido. Percebeu-se à deriva, inevitavelmente, ao sabor do destino e de suas forças.

Quis outra vida, arrumou a mala e mudou de cidade. Buscou reescrever sua história. Encontrou um trabalho, um grande amor e arrumou a casa. Tentou colocar a vida dentro de uma bolha, alheia às intempéries. Por um tempo conseguiu. Era uma grande ilusão, sabia, embora negasse. No fundo de seu coração sabia que não conseguiria bloquear a vida exterior que insistia em invadi-lo. A cidade se tornou um tropeço, o trabalho uma obrigação, seu amor o deixou para sempre. Viu-se desamparado.

Decidiu, então, mudar de estratégia – porque julgava-se também exímio estrategista. Abriu todas as janelas, todas as portas, desobstruiu todas as frestas e estourou a bolha com força. Deixou a vida entrar, torrencial, carregando todos os entulhos que havia acumulado. E descobriu uma nova possibilidade de amor. Quando menos esperava, alguém entrou pela porta que havia deixado aberta. Viu um ser que chegava de mãos vazias, braços abertos e um olhar que lembrava vagamente o homem que foi antes de tantos desastres. Permitiu que esse desconhecido permanecesse, mesmo que fosse apenas para identificá-lo, classificá-lo, catalogá-lo e arquivá-lo, como fazia habitualmente. Não conseguiu. Era algo inclassificável, um ser etéreo e quase impalpável, que chegou sem pedir nada e nada perguntou. Ele percebia que existia algo de seu nesse outro ser. No fundo sabia que não era por acaso que havia entrado pela porta entreaberta, sem ser anunciado ou esperado.
Natural e amorosamente investigaram-se, esmiuçaram-se, descobriram-se. Mas havia uma barreira entre eles, estabelecida por medos, distâncias e reservas. E não aceitavam essa barreira passivamente. Era desconfortável e dolorosa a limitação. Não conseguiram suportar o distanciamento. Queriam ir ao mais fundo do outro, chegar às entranhas mais remotas, os lugares mais secretos, onde medos, reservas, preconceitos, julgamentos, hábitos e tradições não fariam qualquer sentido.
Questionaram-se mutuamente sobre os motivos desse sentimento de desconforto em relação ao distanciamento que eles próprios estabeleciam. Ambos tinham motivos para manter as armaduras e não conseguiam vencer as barreiras interiores que haviam construído. E sabiam que deviam romper esses limites, porque isso era a vida chamando-os e essas posturas chocavam-se frontalmente com tudo a que se propunham naquele momento, implicitamente, com o outro e com eles próprios.
Então, ele conectou-se ao mais profundo instinto vital que conseguia localizar em meio aos escombros do que era. Varreu a poeira dos cantos, respirou fundo, queimou um incenso, mentalizou um mantra, localizou o velho LP com a música que não saia de sua cabeça: “Je ne sais pas qui tu peux être / Je ne sais pas qui tu espères / Je cherche toujours à te connaître / Et ton silence trouble mon silence”**. Recostou-se e entregou-se.   

** “Eu não sei o que você pode ser / Eu  não sei o que você espera / Procuro sempre te conhecer / E seu silêncio perturba meu silêncio” (Françoise Hardy – La Question)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CARTA PARA ALÉM-MAR

Osvaldo Goeldi - Abandono

Já faz tempo que ando ensaiando escrever para você. Não sei se você vai receber esta carta. Nem sei mais seu endereço. Acho que nem sei mais quem é você, nem quem sou eu. Mas queria ter notícias suas. Mesmo tendo a sensação de escrever aquelas cartas que colocamos em garrafas e jogamos no mar sem saber se chegarão ao destinatário, sabe? Você vai achar estranho eu escrever agora, depois de tanto tempo que você foi embora, perguntando sobre como a vida tem lhe tratado. Se bem lhe conheço, você fará um ar blasé, dirá com a voz profunda, levemente rouca e calma que lhe é peculiar, que está tudo bem, afinal sempre esteve. Você não gosta de falar sobre si mesmo. Nem com seu analista, eu sei.

No fundo eu sei a resposta para a pergunta que agora lhe faço. Não precisaria perguntar por você, porque mesmo distante, mesmo sem lhe ver, eu sei o que aconteceu e sei como você se sentiu. Eu sempre senti você à distância. Sabia o que você estava pensando quando olhava nos seus olhos fundos, tristes e marejados. Sabia o que estava pensando e sentindo quando você sumia por dias e voltava com ressaca moral e comiserado por ter feito bobagens por aí. Às vezes encontrava pessoas na rua que me perguntavam por você e eu dizia, reticente, que estava tudo bem, que você estava cuidando com mão de ferro da sua própria vida. No fundo eu sabia que não. Você nunca conseguiu tomar as rédeas da sua própria vida. Sempre achei triste e ficava angustiado quando você tentava dizer que estava tudo bem – e eu sabia que não estava – da mesma forma que me entristecia quando você esmorecia e demonstrava suas fraquezas, deitado no meu colo, encolhido, e choramingava que a vida era vazia e você não via sentido em nada.

No dia em que você sumiu pela última vez eu sabia que seria para sempre. Eu até tentei fazer você voltar, como eu costumava fazer, brigando, dizendo palavras duras, me contorcendo em cólicas, ligando e mandando mensagens, para depois lhe abraçar apertado, querendo que você fosse mais forte e encarasse a vida de frente. Porque eu estava ao seu lado, para o que fosse, mesmo que eu mesmo não conseguisse ser o que esperava de você. Eu também não era forte, nem conseguia enfrentar tudo. Mas tinha a ilusão romântica de que juntos poderíamos mudar o mundo. E quem roubou nossa coragem? Não sei. Talvez nunca tenhamos sido corajosos, talvez ainda sejamos e não conseguimos achar essa coragem escondida no fundo do peito. Mas eu queria tanto enfrentar o mundo com você. Achava que poderíamos ser tão grandes, luminosos, bonitos. Achava que irradiávamos uma energia intensa, porque nos amávamos intensamente, e que essa energia atingiria todas as pessoas e tornaria a vida mais branda, mais fácil, mais clara.

