quarta-feira, 23 de novembro de 2011

REPARAÇÕES

Two Men”.  Lucian Freud.

... até que um dia, por astúcia ou acaso, depois de quase todos os enganos, ele descobriu a porta do Labirinto.

... Nada de ir tateando os muros, como um cego.

Nada de muros.
Seus passos tinham - enfim! - a liberdade de traçar seus próprios labirintos.


(Mário Quintana: LIBERTAÇÃO. in 'A Vaca e o Hipogrifo')


Bebendo o último gole de vinho tinto ele viu seu passado refletido nas minúsculas gotículas purpúreas translúcidas que restaram na taça. Meio trôpego chegou na janela aberta para o vazio. Era uma noite qualquer de novembro, clara e estrelada. De longe era possível ver a luz prateada da lua iluminar os cantos escuros das calçadas e invadir a penumbra do quarto, lírica e fria. Pela  janela aberta, além da da luz exterior, entrava um leve vento fresco. Como se pudesse se transportar para a rua, sentiu o frio que soprava pelas esquinas atravessando seu corpo, mas não fechou a janela. Suas noites eram frias, mesmo em novembro. E retornou para sua poltrona, aquecido pela manta xadrez com a qual cobria as pernas. Sentiu um breve aconchego. Por instantes sentiu que aquele conforto térmico poderia confortar a alma também. Mas não, nem mesmo acompanhado da inseparável taça de vinho.

Então, imerso em pensamentos e vinho tinto, lembrou de quando era jovem, jovem demais para sofrer com as preocupações que assolavam suas noites insones naqueles tempos frios. Quis retornar ao passado e reviver sensações frescas da juventude. Mas não havia como voltar. Ele já era homem feito. E o tempo é padrasto nessas horas, porque no fundo ele era um menino sedento por viver e se lançar em possibilidades, preso no corpo de um homem de meia idade, amargo, covarde e solitário.

Quando jovem, correu muitos riscos, embora tivesse muito a perder. O tempo passou, ele perdeu tudo o que lhe era mais caro, ao passo que temia cada vez mais perder o pouco – ou quase nada – que lhe restava. E naquela noite fria, embalado por Miles Davis e incontáveis taças de vinho, restava pouco. Tinha algumas memórias numa caixa velha de sapatos na parte mais alta do roupeiro, a pele envelhecida e ressecada, umas dores estranhas em lugares incertos, amarguras e ressentimentos.

Fez, mais uma vez, uma retrospectiva de sua vida, pautado por desilusões, desamores e abandonos. Abandonar e ser abandonado eram temas que ele conhecia muito bem. Deixou que as memórias dançassem diante de si, como salamandras de fogo num ritual. Tentou não se deter em nada, deixando que os pensamentos surgissem e desaparecessem naturalmente, emergindo à sua consciência e retornando ao mais profundo esquecimento. Mas ele não era um bom iogue, não meditava como deveria ser feito, ainda mais em noites brancas e ébrias como aquela. Sabia como exercitar o desapego (afinal, tantas leituras e horas de práticas orientais deveriam servir para alguma coisa), mas não conseguia praticar. Tinha uma percepção lúcida de suas limitações (afinal, tantas horas de psicanálise deveriam servir para alguma coisa), mas não respeitava seus limites.

Alguns pensamentos surgiam e se desfaziam logo depois. Outros, porém, eram insistentes e desses ele não conseguia se libertar. Rostos do passado se formavam em sua frente, alguns sons e palavras ditas surgiam, tomavam forma e agigantavam-se sobre ele, como espectros assutadores querendo devorá-lo. As imagens que se materializavam eram imensas e pareciam fundir-se, uma a uma, em uma única forma, cada vez maior, mais assustadora e mais opressiva. O grande monstro possuía muitos rostos, muitos braços, muitas pernas e dezenas de bocas que falavam simultaneamente frases sem sentido. Sentiu-se sufocado. Mas o que sentiu diante dele não era medo, era uma sensação ruim de reencontrar alguém que o fez sofrer, que foi embora para nunca mais voltar, que o fez chorar noites inteiras, abafado no travesseiro, que o fez fugir e se esconder em inúmeros copos de gim ou corpos desconhecidos.

Trêmulo e cambaleante, como se estivesse em transe, pegou um bloco de papel e uma caneta sobre a pequena escrivaninha de imbuia. Queria registrar suas sensações, fossem elas quais fossem. Deixou que os pensamentos surgissem e escreveu o que veio à sua mente. O que ficou registrado foi uma espécie de diálogo fragmentado entre ele e seus fantasmas mais secretos e assustadores. Mais ou menos assim:

[“... De certa forma fico feliz com sua visita. Tenho tanto pra lhe falar. Achei bonito você se dispor a estar comigo agora, depois de tanto tempo. Eu tenho passado por momentos um pouco tristes e solitários. Sei, porém, que hora ou outra voltarei a ter aquela alegria que tive um dia...

...Queria muito estar com você, sentir você perto, saber como a vida tem lhe tratado. Quero que você saiba que tenho um carinho imenso por você e que você desperta em mim sentimentos ternos. Porém, em dias de tormenta como estes, tenho sentimentos antagônicos e revoltos em meu coração...

...Mesmo sentindo ternura e carinho por você, às vezes sinto mágoa e rejeição. Sei que você vai dizer que não deveria sentir isso, que não tenho motivos, que você não fez nada para que eu sentisse isso, que são criações da minha cabeça. E tenho algumas indicativas que me apontam essa direção...

...Independente de ser realmente rejeitado ou negligenciado por você, o que devo ter como norte não é a negligência em si, mas o que faço dela. E não tem nada a ver com auto-suficiência, tem a ver com desejo de preservação. Que eu tenho e você também tem...

...Tudo é tão fugaz e efêmero...Tenho tateando no escuro, todos os dias, em busca de luz. Em alguns dias tudo parece mais escuro que em outros. Acho que agora, neste exato momento que você me visita, consegui abrir uma fresta para deixar a luz entrar. Mas tem horas que me sinto dentro de uma caixa hermética, em outras dentro de uma bolha de sabão...

...Os dias tem sido mais amargos depois de ter você. Mas tudo na vida é uma questão de interpretação. Só tenho medo de me tornar amargo e não ver mais cores em nada. Sinto às vezes que vejo tudo em preto e branco ou sépia, que vejo tudo em quadros, com molduras que limitam. No fundo, bem no fundo, queria que a vida fosse um caleidoscópio constante nas minhas retinas...

...Acho que escolhemos algumas coisas às vezes por não conseguirmos ver outras alternativas. Mas o que nos diferencia é a nossa capacidade de enfrentarmos o inevitável de forma verdadeira. O que quero dizer com isso é que em algumas circunstâncias a gente toma um rumo na vida que não é o que queríamos, mas acho que é nossa obrigação sermos autênticos na forma de enfrentarmos essas realidades. Eu tinha outros rumos a seguir, mas escolhi este que levava até você. E dentro dumas, mesmo não completamente feliz, porque a gente nunca está feliz com o que tem (e isto é um insight que tive agora) eu tento encarar as potencialidades do momento de cabeça erguida, mesmo sofrendo um pouco...