O fato é que você foi embora para sempre, e eu sempre soube que isso aconteceria. Só não sabia que seria tão cedo, nem da forma violenta que foi. Você sempre pode fazer tudo o que quisesse. E fez. Amaldiçôo o livre arbítrio! Amaldiçôo a liberdade! Queria que você tivesse escolhido o que a vida estava oferecendo e você se negava a ver, queria que você tivesse escolhido a mim, como eu escolhi você. Queria poder trancar a porta e impedir você de sair. Bater na sua cara e dizer: “Acorda! A vida é madrasta, mas está sendo generosa com a gente. Vamos viver!”.

Senti raiva quando tive a certeza que você tinha ido embora para sempre. Queria olhar nos seus olhos fundos e tristes e dizer que você estava fazendo uma grande besteira. Pensava: Com que direito você revira a vida de todo mundo que te ama, cara? Que direito você tinha de fazer da sua vida o que fez, enquanto eu estava aqui, preparando o jantar e esperando você chegar com a casa arrumada? Com que direito você dá descarga nos nossos sonhos mais íntimos? Mas sei que não adiantaria. Você tinha escolhido um caminho sem volta. Sempre fomos individualistas e demarcávamos nossos territórios. Sempre prezamos nossa individualidade. Mas tínhamos nossos sonhos juntos também. Quando chego ao fundo do poço, me sentindo miserável, rejeitado por você e rechaçado pelo mundo, lembro dos nossos sonhos. Eram bonitos nossos sonhos, né? Éramos bonitos juntos quando sonhávamos. Só que sempre chegava meia-noite e você tinha que voltar para a realidade. E eu voltava a ser abóbora. “Anyway, we gonna die”, você dizia com a chave na mão.

É, sei que você pensa que eu sou egoísta. E eu estou sendo mesmo. Mas precisava dizer que meu amor não era descompromissado. Nem Yoga, nem Jung ou New York ajudaram muito. E não, baby, eu não vou para o céu por isso. Mas quando penso nessa raiva que senti porque você foi (sim, você foi) egoísta e escolheu a si mesmo e não deu a mínima para as pessoas que realmente lhe amavam, me sinto completamente ridículo, mesquinho e vil. Logo depois paro e penso: “sem drama”, como você adorava dizer nas minhas crises, na verdade eu não fui assim tão devotado. Eu, assim como você, sou um pouco o rato do navio, que é o primeiro a pular quando o barco afunda. Várias vezes tive dúvidas e pensei em mudar o rumo. Contingências. Mas eu queria tanto que nós remássemos juntos!

Até que chegou o dia que todos os sonhos viraram pó. Você foi. Eu fiquei. Meus sonhos ainda são meus. E os seus? O que será que você fez com seus sonhos? Queria poder sentar novamente naquele bar que freqüentávamos e saber dos seus sonhos e dos seus planos. Sabe, nunca mais consegui passar nem na frente do bar. Na verdade, depois que você se foi nunca mais consegui um monte de coisas. Sei que um dia vou ter que voltar a conseguir, porque a vida vai ter que continuar, mal ou bem. E quer saber? Eu até tenho me orgulhado de vez em quando, tenho me saído bem nessa dança, mesmo errando o ritmo e dando passos em falso.

Estou lhe escrevendo porque tenho lembrado de você todos os dias. Às vezes tenho a sensação que você já vai chegar, que o telefone vai tocar e será você, com sua voz mansa, dizendo que está na porta, e vamos pedir algo para comer e vamos assistir a um filme. Mas não, nada disso acontecerá. Você se foi para sempre e eu nunca mais terei notícias suas, eu sei. Somente as lembranças (boas e ruins) que vão ficar guardadas numa caixa no fundo do armário. Quem sabe um dia eu tome coragem, lhe leve umas flores bem bonitas, onde quer que você esteja, e faça uma oração por você.

Saudade.

Do Seu,

.




sexta-feira, 8 de julho de 2011

VIAJANTE DAS ESTRELAS


Rafael Perez - "French Kiss"



“Não sei bem certo onde eu vou
Pode não dar pé
Posso me perder por aí
Eu tenho medo de tudo
Não gosto de bicho, do mato
De andar sem sapato
Mas tô indo lá
Mesmo assim eu vou”
(Monique Kessous – No Mundo da Lua)


Existia algo dentro dele que crescia a cada amanhecer. Desde o dia incerto que sua porta foi batida por alguém que não avisou que vinha. Era algo bom, bonito e brilhante essa coisa meio alaranjada e meio quente que crescia em seu peito. E não era completamente desconhecida também. Reconhecia vagamente essa sensação porque talvez, em uma longínqua juventude, já tivesse sentido esse choque na altura do plexo, esse leve formigamento nas extremidades, esse calor na nuca, como quando se sentava ao sol, num dia frio de inverno, e os raios penetravam seu corpo inteiro e proporcionavam aconchego. Ou quando, na infância, se sentava ao lado de sua avó em frente ao fogão à lenha e ouvia histórias, enquanto comia pães quentinhos com erva doce.

Sentia uma alegria leve e serena, mesmo causando um certo desconcerto e torpor. Não queria conceituar ou racionalizar essas sensações, mas tinha uma ideia do que poderiam significar. Eram, por certo, impensadas naquele exato momento em que as percebia. Impensadas porque ele não se julgava digno delas e nem preparado para vivê-las. Estava atravessando dias cinzentos. Embora tivesse consciência que era uma fase e que chegariam dias mais ensolarados, pensava que esse momento tinha um tempo certo de maturação. Havia aprendido a cultivar sentimentos respeitando o tempo de cada um. Com estes não poderia ser diferente.

O fato é que essa luz quente entrou pela porta entreaberta de sua vida quando dentro havia frio e penumbra. Vivia uma dor recente que havia se tornado conhecida, mesmo não sendo nem um pouco bem-vinda. E isto era o mais irônico de tudo: Ele conviva com uma grande dor, surgida abruptamente, e não se sentia preparado para viver uma grande alegria inesperada. E sentiu-se culpado por viver essa grande alegria logo depois dessa grande (e talvez não curada) dor. Culpa cristã, reconheceu de pronto. E tratou domá-la. Não questionava os caminhos que o fizeram chegar até aquele momento, sabia somente que era bom sentir e que queria estar de peito aberto para viver o que sentia.

Por algum tempo alimentou-se de algumas pequenas porções de carinho descompromissado, gentilmente ofertado através da porta que havia deixado entreaberta. Recebia algumas imagens, alguns sons, muitas palavras soltas. Uma colcha de retalhos foi tomando forma. Juntamente com essa alma que batera a porta, teceu fio a fio essa trama. Essas duas almas que agora se encontravam tornaram-se bons fiandeiros do tempo, talhados ao longo da vida, e aprimorados na convivência que começara.