...Entendo que você também tenta lidar com a solidão como pode. Percebo um pouco como você sente essas coisas e como e como vê a saudade amanhecer. De forma alguma quero negligenciar seus sentimentos, mesmo incompreensíveis para mim e mesmo que eu discorde da sua forma de ser e agir. E acho que são realmente justos. Foram escolhas. Nem certas, nem erradas. Apenas aconteceram da forma que você conseguiu ver a vida. E sim, somos diferentes. Eu consigo viver sozinho, mas não quero, não gosto e não preciso. Essa é a minha escolha. Sei jogar cartas com a solidão, mas não preciso – e não quero – esse jogo... 

...De tudo que existe e existiu entre nós, de tudo que você me disse e eu lhe disse, o que não lhe servir, esqueça. Esquecer é uma prova de amor. Eu disse o que pensava (e continuo pensando), mas são os meus pensamentos. Você não tem que comungar. E se sua escolha foi deixar a vida lhe levar, que a vida lhe leve, bem leve...

...Você não precisa pedir desculpas. Você agiu como é e como pode. Não há o que desculpar quando agimos com o coração. Não achava necessário que nos encontrássemos para um pedido formal de desculpas, mas que bom que você veio me visitar. Sempre soube dos seus limites, sempre soube que essas coisas um dia aconteceriam. E não tenho percepções especiais não, são apenas os sentimentos que trago no peito. Nossos altos e baixos eram, ambos, na minha pobre opinião, ilusões. Não vivemos uma relação, tangenciamos a realidade e tentamos forjar uma vida que não tivemos. Acho triste. Não aconteceu. E a vida vai continuar...

...Eu teria tentado conduzir essas situações de forma diferente, se pudesse. Talvez não de forma melhor, mas sendo mais eu mesmo. Quando dizia que amava você não era da boca para fora, era o que eu sentia de mais profundo e verdadeiro no momento em que dizia. Nem antes, nem depois. E queria ficar você por muito tempo, porque esses sentimentos eram bons e queria entregá-los a você. Eu passei por momentos dolorosos, mas ainda estou vivo. E estar vivo significa que tenho o dever de continuar amando as pessoas e me permitindo encontrar momentos felizes. Eu queria lhe dar meus melhores sentimentos. Você não precisava fazer muito, apenas estar disposto e disponível. Queria ter tido a chance de amar e cuidar. Porque isso faria com que eu me sentisse vivo novamente...

...Acho que devia pedir desculpas por todas as inúmeras vezes que magoei você. Eu tendo a ser agressivo quando estou machucado. “Sou fera ferida”, como cantaria Bethânia. Sou contraditório. Mas me permito ser essas coisas todas porque tento achar o melhor caminho...

...Sinto uma tristeza funda pela maneira que você diz que vê como eu lhe vejo, mas lhe vejo da maneira que você se mostra para mim. E não, não estou preparado para “esses revezes” da vida que você sempre fala, apesar de ter feito todo tipo análise, de LSD a choques elétricos. Não estou preparado do jeito que você quer, não do jeito que você espera que eu aja, não do jeito que nem você mesmo agiria se estivesse no meu lugar. Tenho o sentimento que você, se estivesse no meu lugar, não teria tido uma atitude muito búdica. Eu estava machucado, e estava sendo machucado por você, e não quero passar por isso novamente. Por isso digo: as coisas aconteceram da maneira que aconteceram, não há como voltar atrás e refazer trajetos. Pode ser diferente daqui pra frente? Deve. Minha obrigação é me tornar um ser humano melhor...

...Ainda afirmo que a solidão que você resmunga foi provocada por você. Eu não queria lhe deixar sozinho. Dispus-me de todas as formas a lhe fazer companhia. E se você rechaça minha presença, não há muito que fazer...

...Quanto às minhas expectativas, digo que consigo me virar sozinho. Eu as criei, você não correspondeu. Você foi você mesmo, eu que não quis ver. Acho que meu erro foi achar que, mesmo vendo suas ausências e as minhas urgências, poderíamos ter sido mais. Não fomos, porque o destino não quis assim e não tivemos coragem de mudá-lo. E ambos superaremos nossas falhas e seremos melhores no futuro. É nossa lei, é nossa questão, virar esse mundo, lembrando novamente da Bethânia. E deixemos que o tempo se encarregue e nos carregue...

... Quero que você encontre um rumo, seja ele qual for, com quem for, onde for. Desejo que você encontre seu caminho, que ele seja repleto de amor e que você seja feliz. É isso que eu quero lhe dizer antes de você ir embora para sempre - porque sei que você vai agora para nunca mais voltar – e já que você veio me visitar, assim repentinamente, eu quero te dizer essas últimas palavras... ]

Tendo a alma invadida pelo som tristíssimo, puro e claro, baixo e minimalista, do trompete de Miles Davis, fechou os olhos, respirou fundo e tornou a abri-los. Estava sozinho novamente. Olhou à sua volta, estava tudo exatamente do mesmo jeito, mas nada permanecia igual. Viu, finalmente, a possibilidade de fazer as pazes com seus fantasmas, reconciliar-se com seu passado, tentar seguir vivendo ou poder, enfim, descansar.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

DO PÓ AO PÓ


"O tempo é que mostra o que realmente valeu a pena, o tempo nos ensina a esperar, o tempo apaga o efêmero e acaba com a dúvida."
Caio Fernando Abreu 