Ele era cético e incrédulo. Já havia levado alguns tombos ao longo do caminho e precisava da certeza (ou pelo menos de uma dúvida menos atroz) de que aqueles sentimentos, num primeiro momento censurados por serem julgados prematuros, poderiam ser uma possibilidade e, em última instância, possibilidade de que. Materializava as virtualidades em busca de sentido. Tecia conceitos vagos com os fios tênues que tinha. Mas essa impalpabilidade da situação começou a incomodá-lo.

Havia decidido: sairia da penumbra e veria sob a luz do sol, e o mais completamente que pudesse, aquela alma que despertava nele aquelas emoções tão fortes e incomuns. Tinha somente um caminho. E foi esse que seguiu. Rumou ao encontro daquele (des)conhecido. Coração disparado, mãos frias, têmporas úmidas, expectativa. Na bagagem somente a certeza de que chegaria sem máscaras, sem ilusões, sem tentar demonstrar nada que não fosse exatamente o que ele era. Também não havia muito que apresentar depois de tantas batalhas perdidas e ilusões desfeitas. Restava apenas um sorriso amarelo e vastas olheiras emoldurando um brilho longínquo no olhar. Tirou a armadura, abandonou as fantasias e foi.

A viagem pareceu durar semanas. Leu um livro, ouviu músicas, fez palavras cruzadas, tentou, em vão, dormir. Então fez um roteiro. Imaginou como seria a descida no portão de desembarque frame a frame. Todas as marcações estavam definidas, todos os diálogos afinados, todos os enquadramentos estudados minuciosamente. Pensou em cada possibilidade, milimetricamente. E, na vida real, estava despreparado para todas.

[A porta automática abre. Close no chão pisado por um par de all star sujos. A câmera sobe pela calça surrada, o casaco pesado de veludo, amassado da viagem. A câmera fecha nos olhos. Corte para um plano aberto do saguão repleto. Point Of view: Imagens longínquas e difusas. Sons sem forma. A câmera volta para as mãos, em primeiríssimo plano, que mexem nervosas em papéis nos bolsos do casaco, das calças, reviram a bolsa de couro preta atravessada no peito. Encontra o bilhete da bagagem. Corte para um close up na nuca, enquanto ele caminha para a fila de despacho da bagagem. Corte para a alça da mala sendo arrastada. Em plano médio, ele pega a mala, arrasta-a entre as pessoas. Ouve-se somente o som seco dos rodízios contra o assoalho. Ele atravessa a cerca que separa a área de desembarque da área externa. A câmera permanece fixa, em plano médio, fechada somente nos pés e na mala sendo arrastada. A imagem vai ficando mais distante à medida que ele se afasta. Ele para de caminhar. Apoia a mala. Surge alguém em sua frente, identificado somente por um par de sapatos marrons de camurça. Lentamente o plano vai sendo ampliado até resultar em um longo plano aberto de todo o saguão. Vê-se um longo abraço dos dois em meio à multidão. A câmera é erguida pela grua e é feita uma tomada panorâmica do lugar.]

Não, nada disso aconteceu. Foi guiado por impulso e chegou de peito aberto, com a coragem que somente os loucos e os apaixonados tem. Não sabia em qual grupo se enquadraria. Só tinha certeza que estava meio sem graça. Era fim de tarde de um dia frio de inverno. Chovia. O portão de desembarque repleto de pessoas apressadas. Na verdade, não imaginava encontrar ninguém à sua espera. Havia planejado pegar um táxi, ir para um hotel (onde não tinha nem reserva), entrar em contato e talvez marcar um jantar em qualquer lugar. Não tinha planos, apenas vontades. No meio da multidão, porém, avistou aquele par de olhos claros que povoavam seu imaginário amoroso há algum tempo. Foi tomado por uma torrente de emoções confusas. Encontraram-se, abraçaram-se intensamente. Um abraço como o de reencontrar alguém que não viam há muito tempo. Um abraço de boas-vindas pelo retorno ao lar. E realmente foi.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

RECOMEÇOS

Rafael Perez

"Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica de mim  é cada vez mais essencial e verdadeiro."
(Caio Fernando Abreu)

A cada dia a vida me surpreende de uma forma diferente. São nuances, sutilezas, delicadezas quase imperceptíveis, em meio a asperezas e brutalidade. Em vários momentos, imerso em sofrimento, já pensei nos desígnios de Deus para mim e nos desafios que o destino me reserva. Às vezes a vida se torna pesada, dolorosa e não consigo ver saídas possíveis. Mas sempre é possível recomeçar por outro caminho. Tateando no escuro, quando menos espero, acho uma luz. E essa luz me guia até a porta. De alguma forma inexplicável (ou nem tanto) sou levado até essa chama. E tenho encontrado pelo caminho chamas tão fortes, tão intensas! Às vezes parece um tapa na cara, quando penso que não vai dar certo e não vou encontrar um rumo, a vida vem e diz “hey, acorda, a resposta está na tua cara!

Acredito, sinceramente, no destino. Não é totalmente ao acaso que sou colocado (ou me coloco?) em determinadas situações, que chego a determinados lugares, que entro na vida de algumas pessoas e, principalmente, que recebo em minha vida determinadas pessoas. Tenho esses sentimentos em relação a quase todas as situações. Não sou muito crédulo no poder do “acaso”. Cultivo com carinho essas chamas que foram colocadas no meu caminho. Porque sei que podem ser doces companheiras de jornada, ao longo de uma vida inteira ou por apenas um dia.

Isso me lembra uma história que ouvi esses dias, de uma dessas pessoas especiais que quero levar para sempre vida afora, que era uma confissão linda sobre um desses encontros de almas. Essa pessoa contava sobre uma moça que conheceu, em uma viagem. Ambos viviam, coincidentemente, na mesma cidade. Durante a viagem foram companheiros inseparáveis. A viagem acabou, cada um tomou seu rumo, continuaram vivendo na mesma cidade, porém não se cruzaram mais pelas esquinas da vida. Mas a história que tiveram nessa viagem deixou marcas indeléveis em seus corações, laços profundos de amor e amizade. Fiquei comovido com o relato, principalmente porque veio de uma pessoa encantadoramente sensível. E isso me fez pensar que o que faz a vida valer a pena são esses fugazes momentos de felicidade, é poder partilhar com outro ser humano sentimentos puros e verdadeiros. Pelo tempo que for. Porque nunca é muito ou pouco, o tempo é sempre o exato necessário.

Vejo o destino como uma folha em branco. Ao longo da jornada a gente adquire alguns lápis pastéis coloridos, algumas tintas. Podemos desenhar o que quisermos. Alguns desenhos não dão certo e tentamos apagá-los, mas o papel fica sempre marcado. Então pintamos algo por cima, mudando as formas, pressionando mais o lápis num canto, “hachurando” em outro, damos pinceladas aleatórias, até que o desenho faça sentido.

Meus desenhos normalmente são abstratos. Mas sempre tem algum traço com o qual posso conferir forma definida, tentando transformar meu desenho em algo real e vivo. Sonho em fazer os desenhos saírem do papel. E lembro de uma propaganda antiga da Faber Castel, com a música Aquarela, do Toquinho. Quero que meus desenhos dancem no ar. Quero que tenham emoção e façam as pessoas felizes. Como algumas me fazem.

A MAIOR DOR DO MUNDO

Raphael Perez - Couple Hugging, 1998, Oil on canvas


“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais.”
(José Saramago)

O dia havia amanhecido diferente. Mas ele não sabia o que era, porque não tinha  tamanha sensibilidade. Achava que era somente mais um dia de incertezas e silêncios estéreis. Nesse dia qualquer, no meio da rua, desarmado e desamparado, recebeu a notícia que jamais imaginou receber. Aquele a quem dedicava seus dias, suas noites, seus risos e seus silêncios, com quem tentava tecer sonhos e construir realidades, que dava certo sentido ao seu destino insólito, preenchendo lacunas, e que havia sido escolhido para ser chamado de “companheiro”, havia partido.

Ele estava devastado. Tinha vontade de gritar para o mundo sua dor, como se dessa forma ela se esvaísse em si mesma e se perdesse no universo. Perder uma das pessoas que mais amou era algo que não tinha nome e ultrapassava qualquer racionalidade.  A partir daquele dia, e para o resto da vida, seu companheiro seria apenas uma lembrança sofrida que com o passar do tempo seria no peito uma saudade fina de um passado que foi presente e não chegou a ser futuro. 

Desesperadamente correu ao encontro do seu companheiro, como se precisasse comprovar que aquilo tudo que estava acontecendo era um sonho ou um engano. Refez os trajetos que tantas vezes fizeram juntos, nos dias ensolarados que viveram. Cada metro percorrido era visto com estranheza e incredulidade. Numa espécie de transe, imerso em lágrimas que brotavam vorazes e rolavam pelas faces ressecadas até se perderem entre os fios da barba mal feita, com a boca amarga e seca e uma dor na altura do plexo solar, chegou ao local onde estava seu tão caro companheiro. Paralisado, aos pés de um corpo sem vida, que era uma vaga lembrança do seu amor, viu-se mais uma vez completamente sozinho. Havia perdido seu porto seguro, sua referência na cidade (e no mundo) onde viviam. Já havia aprendido a conviver com a perda do que continuava em algum sentido, mesmo estrito, vivo, mas perder algo que teve a vida inexoravelmente esvaída  era algo que causava uma dor diferente. Parte de sua própria vida havia sido ceifada naquela hora, de forma abrupta, repentina, brutal, estúpida. Era como se tivessem lhe arrancado os braços, as pernas, os olhos, o coração.

Eles tiveram uma história breve e intensa. Estreitaram laços profundos de amizade, acima de tudo. Eram companheiros para todas as horas. Conquistaram um reino, invadiram o castelo, enfrentaram dragões, os monstros do fosso, tentaram salvar a princesa, aspiravam ser Cavaleiros do Rei, poliam suas armaduras com orgulho após as batalhas e no fim de cada dia repousavam nos braços um do outro. Eram brandos, mas poderiam ser duros quando necessário. E desejavam-se mutuamente um bem enorme. Estavam perto quando o outro fraquejava e ofereciam colo quando era inevitável chorar. Tentaram, sem muito sucesso, construir uma vida juntos, aos trancos e com as inúmeras limitações que tinham.

Carregando no peito um baú imenso de lembranças e saudades ele chorou seu morto com as poucas forças que tinha, sem conseguir chegar muito próximo dos restos daquele a quem confessara o amor mais puro que ja sentira. Por vezes perguntou ao infinito, olhando marejado para o céu, enquando soltava a fumaça do cigarro em um sopro seco, que Deus é esse que atende às súplicas por auxílio e quando os pedidos começam a ser atendidos, decide, a revelia, que havia bastado e dava um ponto final à vida.  

A vontade que tinha era de abraçar forte o seu morto. Queria abraçar-se naquele corpo sem vida e chorar a amargura imensa que estava sentindo. Mas não podia. Tinha que engolir o choro e sufocar sua dor de todos os que os cercavam naquela hora, vestidos  com carrancas repreensivas e estupefatas. Fugia da capela, corria para o estacionamento, e apoiado em uma árvore desabava seu pranto.

O sincero e verdadeiro amor que tiveram era quase secreto, quase proibido, embora seus olhos denunciassem ao mundo o que sentiam. E era bonito, honesto, autêntico e despertava em ambos o desejo mais íntimo de serem melhores. Para alguns, porém, eram invisíveis e o que existia entre eles era impronunciável. Mas a dor que sentia naquele momento em que estava prestes a enterrar seu morto era autêntica, intensa e tinha nome e voz. Inevitavelmente todos souberam o que estava acontecendo, quem eles eram e o que representavam um para o outro. E não conteve o pranto, mesmo em meio a olhares curiosos e desaprovadores.

Ele sepultou seu companheiro num fim de tarde cinzento, de um dia que talvez até tivesse sol. Aquele dia ficaria marcado para sempre em sua retina. Seria mais uma marca indelével em seu ser. Sabia que teria uma dor que carregaria no peito para sempre. Sabia também que sua vida deveria prosseguir. Que deveria reerguer-se e continuar vivendo. Essa era sua obrigação. Chegou em casa, na primeira e mais dolorosa noite em claro, cheirou travesseiros, pijamas, cobertores, procurou resquícios de vida entre os lençóis, chorou a escova de dentes sobre a pia, os copos ainda sujos, as bobagens guardadas na geladeira e nos armários,  guloseimas que devoravam assistindo filmes, o controle remoto sobre a cama, as memórias, os presentes, as lembranças, as dedicatórias, as confissões, as fotos. Chorou até se exaurir.