Queria pedir desculpas por fazer você esperar tanto tempo por mim. Sabe como são as noites de chuva nesta cidade. O trânsito fica trancado e é impossível chegar rápido a qualquer lugar. É mesmo? Que bom que você esperou pouco tempo. Vou lhe acompanhar no que está bebendo. O que é? Vodca? Sim, sem gelo, por favor. Você parece um pouco tenso, alisando a toalha branca puída que cobre esta mesa de madeira escura e pesada. Mesmo que você negue veementemente, conheço um pouco você, suas idiossincrasias e suas reações, embora não entenda porque você escolheu este lugar que ambos detestamos. Ah, sim, você acha neutro um lugar que ambos detestamos. Você e suas peculiaridades. Quando entrei, você foi a primeira – e única – pessoa que avistei. Meus olhos bateram direto em você. Era como se não existisse mais ninguém aqui. Você fica tão bonito com essa camisa branca, principalmente quando dobra as mangas deixando aparecer seu antebraço. Você sempre foi de compleição física melhor que a minha. Não, não estou reclamando ou criticando. É um elogio, aceite. Sim, lembro, comprei essa camisa para você naquela viagem que fiz sozinho porque você estava passando por uma daquelas crises criativas e preferia ficar em casa lendo livros de autoajuda e bebendo vinho sozinho, na tentativa (vã) de encontrar sentido para sua vida. Quando cheguei, vi que você alisava a toalha irrefletidamente, com esses grandes olhos negros parados no nada. Enquanto atravessava o salão quase vazio olhava para você, perdido em pensamentos, sentado aqui nesta mesa no fundo. Sim, eu sei que você estava pensando num monte de coisas que queria me dizer olhando nos meus olhos. Da mesma forma que sempre foi entre a gente, né? A gente sempre falou tudo um para o outro. Sempre fomos limpos, claros, transparentes. Que? Por que eu estou assim, verborrágico? Ah, desculpe-me. É que você estava tão calado que achei que eu poderia falar para preencher os vazios com algum assunto bobo, até que a gente entrasse realmente no assunto que me trouxe aqui. Rodeios. É verdade, você tem razão, se você me chamou aqui é porque tem mesmo coisas importantes para dizer, sem rodeios. Tudo bem, ficarei calado, embora seja sempre difícil para mim o vazio, seja ele qual for, principalmente quando esses silêncios são cheios de gritos sufocados. Estou, estou atento sim ao que você diz. Sempre estive. Não precisa me agredir, não estou fazendo pose de super equilibrado e super compreensivo. Ah, não é um julgamento o que você faz agora, é só uma leitura? Você está certo sim, eu tenho dificuldade de aceitar críticas, assim como tenho dificuldades em me ver errático e lidar com negativas e rejeições. Mas quando fico sozinho com meus pensamentos, consigo olhar-me no espelho e ver que você tinha razão, embora eu jamais admita publicamente. Estou desarmado agora, acredite. Queria mesmo lhe dar um abraço apertado e dizer que tudo vai ficar bem, que estamos apenas passando por uma fase ruim. Eu tenho meus problemas também e sei das suas dificuldades e dos seus limites, queria dizer que aceito você do jeito que você é, com seus erros, suas mancadas, porque gosto de você, porque quero que nossa vida continue, porque quero ser feliz ao seu lado e fazer você feliz, com as coisas simples do meu mundo. Não, não estou fazendo o superior e espiritualizado. Você sempre foi muito mais que eu. Pelo menos você sempre quis demonstrar muito mais todas as suas leituras de filosofias ocidentais e orientais, todos os seus retiros espirituais, todos os workshops e as vivências transcendentais que teve. Você já viu todos os filmes. Você acha a carne triste e já leu todos os livros. Você é tão Mallarmé! Eu sempre fui mediano. Nunca me orgulhei disso, ambos sabemos, mas nunca me envergonhei do que sou, embora sempre quisesse ser coisas maiores. Você sabe dos meus sonhos, confessei a você, sussurrado no escuro, enquanto choramingávamos nossas mazelas entre cinzeiros cheios e copos vazios. Você sabe dos desejos que tenho, alimentados durante pelo menos oito horas por dia, enquanto suporto gente chata no balcão daquela loja de departamentos. Você, espiritualizado e intelectualizado, no alto do púlpito, e eu aqui embaixo, querendo apenas que você me protegesse de tudo e fizesse eu me sentir vivo novamente, depois dos furacões e tempestades. Não, não estou me vitimizando. Você sempre me julga e sempre julga equivocadamente. Você sempre tem uma teoria que vai salvar meu corpo, minha alma, e a sua, principalmente. Não queria suas teorias filosófico-existecialistas, queria apenas que fosse simples. Mas você ainda acha que eu não entendi a proposta. Mais devir, menos perspectiva científica. Eu sempre coloco tudo em caixinhas, né? Você já disse isso outras vezes, que julgo o tempo todo, por tudo que você faz e pelo que não faz, que eu antevejo suas ações e julgo a partir disso, não vendo o que você realmente fez. Acho que temos mesmo que ser adultos e civilizados e colocarmos um ponto final nisso tudo. Simples assim. Por que você está achando tão difícil? Não, não me olhe assim, você sabe que eu não vou conseguir dizer o que tenho para dizer e não vou ouvir o que você tem de tão importante para dizer se você continuar me olhando desse jeito. Entendo que você está inseguro, triste, sufocado e por isso sumiu todo esse tempo, deixando para trás a vida que eu estava tentando construir com você. Eu também estou ferido. Queria que os sentimentos que sei, lá no fundo, que ainda temos um pelo outro, apesar de todo escombro que caiu sobre nós, nos libertassem, mas vejo que estão nos aprisionando numa daquelas caixas que você sempre diz que eu crio. Concordo com você, éramos tão livres e tão bonitos quando nos conhecemos. Onde será, Deus, que perdemos aquela alegria? Está sendo difícil lhe ver agora, sabe. Não consigo olhar nos seus olhos. Não consigo ver direito seu rosto. Existe uma nuvem que encobre seu rosto, através da fumaça do seu cigarro, e eu vejo somente imagens difusas. Quero que você me olhe, por favor, e quero ver você. Vamos conversar olhando nos olhos para que eu também me veja, através de você. Sei que você se sente desnudo quando olho você nos olhos e digo as coisas que digo. Eu também fico. Aliás, cheguei aqui completamente nu. De peito aberto, como quase nunca estive. Ah, você acha que isso é mais um dos meus personagens? Esta é mais uma das suas leituras desprovidas de julgamentos e regras fixas? Cadê o garçom? Outra dose de vodca, por favor. Sim, é a quinta. Você me olha com esses olhos de quem acha mesmo que ando bebendo demais, fumando demais e falando anedotas demais...Sim, é clichê. Eu sou totalmente samba-canção, você sabe. Você não gosta de trilhas sonoras para nossas conversas, mas é impossível eu não lhe ver aqui nessa mesa, tão Cézanne, tão Sidarta, tão libertário, tão sem regras fixas aplicadas a tudo, tão fluído, tão elevado espiritualmente, com essa cara blasé de quem já viu quase tudo e cansou das pessoas, com seu cigarro dançando no ar e sobrancelhas erguidas, e não pensar numa trilha sonora para isso. Talvez uma Julie London melancólica e intimista. Cry Me a River, quem sabe seja apropriado, embora você ache que nossos diálogos sustentam-se sozinhos, sem músicas. “You drove me, nearly drove me out of my head / While you never shed a tear / Remember, I remember all that you said / Told me love was too plebeian / Told me you were through with me” [*]. Certo, vou parar de cantar, sei que você acha “over”. Sem rodeios e sem músicas. É que a música me persegue, como naquele filme antigo que assistimos uma vez, lembra? Aquele onde Julie London aparece cantando essa música, perseguindo o protagonista pela casa. Como era mesmo o nome? "Sabes o Que Quero". Não, não foi uma pergunta. Esse era o nome do filme, "Sabes o Que Quero". Lembro, você dormiu durante o filme. É, você tem razão, sou muito Da Vinci para você. Talvez eu use mesmo muitas regras fixas para me entender, para entender você, para explicar o mundo, sempre cheio de teorias científicas e contornos lineares. Por isso perco o sentido e o significado do mundo. Como perdi agora. O conceito que tínhamos um do outro não se encaixa na gente. Somos mais que isso, somos outras coisas, além disso, não somos nada disso. Éramos grandes, éramos múltiplos, e viramos o que, no final? O que sobrou da gente e que sobrou de cada um depois de daquilo que chamamos de “nós”? Sei que você vai repetir o que já disse um dia, que sobrará de nós o que somos e que somos o que tivemos e o que conseguimos ser nas nossas medidas do possível. Sim, vamos embora, está tarde. Não, eu pago desta vez. Chamou o táxi? Claro que podemos dividi-lo. Você vai pegar suas coisas agora? Já deixei sua mala na portaria do prédio, como você pediu. Coloquei seus livros, aqueles discos da Bethânia, algumas roupas que achei espalhadas pela casa. É, sei que os livros são importantes para você, embora eu ache, lá no fundo, que os discos da Bethânia são muito mais. Não ficaria com eles, mas queria ficar com você. Acho que recolhi tudo, mas pode ter ficado alguma coisa esquecida em algum canto. Depois de tanto tempo, nem sei mais o que é seu e o que é meu. Nem sei mais o que um dia foi meu ou seu. Tenho ainda umas garrafas daquele vinho que você gosta. Podemos ouvir o disco que comprei hoje num sebo, se você quiser. Sim, é aquele disco raro de jazz que procurei por anos e que várias vezes fiz você caminhar pelas ruas das cidades que visitávamos juntos, garimpando em todas as lojas. Encontrei esse disco por acaso, quando já tinha desistido de procurar. Engraçado como isso acontece, eu precisei desistir para encontrar. Estou falando sobre o disco, mas também sobre você. Não se preocupe, não é mais importante. Você pode decidir amanhã de manhã, depois do café, como de costume, o que fará pelo resto da vida com o que restou de tudo que fomos nós. Sim, sua escova de dentes ainda está no banheiro e deixei seu pijama sobre a cama. Vamos? O táxi chegou. 