O dia seguinte rompeu pelas frestas da janela. Absolutamente lúcido e dilacerado recolheu e guardou todas as lembranças, tangíveis e intangíveis, no lugar mais especial, bonito e digno do seu coração. E esse era o lugar onde deveria ficar preservada a vida que tiveram. Porque era assim o amor que tinham. Porque era isso que ambos esperavam do outro.

Inteiro entrou. Inteiro saiu. As cicatrizes permaneceriam para sempre, indeléveis. E a vida seguiria seu rumo. Vez ou outra choramingava no colo de algum de seus queridos ou sozinho no quarto, deitado sobre o tapete em posição fetal, buscando conforto e tentando recobrar as forças. Encontrou outros seres pelo caminho que ajudaram a amainar a dor até que as feridas cicatrizassem completamente. Processou seu luto, viveu intensamente todas as emoções que surgiram. Ergueu-se, carregando seu companheiro na lembrança. E sobreviveu.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

DESIDERIUM OU DOS SIGNOS DO DESEJO

(Para ler ao som de Barbara, “La Solitude”)
“I sit in my chair
And filled with despair
There's no one could be so sad
With gloom everywhere
I sit and I stare
I know that I'll soon go mad”
(Billie Holiday – “Solitude”)


Abrem os olhos e recobram a consciência. Dormentes ainda, abandonam seus casulos. Olhos fundos. Quatro olheiras refletidas simultaneamente em espelhos suados de banheiros de claustro. Distantes, distintos, dispersos, diametrais. Escovam os dentes, lavam os rostos. Tentam espantar a sonolência que restou de mais uma noite mal dormida. Frescor matinal de hortelã e sabonete de lavanda barato. Vestem suas calças surradas e camisas puídas com a lembrança longínqua de alvura. Olham para si mesmos, na tentativa vã de resgatar aquela brancura de outrora, recordada a partir do branco que não há em suas vestes.

O ritual é rápido, porém metódico. Do quarto para o banheiro, do banheiro para o corredor, do corredor para a cozinha, agora invadida pelo cheiro de café passado, que misturado ao azedo do lixo acumulado invade como um soco seus estômagos vazios. As bocas secas e amargas de noites em claro, de incontáveis doses de conhaque de alcatrão e cigarros baratos em bares incertos, pensando bobagens, bebendo besteiras, salivam ao sabor imaginado do amargo quente do café. Bebem com avidez, não somente pelo tempo escasso que possuem, mas por tudo que lhes falta.

Desde crianças ouviram que o trabalho dignifica o homem. Talvez fosse o único resquício de dignidade que conseguiam manter e que os fazia acordar todas as manhãs. Com a mesma irreflexão metódica cumprem o destino que lhes foi imposto. Impregnados pelo hálito de hortelã, café, gengibre e cigarros imergem no caos cotidiano. Como prisioneiros de Auschwitz, em meio a outros condenados, enfileirados, rumam ao campo de extermínio. Seus corações se cansaram de tudo, mas ainda assim seguem, dia após dia, cumprindo deveres e realizando um fim predestinado.

A paisagem da janela do trem é sempre a mesma: o cinza dos prédios, a brutalidade, a indiferença. As mesmas asperezas de sempre, tingidas com tintas fortes. Como numa fotografia, um observa o sorriso largo e congelado do mendigo desdentado, enquanto o outro pensa, vendo os borrões cinzentos vistos da janela, em quanta beleza é possível descobrir na feiúra e até que ponto é possível encontrar luz nas sombras.

Embora diametralmente opostos, tanto física quando existencialmente, parecem “plasmados”, termo que um deles certamente usaria para descrevê-los, embora sejam completamente desconhecidos. Algo indefinido e inominado ecoa no peito de cada um. Simultaneamente saídos do vórtice de pensamentos encadeados, desembarcam em suas respectivas estações. O calor é nauseante. Mercado público. Tumulto. Bancas de peixes, de pastéis fritos, de hortaliças, mendigos, ambulantes, vozes dissonantes, desvalidos de toda sorte. Caminham em meio à multidão. Todos em volta são iguais entre si e iguais a eles, em algum sentido.

Cotidianidades: Os pensamentos cessam. Um entra no grande prédio de escritórios. Saguão. Elevador. Quinto andar, por favor. Corredor. Recepção. Sala. Pára em frente à mesa. Suspira profundamente. Deseja bom dia às pessoas da sala, por educação e cordialidade. É preciso, afinal. Por tudo que faz, pensa e diz, sabe que todos o consideram “estranho”. Veste sua armadura e mergulha na burocracia que o dia reserva. Sufoca-se. Há tempos. A visão fica turva. Apanha um café e procura os cigarros amassados no bolso da calça desbotada. Entre um gole e uma tragada, que lhe chegam como uma bênção, tenta lembrar a frase de um samba antigo de Noel. Como era mesmo? Batuca na perna: “Viver alegre hoje é preciso / Conserva sempre o teu sorriso.” Era mais uma fuga para seu mundo particular.

Em um ponto não muito distante dali, o outro caminha pensando naquele sorriso largo e desdentado. “Será perigoso a gente ser feliz?”, pergunta-se, cantarolando a música que surge em sua mente. Traduzido em música, não sabe se é triste ou se apenas decora o seu papel, só sabe que queria aprender a não andar com os pés no chão. Puxa da bolsa de lona lascas de gengibre. Mastiga-as e respira profundamente três vezes. Entoa mentalmente um mantra que aprendera com uma amiga que viveu na Índia. É o mais próximo que chegou do Oriente. Postura. Concentração. Motivação. “Entrego, confio, aceito, agradeço.” Nada adiantou. Pensava na alegria quase patológica e perturbadora daquele rosto sofrido de sorriso largo. Pensava no que havia sido reservado para ele no futuro. De olhos semicerrados, respira profundamente. “Diz se é perigoso a gente ser feliz.” São tantos pensamentos confusos simultâneos que se sente dissipado em fragmentos impalpáveis. Percebeu-se só mais uma vez. E fugiu. Caminhando pelas ruas de arborizadas do bairro tranqüilo, mergulhou nas próprias emanações. Por alguns breves instantes foi consumido pela realidade interior, que talvez fosse a única verdadeira. “Sim, me leva para sempre, Beatriz / Me ensina a não andar com os pés no chão.” Fechou os olhos. Riu de canto.