[*] “Você me levou, quase me levou à loucura / E você sequer derramou uma lágrima / Lembre-se, lembre-se de tudo que você disse / Disse-me que o amor era plebeu demais / Disse-me que estava cansado de mim”





segunda-feira, 7 de novembro de 2011

LES TEMPS SONT DURS POUR LES RÊVEURS [*]

"Porque Esqueceste o Que Vieste Fazer" (Pintura com Café) - Alexander P. Moreira, 2009.

"Tenho meus vícios
Vivem dentro de mim esses bichos
São o pai e a mãe dos meus lixos
E às vezes me levam de mal a pior
Pergunto quem
Não sabe disso
Os momentos em que a vida não tem dó"
("Maiúsculo" - Sérgio Sampaio)

Vez ou outra esbarro, vida afora, com pessoas que lembram um pouco quem eu fui um dia. Pessoas que me trazem lembranças boas de um passado que abandonei para viver uma vida que chamo de “real”, dura e seca, de compromissos e obrigações, de 8h às 18h. Já tive os pés mais no chão e a cabeça mais nas nuvens, hoje não sou muito otimista, mas tenho lá meus momentos de Peter Pan. Encontrar essas pessoas, hoje tão diferentes de mim, me reconecta com uma faceta minha que talvez eu não devesse ter abandonado para me tornar o que me tornei. Contingências do mercado. Lembrando de uma frase bastante conhecida, de um dos meus filmes prediletos, são realmente tempos difíceis para os sonhadores.

Quando eu era mais jovem (nem tão mais jovem assim) fomentava mais desejos e sonhos. Queria a vida dos sonhos, a casa dos sonhos, o emprego dos sonhos. Acreditava em paixões avassaladoras, em amores de cinema, românticos e vitorianos. Ainda acredito, lá no fundo. Acho bonitos os amores de folhetim. Via as pessoas relatarem histórias lindas que venceram barreiras de espaço e tempo e pensava: Será que um dia isso acontecerá comigo? Claro que não acontece! A vida real não é assim. No fundo eu era um adolescente chato demais, sonhador demais, piegas e pedante demais. Como todo adolescente, queria tudo para agora, para ontem, era constituído de faltas e urgências. E sempre tive fascínio pelo arrebatamento sôfrego e febril das donzelas vitorianas, alvas e puras, envoltas em rendas brancas e imaculadas.

Depois de levar algumas rasteiras da vida, desenvolvi um certo medo desse sentimentos abruptos e inesperados que desestabilizam minhas parcas faculdades mentais. Talvez tenha me tornado um pouco covarde. Que seja. Mas o fato é que acabo me fechando numa concha quando me vejo caindo numa dessas grandes e rápidas ilusões românticas. E não, não tenho medo dos sentimentos das pessoas com quem me relaciono, que fique claro. Reconheço, valido e respeito. Tenho medo dos meus próprios. Porque sou um pouco, eufemisticamente dizendo, intenso. A ponto de consumir a mim e a tudo que me cerca. E consumir recursos disponíveis assim, em tempos de escassez como estes, pode ser perigoso. Gosto de sentir o terreno onde piso, avaliar, reavaliar e avaliar mais uma vez – ilusória(?) e neutoricamente(!) – cada passo dado. Para não ferir, para não ser ferido. Parcimônia e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Quando encontro pessoas intensas e sedentas por viver uma vida em um dia, lembro daquele menino que deixei trancado no sótão para (tentar) ser um homem equilibrado, centrado e ponderado. E tento visitar o quarto onde o menino ficou de castigo. Mas não acho mais a chave. E encostando o ouvido na porta, não ouço barulho algum. Talvez ele tenha cansado de ficar trancado lá e tenha adormecido para sempre ou fugido pela janela.

De fato, atualmente não creio mais em paixões relâmpago. Não acredito nem em café instantâneo, quanto mais em amor instantâneo. Amores também tem o tempo de maturação, colheita, torragem, moagem e preparo com água em quantidade e temperatura certas. Daí sim, a gente bebe. Sem açúcar, para ser mais autêntico e para o sabor durar mais tempo na boca, mesmo sendo meio amargo. Ou talvez, autêntico seja dizer que nada disso é verdade e que sempre quis subir no meu cavalo branco, me jogar numa cruzada urgente para salvar a donzela da masmorra, seja ela quem for, viver num mundo só meu, criado por mim. Ser como Amélie, a heroína do filme que citei, acreditar nos sonhos e realizá-los. Imediatamente, agora, neste breve tempo de ler o que acabei de escrever. Pronto. Aconteceu. Quem sabe?


[*] "São tempos difíceis para os sonhadores" -  Frase do filme Le Fabuleux Destin D'amélie Poulain

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

FLORES, FLORES PARA LOS MUERTOS

Rafael Perez - "Color Drawing VIII"

[Para ler ao som de John Coltrane – In a Sentimental Mood]
Ontem foi um dia especialmente triste. Não porque eu pensei muito em você, sabendo que você não está mais aqui, mas porque eu não senti uma saudade especialmente intensa. Abri as janelas (o dia estava lindo) e deixei o sol entrar, sacudi os pesados tapetes da sala, onde nos deitávamos, com taças de vinho nas mãos, para ouvir Coltrane e sonhar, bati a poeira daquelas almofadas indianas que você gostava e que ainda tem, lá no fundo, seu cheiro impregnado e provavelmente algum fio de cabelo seu, meio dourado e muito fino. Mais um pequeno fragmento seu que ficou impregnado na minha vida de forma indelével.

Meus dias tem sido repletos dessas pequenas presenças imersas em grandes ausências das coisas cotidianas. Eu vejo que estou conseguindo sobreviver, apesar de toda sua presença na minha vida. Acho que eu ando meio ausente de mim também, sabe. Tenho tentado sair de casa para não lhe encontrar. E você me persegue pelas esquinas desta que se tornou a “nossa” cidade. Não, não é que eu esteja renegando você, pelo contrário, você é uma das pessoas mais bonitas que conheci. E você sempre foi tão humano e tão errático quanto eu. Nunca quis fugir de você. Acho que você é quem quis fugir de si mesmo.

Mas isso não importa mais. O que importa é que me restam saudades, flores e incensos para lembrar você em quantidade suficiente para fazer um altar em sua homenagem, além de algumas fotografias que tirei enquanto você estava distraído olhando para o nada perdido em seu mundo interior, com as mãos para trás olhando para o céu ou fumando um cigarro e vendo a fumaça se dissipar. Eu observava você de longe, com minha câmera na mão, querendo captar a sua alma. Percebo, agora que você se foi, revendo as fotos que guardei numa caixa de chocolates que você me presenteou um dia, que sua alma está aqui nas minhas fotos. E esse é meu altar em sua homenagem.

Queria ter ido encontrar você no dia de ontem. Mas achei melhor lhe encontrar nos meus pensamentos mesmo. Caminhando pelas ruas, conversando com as pessoas, indo ao mercado comprar ervas aromáticas e chás, arrumando suas flores preferidas em vasos imitando Murano, como você gostava e como costumava fazer sempre que algum dos seus queridos lhe visitava, preparando a nossa casa como se você já fosse chegar, me abraçar apertado e me propor um passeio no fim da tarde ao lugar onde costumávamos ver o sol se por alaranjado contra o céu violáceo.

O dia de ontem em si não significava nada para mim. Não quero lembrar-me de você em dias como esse. Você está vivo dentro de mim, e isso é o que importa. Você me ensinou tantas coisas, me fez crescer e me tornar uma pessoa melhor. Não que você fizesse isso conscientemente. Acho que não. Você sempre foi um meninão mimado e egoísta, que batia pé e fazia beiço quando as coisas não eram do seu jeito. Eu também era – e ainda sou. Mas aprendi a tolerar e amar na diferença. Aprendi a controlar meus impulsos, pelo menos um pouco, mesmo gritando com você e pedindo para que você abrisse os olhos e visse que estava me ferindo.

O que sinto agora é que nossas lembranças estão ficando tão difusas na minha mente. Às vezes tenho sensações que relaciono a memórias suas, mas depois vejo que são de outras pessoas, de outros rostos, outras vidas, outros momentos. Como se eu carregasse o mundo inteiro no peito. Talvez essas lembranças que tenho sejam de coisas corriqueiras, que acontecem com todo mundo e eu poderia dizer isso de qualquer pessoa que tivesse cruzado meu caminho. Mas me tornei um pouco impaciente com as outras pessoas depois de você, acho que por esses mesmos motivos. Como se as pessoas fossem sobrepor-se a você, ocupar seu lugar de direito. E isso não é bom. Acho que tento ocupar espaços vazios de você. Você sabe como tenho dificuldades com espaços desocupados.

Voltando à tristeza que senti ontem, eu pensei que poderia estar lhe esquecendo de vez. Porque eu não sofri aquele sofrimento cristão porque você não está aqui. Especialmente ontem eu fui mais sobrevivente que de costume. Tive medo de estar me tornando insensível e de ter colocado você numa gavetinha escondida da minha vida, já que você nunca mais estará aqui. Mas vi que não, não era isso. Acho que você está ocupando o lugar mais bonito do meu coração agora. Porque a dor está passando, embora eu ainda choramingue pelos cantos de saudade, nas noites infinitas, estreladas e frias daqui.

Se eu soubesse como chegar até você, eu lhe entregaria esta carta e as flores que escolhi, mesmo não lembrando direito se são as suas preferidas. Talvez levasse uma caixa daqueles chocolates com amêndoas que você adorava e que tenho sempre em casa, como se lhe esperasse todos os dias para um café. Desejo que você encontre seu caminho, onde quer que esteja, como tenho tentado encontrar o meu.

Do Seu,

.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

NOSSOS VELHOS (DES)CONHECIDOS

Photoallegory of Sarolta Bán (r)


“Tudo tenta se superar
E cheia até a beira
A vida quer jorrar 

Quem não se encarar com amor 
Vai fazer besteira 
Na esteira do rancor”
(Marina Lima – Setembro)


[PARA LER AO SOM DE "VIDA" – Chico Buarque]

Tenho passado por momentos de questionamentos descontrolados. Assumo que tudo que quero às vezes é não pensar em nada, ficar jogado no sofá, gordo, alienado e completamente feliz. Não consigo. Medito, respiro fundo, fecho os olhos, tento em vão esvaziar a mente. Nada adianta. Por isso escrevo. Tenho me questionado sobre os limites das relações que estabeleço com as pessoas, se realmente consigo estabelecer relações verdadeiras e sólidas e se consigo reconhecer verdadeiramente o outro.

Quando se conhece realmente uma pessoa? É possível conhecermos realmente alguém? O que sinto é que as pessoas, de maneira geral, quanto mais próximas, mais desconhecidas. Parece que sempre tem uma portinha que não eu não tinha aberto ainda e que atrás dessa porta tem um imenso quarto escuro cheio de entulhos. Tendo a pensar que à medida que entro na intimidade de alguém, vou vasculhando labirintos desconhecidos. Talvez até mesmo para o próprio “interlocutor/investigado”.  Não é proposital. Quando vejo, invadi.


Tendo a crer que as relações são todas potencialmente virtuais. Principalmente as ditas “pessoais”. A gente passa anos com uma pessoa e quando acorda do transe, numa tarde qualquer de setembro, numa manhã qualquer de agosto ou numa noite qualquer de outubro, vê que não a conhecia. Isso não é uma relação virtual? Esse estranhamento que permeia quase as relações, em determinados momentos, não é virtualidade? Será que a intimidade é o (des)conhecimento do outro? Ou será que isso é resultado de nossas projeções amorosas?

Conheço várias pessoas que tiveram relacionamentos que iniciaram virtualmente. Eu mesmo já tive. Sinal dos tempos. Preferia que fosse num café, num museu ou num parque sob o sol. Mas as pessoas preferem seus écrans. Nossa janela para o mundo é o monitor dos nossos computadores. Namoramos nessa janela. E namorar na janela pode até ser bom. A internet está aqui para isso. Para aproximar as pessoas e deixá-las namorar na janela, mesmo que de luz apagada. Para mim, porém, nada substitui o olho no olho, o toque, o cheiro, o gosto, por mais imaginação e boa vontade que tenhamos.