Finalmente chegou ao pequeno estúdio, seu maior refúgio. Levantou a cortina, cuidadosamente organizou suas obras na calçada. E esperou. Meio atabalhoado, respirou profundamente. Pranayama, pensa. “Inspira prana, expira toxina. Sete vezes, o número da perfeição.” Tentava colocar nos lábios um sorriso inexistente. Desenvolveu ao longo dos anos uma forma própria de resistir às asperezas exteriores. Imaginava-se outra pessoa, em outro lugar. Ficava horas parado em frente à grande janela envidraçada, vendo o tempo ruir, entre incensos, telas e tintas. Ver o sol entrar pela janela, esgueirado entre as árvores e ouvir o canto dos pássaros sempre foi seu maior deleite naquele lugar. Revivia sua vida toda, ou vivia uma vida que não tinha, relembrava seu passado (que não tinha árvores nem pássaros) e construía mundos perfeitos. E quando o ruído raivoso dos lobos lá fora cessava, enchia-se de realidade novamente, vestia sua armadura e deixava a vida em suspenso.

Eram seres incompletos. Intrínseca e inexoravelmente. Como os andróginos seres originários cindidos por castigo de Zeus e condenados a viver vagando pelo mundo em busca da outra metade que os completaria novamente, fadados a desejarem eternamente a completude perdida. Essa incompletude visível aos demais não era visível a eles próprios. Não sentiam claramente essa falta, por terem sido sempre solitários, secos, ocos. Sentiam o desejo, mas não reconheciam a falta da parte perdida.

Meio-dia. Sol de janeiro. Dourado do sol contra o negro do asfalto quase em brasa. Verão fora, inverno dentro. Gente frenética e cinza se debatendo pelas ruas e calçadas. As bocas secas, os estômagos doloridos, as peles viscosas. Um tirou o avental manchado de tinta, fechou a cortina de ferro da loja e saiu pela rua arborizada. O outro tirou a gravata, fechou a sala e entrou no elevador.

Caminham pela mesma rua, mas vindos de direções opostas. O sol abrasivo batendo nas nucas. Convergências. Avistam a fachada vermelha, branca e dourada do restaurante. O salão está lotado. Resignados, aguardam lado a lado no amplo balcão de fórmica. Uma água. Um suco. Avistam uma mesa vaga. Ambos correm. Param frente a frente. Olham a mesa, olham-se nos olhos. Dois lugares. Sorriem timidamente, assentindo com quase cumplicidade. O mesmo sorriso amarelo de constrangimento, lábios ressecados, dentes amarelos de cigarros, cafés e solidão.

Não dizem nada, apenas sentam-se. Trocam olhares breves e algumas palavras de cortesia. Banalidades superficiais com profundezas abissais nas entrelinhas. Não era necessário falar quase nada. O silêncio de dentro tomou forma. Assustador. Suficiente. Encantador. Talvez conseguissem ler o que estava gravado nas retinas do outro. E por isso merecessem salvação. O mesmo olhar negro e triste emoldurado por olheiras antigas. O mesmo cansaço.

Como num estalar de dedos ao final de uma sessão de hipnose, despertam. É tarde. Despedem-se. Retornam. Avenida. Prédio. Elevador. Sala. Gravata. Rua. Árvores. Cortina de ferro. Avental. Mas algo havia ficado naquela mesa do restaurante e algo estava sendo carregado por cada um deles.

Mais uma jornada sem glória chega ao fim. Com o sentimento nítido de terem cumprido seus desígnios sem mérito afundam as cabeças exaustas nos travesseiros. Não conseguem dormir. Em meio ao mofo e às rachaduras do teto o rosto do outro surge num holograma. Corações indefinidos, afoitos, incertos. Foram invadidos pela ausência do outro.

No dia seguinte o ciclo recomeça. Mas desta vez, antes do ritual matinal, surge uma palpitação desconhecida e uma imagem: dois olhos negros. Mas o tempo invade o quarto e a imagem se desfaz. Prosseguem, protocolares. Mas algo havia mudado para sempre. Sem medo, continuam. Iniciáticos, materializaram a busca. O desejo, de forma fatalista, tinha um objeto definido. Tentam reviver lembranças, recompor imagens. Na hora do almoço refazem trajetos, buscam pistas e sinais. Vagam pelas ruas, buscando o outro (e a si mesmos) em cada esquina. Mas chovia naquele dia.


segunda-feira, 6 de junho de 2011

A IMPOSTURA DO AMOR

No início era apenas uma pontada fina no peito, uma fagulha que foi aumentando aos poucos, até se tornar uma bola de fogo ardente e incontrolável. Nas noites insones, esperava o sol nascer para que a vida cotidiana começasse e a dor abrandasse. Por um tempo funcionou. Depois, a dor foi se tornando mais presente, mais intensa e mais conhecida. Tornar a dor conhecida poderia até trazer algumas vantagens. Mas conhecer é também uma maldição. Não havia como voltar atrás após a revelação, como se o destino quisesse dar-lhe uma lição e mostra-lhe que a vida não é como gostaria que fosse. Aconteceu exatamente isso: Foi o fim da inocência.

Não havia, porém, pesar com o fim da inocência. Ele havia aprendido, a duras penas, a conviver com os escuros de si mesmo, embora não os conhecendo. Desenvolvera mecanismos para tatear no escuro em busca de luz. Foi essa busca pela luz que o levou por caminhos inimagináveis.

Não tinha muitos apegos materiais. Acumulou apenas alguns livros, alguns discos e um baú imenso de lembranças intangíveis. Disso tudo, apenas as lembranças jamais abandonaria pelo caminho, como fez com tantas outras coisas que se tornaram pesadas ao longo da jornada, embora elas próprias tenham se tornado um grande peso sobre seus ombros já curvados.

Desprovido desses apegos, se lançou num caminho sem volta. Foi em busca do que imaginava - ou supunha - ser esse fogo. Porque essa dor funda só poderia ter um significado em sua mente incauta: Amor. Mas não o amor da família ou dos amigos, que sentia ter e valorizava intensamente, tampouco o amor de folhetins, que sabia fantasioso. Era outro tipo de amor o que buscava. Aquele amor que arde, que dilacera, que não está no outro, mas é despertado por ele. Queria ser consumido por um sentimento que estava extravasando seu peito. E queria mais. Desejava partilhar esse sentimento, mesmo não sendo correspondido. Em última instância, mesmo inconscientemente, queria encontrar outra chama de igual intensidade e queria que tudo fosse consumido pelo calor e pela luz.