Conhecer alguém pessoal e intimamente pode ser o começo da virtualidade. Desvendamos no quarto escuro os detalhes que ultrapassam o toque, o cheiro e o gosto do outro. Que usamos máscaras sociais quase o tempo todo (sem percebermos) é fato conhecido. Que talvez vistamos um personagem para seduzir é algo a ser considerado, afinal faz parte do jogo de sedução. Sou péssimo com esses jogos, admito sem muito orgulho. Gosto de cotidianidade, de vestir o pijama depois do jantar romântico, de dormir aconchegado e preparar o café da manhã no dia seguinte, de cara amassada. Mas não sei até que ponto não tenho meus subterfúgios e minhas próprias máscaras. Talvez minha cara limpa seja meu metiê. Quem sabe?

Tenho, lá no fundo – ou nem tanto - alguns mecanismos de proteção e segurança, meus anti-spam, que me protegem na rede e fora dela, que talvez sejam os mais fortes. Anormal? Não sei. Acho que a maioria das pessoas tem, e provavelmente sejamos todos anormais. O que busco é encontrar o cerne, o ponto, o limite. No meio dessa geléia toda, onde eu estou realmente e até que ponto visto uma armadura para me proteger do (des)conhecido?

O que me deixa inseguro é o desconhecimento que enfrento no decorrer de uma relação virtual que deixou de ser. Frustração ao reconhecer meus próprios limites e os limites do outro, por não ter as ilusões criadas confirmadas, ou pior, por tê-las todas confirmadas, por não ser reconhecido pelo outro como sujeito amante e desejante. Abandonar virtualidades é o desfazimento de uma projeção e o começo de outras.

O fato é que essa frustração desperta aquela dor fininha. Uma espécie de saudade do que não chegou a ser e do que não tive. Uma tristeza funda. Nem sempre sei dar nome. Angustia? Melancolia? Às vezes os sonhos desfeitos voltam, mesmo que não sejam conscientemente identificáveis. Solidão, em última instância. E nela danço eu, dança você.

Mas pode existir uma solução no meio do entulho:  Não projetar-me no outro,  não criar essas ilusões. Bonito no papel, né? Mas na hora H, quero ver quem consegue fazer isso sem se machucar. Entendo, quando ouço dos profetas de plantão que encontro pelas esquinas da vida, que é necessário o equilíbrio. Essas pessoas fazem tudo parecer tão fácil. Para mim, claro. Eles não precisam fazer nada, eles são apenas proféticos com a minha vida. Não sei muito bem como alcançar esse tal caminho do meio, esse equilíbrio. Mas tento, tateando no escuro todos os dias, em busca de luz. Em alguns dias tudo parece mais escuro que em outros.

Bem, se é projeção, o problema é meu. Tento não colocar a culpa nos outros, embora seja o caminho mais fácil. Marisa e Maísa me entendem: A dor é minha, não é de mais ninguém e se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar. Se tudo são escolhas pessoais, eu fiz as minhas. Lembro, ainda, do bom Chico: Quero luz, porque sei que além das cortinas são palcos azuis. E não adianta insistir, não desistirei de dançar cheek to cheek.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SOBRE O LIVRE EXERCÍCIO DO AFETO

[Para ler ao som de Nina Simone - Feeling Good:


“Todo mundo se apaixona, ama e sofre por amor; todo mundo tem projetos de vida que luta para realizar.”
(Marcelo Laffitte, sobre o filme Elvis & Madona)



Sábado. Noite meio morna de primavera. Nem fria, nem quente, nem nublada, nem estrelada. Lendo o jornal, descobri que estava em cartaz na cidade o filme Elvis & Madona, do diretor Marcelo Laffitte, com Simone Spoladore e Igor Cotrim. Tentei encontrar alguém que quisesse me acompanhar ao cinema. Em vão. Resolvi, então, assumir que sim, ando meio só. E sim, tenho que aceitar. Sem drama. Nessa noite incerta de primavera resolvi fazer um daqueles programas “a um” que andava meio desacostumado a fazer. A gente desaprende a ser só.

Cheguei à bilheteria vazia, comprei o ingresso e matei tempo até o horário da sessão. Jantei tranquilamente, tomei um café, fumei um cigarro. Dirigi-me à entrada do cinema alguns minutos antes, a tempo de comprar pipoca e algo para beber, como manda o figurino, imaginando que a fila seria considerável e teria dificuldades para encontrar um bom lugar. Para minha grata surpresa e regozijo espiritual a sala estava completamente vazia quando cheguei. E assim permaneceu. Tive uma sessão exclusiva só para mim. Êxtase puro!

Confesso que sou meio neurótico com essas coisas de público, principalmente em cinemas. Mas não tenho ágorafobia, apenas acho super chatos os sons que as pessoas emitem durante os filmes, detesto sessões lotadas, torço sempre para achar um lugar razoável, sem pessoas sentadas muito perto e sem interferências durante o filme. Porque sempre tem alguém comendo batata frita crocante e refrigerante ao lado e alguém atrás enfiando os pés no encosto da frente (o meu!). Acho que as pessoas deviam ter o mesmo respeito em cinemas que tem em missas. Bem, as pessoas não respeitam mais os cultos religiosos de maneira geral. Sinal do fim dos tempos? Talvez do fim dos templos.

Sobre o filme? Ah, sim. É sobre ele também que quero escrever. Meu êxtase inicial por conseguir assisti-lo sem qualquer interferência externa foi diminuindo gradativamente ao longo da exibição. Saí da sala meio incomodado, como se faltasse algo, uma última palavra, um último gesto. Queria saber se o que eu sentia em relação ao filme era uma má vontade voluntariosa (bem característica) ou se tinha alguma necessidade que, como espectador leigo, Laffitte e elenco não tinham conseguido satisfazer. Caminhei pela rua silenciosa e deserta procurando explicações, entre cigarros e pensamentos ruidosos, com a voz rouca da Elza Soares cantando “I Love You, Copacabana”, música-tema do filme.

Foi quando fui interrompido por sax rasgando acordes de uma música conhecida: “It's a new dawn / It's a new Day / It's a new life / For me / And I'm feeling good”. Parei, buscando identificar de onde vinha aquele som. Da penumbra da porta entreaberta surgia uma música contagiante. Entrei. Envolvido pelo jazz apresentado por uma banda que desconheço completamente, sentei-me num canto. Entre goles de cerveja e alguns (pouquíssimos e marginais) cigarros na beira da calçada em frente ao bar, porque estão querendo nos proibir de sermos livres em nome da saúde, pus-me a ruminar Laffitte, Elvis e Madona, enquanto tamborilava “Feeling Good” na mesa de madeira.

Não gosto muito de filmes que falem sobre gênero. Sempre acho que acabam sendo clichês e tendenciosos. Na verdade, não foi o caso deste, em especial. Mas faltou algo, no geral. Achei as atuações dos protagonistas medianas. Impossível comparar a travesti Madona (Igor Cotrim) com personagens como Agrado (Antonia San Juan), de Tudo Sobre Minha Mãe ou com Bree Osbourne (Felicity Huffman), de Transamérica. O rapaz pareceu esforçado em cumprir seu papel. Mas não me comoveu. Em alguns momentos ele peca por falta, em outros por excesso, o tempo todo por não achar o ponto certo do jeito irreverente e ao mesmo tempo delicado e sensível que Laffitte gostaria – interpretação minha - de imprimir à personagem. Não obstante, levemente melhor que Igor, a personagem lésbica Elvis (Simone Spoladore), que em entrevistas Laffitte afirmou querer uma figura feminina e delicada, pesou a mão nos trejeitos “black boot”, jaqueta de couro e pochete, beirando o caricato. A moça ainda é mais convincente que o inexperiente Igor, afinal ela já tem alguma trajetória em cinema, como o belíssimo Lavoura Arcaica, O Ano em Que Meus Pais Sairam de Férias e Primo Basílio. Já o rapaz estréia no cinema nesse filme.

Sei que nadarei contra a corrente agora, afinal o filme foi aclamado pelo público e pela crítica. A obra recebeu mais de vinte prêmios e teve muitos méritos por ser um filme independente, com baixo orçamento (ganhando inclusive um prêmio por isso) e por tratar de temas um tanto indigestos para a grande maioria conservadora deste país. Rendo-me à coragem e obstinação do diretor. Porém, o filme não me convenceu. A narrativa tem um bom ritmo, a fotografia tem seus méritos, embora não existam surpresas, a trilha sonora é interessante e se encaixa perfeitamente à proposta da trama, a ambientação em Copacabana é super apropriada. Gosto dos takes de passagem de tempo, com montagens de fotografias do Rio de Janeiro, numa alusão à profissão de Elvis. Acho que a montagem e a edição do filme pecam um pouco, deixando a narrativa por vezes truncada e um pouco cansativa, principalmente nas cenas finais do filme.

Apesar de todas as ressalvas e resistências que tive com o filme, de alguma forma meio nebulosa ainda eu me sensibilizei com a obra. Nas palavras do próprio diretor, o filme fala sobre sentimentos humanos e universais: “É uma história de amor e de realizações de sonhos, e isto é universal”. Acho sensível e tocante a forma como os personagens transitam pela narrativa, trazendo à tona – superficialmente - seus sentimentos, desejos, buscas e frustrações mais íntimos. Mérito do roteiro. E embora o filme trate de sentimentos universais, e isso é o que liberta os personagens de imposturas sociais, o que une Elvis e Madona são sentimentos/sofrimentos de pessoas marginalizadas justamente por serem impedidas de exercitarem seus afetos - universais - de forma livre e fluída. Esse contraponto deixa um sabor residual meio amargo na gente. Em minha opinião, esse talvez tenha sido o melhor insight do diretor em seu primeiro longa.

Elvis & Madona se diferencia de filmes que tratam das homossexualidades como escusas e marginais e cai melhor no gosto do público porque é um filme com uma história de amor bonita e esperançosa, apesar de todas as amarguras da vida e dos caminhos tortuosos que enfrentamos. Mas, assim como os personagens esperançosos e sedentos por felicidade apresentados por Laffitte, eu queria mais. Mais do próprio filme. Queria mais dos personagens, mais do diretor, mais do sonho, mais das esperanças, mais daquilo ao que o filme se propôs.




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CANÇÃO DO MAR


     Caspar David Friedrich - "The Monk By The Sea"


“Porto calmo de abrigo
De um futuro maior 
Inda não está perdido
No presente temor”

[Para ler ao som de Madredeus – "Ao Longe o Mar"]



Assustado, abriu os olhos e saiu do torpor no qual estava submerso. Parecia ter ouvido o som do navio cargueiro chegando. Levantou e bateu a areia do corpo. Detestava a sensação de areia, sol e mar, embora passasse horas deitado na praia deserta ouvindo somente o som das ondas na rebentação e seus ruídos interiores ensurdecedores. Olhou para o horizonte sem fim que o cercava. Apenas mar, céu e silêncio.

Sempre teve dificuldades com silêncios. Nunca soube como resolvê-los a não ser rompendo-os brusca e às vezes levianamente. Quando não resistia e rompia-os, amargava o desgosto de ter feito novamente a coisa errada. Não sabia como lidar com as situações que fugiam ao seu controle. Tampouco sabia lidar com os enigmas e com as mensagens não ditas. Não era um bom entendedor, em última instância, porque para ele meia palavra nunca bastava. Queria mais explicações, rudes e ríspidas que fossem, dolorosas e sangrentas, se inevitáveis. Mas queria sempre se entranhar nas situações o mais fundo possível, até que tudo perdesse o sentido e retornasse ao ponto inicial. Cético, precisava confirmar suspeitas, elucubrações e teorias metafísicas e cataclísmicas, ou simplesmente acalmar um coração furioso e uma mente neurótica. Paradoxalmente, essa era sua forma de fugir.

Sempre queria que não fosse nada disso. Queria ouvir que estava tudo bem, que não havia sido esquecido, que sua imagem ainda estava registrada nas retinas de alguém, que ainda era uma lembrança boa de amor, que não recebeu uma carta porque o serviço postal atrasou, que não recebeu felicitações no Natal ou aniversário porque todas as tentativas foram inúteis, que não recebeu um telefonema porque na última tempestade a comunicação com o continente foi interrompida.

E o continente ficava cada vez mais distante. E ele ficava cada vez mais isolado em sua ilha nada particular e nada paradisíaca. Vivia cercado de céus, sóis, luas, rochedos e ausências. De resto, um rádio amador, um telefone, um telégrafo, avistar uma embarcação ou outra no horizonte e o velho farol, cuja manutenção era sua única obrigação e o motivo oficial – inverídico - de sua ida para aquele lugar. O motivo real, inevitavelmente confessado pelos abismos negros de seus olhos, era apenas fuga da dor.

Os suprimentos chegavam uma vez por mês e resumiam-se a parcos alimentos desidratados, conservas, compotas e, vez ou outra, uma garrafa de rum ou vodca, escondida entre as latas de feijão. O carregamento trazia também (e principalmente) esperanças. Eram os itens mais preciosos trazidos. E mais escassos também. Das esperanças, garimpadas nas caixas de madeira deixadas na praia, guardava as que eram mais impossíveis. Ele mesmo era um homem impossível numa vida impossível.

Materializava as esperanças com os recursos que tinha: Uma fotografia preto e branco com a singela dedicatória “Amor, M.M.”, algumas cartas amareladas pelo tempo, escritas com caligrafia elegante e rebuscada, em papel de linho, um lenço de seda branco, enviado em uma das entregas envolvendo uma imagem do Cristo crucificado, que ornava a cabeceira de sua cama, mas não protegia seu sono dos sonhos revoltos, a mão direita de uma luva, surrupiada em um momento de distração, no cais do porto, no dia frio da despedida.