Olhando para o gole se si que restava na xícara de café frio e para suas cinzas depositadas no cinzeiro transbordado pensava nas utopias e distopias dos seus desejos insanos e grandiloqüentes. Perplexo. Insatisfeito. Então, resolveu colocar seu terno mais bonito e em uma manhã outonal de domingo, fria e ensolarada, caminhou sem rumo pelas ruas antigas e estreitas da cidade, onde o casario e os centenários plátanos formavam uma imensa barreira que bloqueava sua visão e aguçava sua imaginação. Carregava em um braço um pesado sobretudo de lã e em outra seu inseparável panamá, marca registrada. Os bicos finos dos sapatos pretos, lustrados com cuidado, reluziam ao sol e o solado de madeira deixava um som seco como rastro pelas ruas desertas de pedras desgastadas cobertas pelas folhas secas das árvores. Não sentiu cansaço. Talvez tivesse sentido certa ansiedade, traduzida em leves palpitações e sudorese. Ou talvez isso fosse apenas resultado do esforço físico. Caminhou decidido, como se estivesse indo ao encontro de algo esperado.


A tarde caiu, o sol se pôs e um vento frio começou a roçar em seu rosto pálido. Como se tivesse saído de um transe, deparou-se, quase tonto, com o velho sobrado onde morava desde a infância. Parcimoniosamente abriu o pesado portão de ferro, subiu a escadaria, abriu a porta de arabescos entalhados cobertos de teias de aranha. Os únicos sons audíveis eram os dos seus passos e o da porta rangendo ao ser aberta. Os sons inaudíveis, entretanto, eram infinitos e ensurdecedores. Mas somente ele era capaz de ouvi-los ou incapaz de sufocá-los. Atravessou a penumbra do hall, soltou o casaco e o chapéu em uma cadeira, subiu para o quarto, afrouxou a gravata de seda, sentou-se confortavelmente em sua velha poltrona de veludo, descalçou-se e colocou os pés de molho em uma bacia de alumínio com água e ervas aromáticas, previamente colocada em frente à poltrona, como costumava fazer sempre ao final dessas caminhadas, suspirou profundamente e preparou-se para mais uma noite.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

(IM)PERMANÊNCIA


“O nascimento de um homem é o nascimento de sua dor. Quanto mais ele vive, mais estúpido se torna, porque sua ansiedade para evitar a morte inevitável torna-se mais e mais aguda. Que amargura! Ele vive por aquilo que está sempre fora do seu alcance! Sua sede de sobreviver no futuro faz com seja incapaz de viver no presente.” (Chuang-Tsu)


Por que é tão difícil praticarmos a liberdade de pensar e sentir? Passamos a vida tentando realizar sonhos, concretizando planos e cumprindo metas. Somos impelidos a desejar coisas, como se fosse uma maldição não termos desejos materiais. Quando crianças, temos todo um aparato de regras impostas pelos adultos que moldam e condicionam, que selam nosso destino. Já na vida adulta, temos que ter um amor maior que tudo, fiel, devotado, subserviente, apenas para começar. Daqueles de novela. Casamos, constituímos uma família, temos filhos, construímos um lar, conquistamos uma posição social. Desejamos, então, uma casa maior, férias, a troca do carro, planejamos o futuro dos nossos filhos, programamos nossa aposentadoria. Reproduzimos o condicionamento determinado desde a infância. Estamos sempre tentando estabelecer uma ordem para o cosmos. Porque somente assim o mundo fará sentido. Não penso que não devemos ter sonhos ou seguir regras, sejam elas quais forem. Mas devemos pensar sobre o que realmente nos fará felizes. O que em nossas buscas diárias é realmente nosso e o que é, de certa forma, imposto ou determinado pelo outro. Nossos sofrimentos orbitam a eterna busca pelo que não temos. Queremos carros do ano, casas de praia, amores eternos, paixões avassaladoras, orgasmos infinitos, o emprego dos sonhos.

Paralelo ao sofrimento gerado pelo desejo do não conquistado, temos o sofrimento pela manutenção do que precariamente conquistamos, como se toda fonte de nossa virtude e felicidade estivesse nesses bens acumulados. Fomos condenados por Zeus a desejar eternamente, na nossa incompletude essencial, e quando conquistamos imediatamente desejamos outras coisas ou mais das coisas conquistadas, num ciclo que nunca finda.

Não sou contra o acúmulo de bens, pelo contrário, e compreendo que esses bens acumulados são a representação de nosso virtuosismo em conquistar num certo sentido. Vivemos como cavaleiros medievais em uma cruzada de consumo, como se em cada bem encontrássemos a nós mesmos. O que acho tristemente sintomático é que nos distanciamos das coisas mais verdadeiras, dos sentimentos mais profundos. Esquecemos de olhar para dentro de nós mesmos para descobrirmos quem realmente somos. Não olhamos para o sofrimento alheio, não tentamos diminuir em nada a dor do outro, queremos apenas diminuir a nossa própria miséria, humana e primitiva. E não conseguimos.

Vivemos uma vida "das-oito-às-dezoito" e nos descuidamos de encontrar significados profundos para nossas existências. Preocupamo-nos com nossas necessidades e nossas mazelas. Absortos em nossos gritos, não ouvimos nossa própria voz.

Freneticamente tentamos manter nossa zona de conforto, manter nossas conquistas do passado e conquistar outras terras no futuro. Viver no futuro (ou no passado) é cômodo porque desviamos nossa atenção das nossas mazelas atuais. E como não há nada que possamos fazer no passado ou no futuro, nos conformamos com as impossibilidades.

Quando conseguimos contemplar a mutabilidade de todas as coisas, boas ou ruins, conseguimos gerar compaixão e ver todos os eventos com desprendimento. É a velha máxima dos nossos avós: “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe”. Se sei que o mal vai acabar, cedo ou tarde, encho meu coração de esperanças em um futuro melhor e trago essa esperança e a alegria de um futuro mais brando para suportar o sofrimento causado pelas ilusões do samsara. Por outro lado, se conseguimos compreender com profundidade que não há bem que dure para sempre, entendemos que precisamos agir com desapego porque não há nada que possamos fazer para evitar que as coisas boas terminem. Sofremos porque querermos que o mal acabe logo e sofremos porque não queremos que o bem acabe nunca.