Segurando a luva como se fosse uma relíquia sacra, relembrou o momento da despedida e remontou o trajeto que planejou até aquele momento. Sentia uma saudade amarga do passado. Percebeu-se, logo no desembarque na ilha, absolutamente vil e covarde. Porém, jamais se permitiria reavaliar decisões ou retroceder. Imaginava que conseguiria deixar tudo para trás, isolado no continente, e começar a contar o tempo do zero novamente, como se o tempo e a distância apagassem as cicatrizes, tal qual fotos Polaroid. Nos primeiros anos de exílio voluntário conseguiu esconder todas as lembranças na mala debaixo da cama e num escaninho da alma. Depois percebeu o equívoco e a impossibilidade que era tentar ser um homem sem lembranças, entregando-se às reminiscências, tão fortes quando as ondas contra as rochas.

Nesse insight correu para rever seu passado. Mas já era tarde. O tempo, as traças e a maresia agiram de forma incisiva. Tentou, em vão, preencher as lacunas com afetos trazidos dos recônditos de si. Tentou refazer trajetos, abandonar a ilha, mas não havia como fugir. Escreveu cartas, mandou notícias, esperou respostas. Mas ouviu apenas ecos de sua própria voz.

Havia conseguido o que queria. Em busca de paz abandonou um continente, uma vida, um mundo e pessoas que amava. Queria fugir da vida dura que tinha, da violência, da privação, do desrespeito, das dificuldades e frustrações. Mas isso teve um preço. Não era possível voltar atrás. E ao passo que abandonou, foi também abandonado. Restava-lhe apenas o resultado de suas escolhas. Restava um gosto amargo de mar, vodca, lágrimas e abandono. Voltando à praia, esperando que o navio trouxesse novamente suprimentos de esperanças vãs, viu o sol se por no horizonte e a noite estrelada romper sobre sua cabeça, sem a certeza que veria o sol raiar manhã seguinte. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

CE QUE JE SUIS


"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
(Fernando Pessoa)

Uma pergunta tem me atormentado nesses últimos tempos. Acho que pelo avançado da idade e pelo avançado da hora, porque normalmente sou visitado por questionamentos fantasmagóricos nas madrugadas quase insones, como agora. Sentado no meu quarto, à meia luz, vendo sombras amorfas nas paredes e minha imagem difusa nos espelhos, ao som das janelas batendo pelo vento norte e ao sabor do cheiro úmido que anunciam a tempestade sou invadido por dúvidas quase adolescentes.
Tenho me sentido um amontoado de retalhos, agrupados como um mosaico bizarro e acidental. Nesse emaranhado de peças desconexas tento achar uma que responda a essa questão angustiante. Os dias passam, e parece que quanto mais caminho, mais me aproximo do limite, do muro, da barreira enigmática e intransponível, ao passo que mais me afasto de mim mesmo. Da mesma forma, mais difícil é fazer reconstruções para vasculhar caminhos trilhados e buscar pistas que indiquem uma direção. Em última instância, é mais difícil seguir em frente na mesma proporção que é mais difícil voltar. E tenho o sentimento forte que é mais difícil seguir justamente porque é difícil retroceder.
Por outro lado, talvez seja uma grande ilusão voltar. Na verdade, nem quero voltar. Por melhor que tenham sido as lembranças do passado, não quero revivê-las. Porque tenho um temor místico e reverencial dessa tarefa. Acho que os momentos mágicos devem ficar preservados num escaninho da alma, quietinhos, para serem visitados em datas especiais. Devem ser guardados em um relicário, envoltos em um manto de linho ornado com fios de ouro, como uma imagem sacra. Visito, reverencio, em um dia do ano coloco-a num andor e depois da procissão guardo para não perder a atmosfera sagrada, embora não haja nada de sagrado.
Meu sentimento nessas caminhadas de tropeços, erros e acertos, é mais ou menos como se eu estivesse atravessando um riacho e não pudesse colocar os pés na água (tenho transtorno obsessivo compulsivo até nas metáforas exemplificativas). Equilibro-me nas pedras que afloram. Porém, alguns intervalos entre uma pedra aflorada e outra são muito grandes e para alcançar é necessário dar um passo muito maior que minhas pernas. Então, devo voltar-me para o caminho que já percorri e localizar alguma pedra que possa ser recolocada à frente, de modo a comportar uma nova passada adequada às minhas limitações.
Estou no meio do riacho. Choveu. O céu continua cinzento e as tempestades ainda se anunciam. Isso quer dizer que devo me apressar. A correnteza pode ficar mais forte e cobrir as pedras, impedindo a continuidade sem que eu me molhe. Para continuar, porém, preciso olhar para trás e buscar alguma pedra. E é aí que se fundamenta a dificuldade. Não há como pegar uma pedra e recoloca-la à frente. O caminho percorrido, fácil ou difícil, deve ficar lá. Não existe possibilidade de tirar algo do passado e trazer até o presente para que o futuro seja melhor. O máximo que posso fazer é contemplar o passado, ver de que forma atravessei o riacho e tentar não pisar em pedras em falso mais uma vez. Ou então ver quais eram as características das pedras firmes que passei sem dificuldades.
Lembrar do passado sempre causa uma dorzinha funda no peito. Pesar, saudade, um certo orgulho inglório e desajeitado, comiseração, piedade. Lembrar do passado não é uma tarefa que me enobrece. Dói lembrar dos trechos do riacho percorridos com tranqüilidade. Dor de saudade, de pensar que a vida já foi mais fácil. Dói lembrar dos trechos onde quase senti a água pelos joelhos. Angústia, por pensar que posso passar pelo mesmo sofrimento e uma pitada de autopiedade, porque sou latino e meio dramático às vezes.  
Quando eu era mais jovem, podia dizer com orgulho, tranqüilidade e facilidade quem eu era. E eu era tantas coisas! Mas cresci. A fantasia de Spiderman não serviu mais na cintura, as capa do Batman ficou curta.  Acho que a vida foi me dando tapas na cara em quantidade suficiente para me acordar do sonho adolescente letárgico e ver que eu não era nada daquilo que pensava ser. Porém, madrasta que é, a vida não foi generosa comigo me dando indicativas do que eu poderia ser em lugar daquilo que ela me disse que eu não era. Ou talvez até tenha mostrado o caminho e eu não entendi o que ela quis dizer. Como entender algo em uma língua desconhecida quando a gente mal conhece a língua materna para comunicar as coisas mais primitivas?
À medida que o tempo foi passando, fui sendo despido das imagens irreais do que era. E cheguei no meio do caminho, completamente nu e sem poder dizer, batendo no peito com orgulho: “Eu sou isto. É isto que sou!”.  Parado no meio do caminho, me apoiando em uma pedra aflorada, vendo a correnteza aumentar, sentindo que devo achar um ponto de apoio seguro para seguir em frente e sem conseguir encontrar, eu paraliso, mesmo sabendo que a única alternativa é continuar em frente. Torno-me três “Eus” distintos. Um ficou para trás em uma margem, o outro está à frente, na outra margem, e um terceiro está entre eles. E é inerte no meio da correnteza que olho com distanciamento para cada um deles me pergunto: Afinal, aquele é o que eu sou?