Se você leu até aqui deve estar se perguntando: “Aonde ele quer chegar com essa conversa? Como vamos alcançar esse equilíbrio e essa dimensão da realidade?” Talvez o caminho seja a simplicidade. Nas coisas mais simples talvez esteja a chave, não é nos grandes feitos, nos grandes gestos, nos grandes gastos, mas nas cotidianidades. Perdemos tanto tempo tentando encontrar um grande sentido, uma grande sacada para que nossas vidas aqui se tornem menos medíocres, menos vazias, menos solitárias para somente então alcançarmos, finalmente, a compreensão de nossa existência nesta Terra, que não conseguimos ver o que está logo ali, após o que circunda nossos umbigos.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

DO DESAPEGO


O primeiro raio de sol rasgou o escuro do quarto, doloroso. Mas ele respirou aliviado. Havia rolado pela cama, encharcado de suor, inquieto e ofegante, mais uma noite inteira. Entre seus velhos fantasmas. Pesadelos novos e antigos, conscientes e inconscientes. De olhos estalados, olhava compulsivamente para o relógio na cabeceira, cujos ponteiros pareciam estáticos. Levantava cambaleante, fumava mais um cigarro no escuro. O tempo era lento naquele pequeno cubículo de cortinas de veludo pesadas imerso em um cheiro denso e adocicado de mofo.

Seus pensamentos eram uma torrente incontrolável. Sabia, porém, o que tinha que fazer. Mas não conseguia agir. Estava preso à insônia e seus pensamentos o aprisionavam numa esfera distante de tudo. Atormentado. Inerte. Cansado. Humilhado.

Vez enquando, vencido pelo cansaço, adormecia. E sonhava. Em um dos sonhos, caminhava por uma estrada escura, guiado apenas pela luz fugidia da lua e avistou uma mulher aproximando-se. Com grandes olhos negros, descalça, mãos enrugadas crispadas contra o céu, sotaque espanhol, cantava seu futuro numa melodia triste. Ela falava olhando-o fixamente no fundo dos olhos. Parecia rogar por ele, impostava ambas as mãos na direção do seu rosto, em transe, entoando cânticos indecifráveis, parecendo trazer-lhe um aviso. Aviso esse que ele não compreendia. Da mesma forma que nunca, ao longo da vida, conseguiu perceber os sinais com os quais se deparava. Sentia uma espécie de proteção vinda dela, mas sentia um abandono infinito de tudo e uma impotência irreversível frente ao caminho a seguir. Estava completamente sozinho num mundo que sabia não ser o seu, mesmo não sabendo que mundo, afinal, lhe pertencia. Ela falava frases sem sentido numa velocidade desconcertante, com sotaque carregado. Ele não compreendia, mas não sentia medo. Queria pedir-lhe explicações, mas estava catártico, como se seu corpo não fosse seu corpo, como se visse a si mesmo de fora, estando o mais dentro de si que já havia estado.

Havia um caminho a seguir. Ele sabia que o caminho estava à sua frente. Mas não conseguia segui-lo. Como numa cegueira. Com visão turva, pensamentos confusos, ele não conseguia ir à diante. E vinham-lhe à mente situações semelhantes enfrentadas em tempos idos. Mesmo assim ele não tinha atitudes diferentes. Tentava ficar atento ao que a estranha pitonisa de olhos arregalados e vestido rodado lhe falava, buscando alguma lógica nas palavras. Tentava, em vão, refletir sobre a mensagem que ela tentara transmitir.

As palavras dela o despiam. Acordou sobressaltado desse sono que parecia um transe premonitório. E desnudo ficou sem saber o que fazer com aquilo que foi dito. Sentia apenas um vazio imenso no peito. Um desespero brando e angustiante. Queria pegar o telefone, ligar para as pessoas que amava, pedir consolo. Mas não tinha a quem chamar. Talvez nem tivesse telefone. Havia rechaçado qualquer tentativa vã de encontro e de comunicação com outros seres. Esse mundo conhecido não tinha qualquer sentido para ele. Havia abandonado tudo que era relacionado ao mundo exterior e às coisas do cotidiano. E ironicamente não conseguia estabelecer contato com seu mundo interior. Tinha somente a companhia dos livros não lidos amontoados pelas estantes da casa e pelos fantasmas que rondavam sua cama, em sonhos e em vigília. Então suspirou fundo três vezes, fechou os olhos e estendeu a mão para seus companheiros.

DO MITO DO ETERNO RECOMEÇO


Confesso que abandono meus projetos. Mas alguns eu retomo. Com este blog não foi diferente. Desde 1º de Outubro de 2010 eu não escrevia. Algumas pessoas que me acompanham neste delírio quase literário e totalmente psicoterápico andaram reclamando. Talvez surpresas com o silêncio, já que sou conhecido (negativamente) por ser verborrágico. Talvez curiosas com o que estava se passando, afinal, na minha mente um tanto (?) inconstante. Não sei. Seja pelo motivo que for, estou retornando. Talvez das cinzas de mim mesmo. Mas não digo que estou emergindo. Talvez esteja desabando por aqui novamente. Precisei parar, pensar, esvaziar minha mente de tudo e ver o que realmente importa. Como num baú cheio de velharias e lembranças remotas, jogamos tudo para fora, bagunçamos, vasculhamos, selecionamos e vemos o que resta.

Não é um processo acabado. Nem sei bem se é propriamente um processo. Não sei se restou muito desse árduo movimento de enfrentar asperezas, silêncios férteis e inférteis, escuros aparentemente sem fim e limites brancos. Mas estou disposto a dividir o que ainda tenho e o que vou descobrir a partir de agora, embora não tenha a menor ideia de por quanto isto vai durar.

Nesse tempo todo de ausência não consentida eu até esbocei alguns pensamentos vagos em um bloco de notas qualquer. Até agora não encontrei muitas idéias que julgue dignas de serem partilhadas. Talvez eu recobre a coragem, respire fundo, deixe de lado meu senso crítico e minha tendência nata a me boicotar e jogue tudo aqui, bruto, para que seja dissipado (ou semeado?) na ventania.

É, acho que é isto: desabo por este caminho novamente. Anuncio que cá estou mais uma vez, sem tambores rufando, sem aplausos ou luzes dos holofotes.