terça-feira, 23 de abril de 2013

ACERVO PARTICULAR


 “Personal Saint”, by Natalie Shau

[Para ler ao som de "These Days" – Nico]

Parábola sobre a vida cotidiana mais comum que poderia ser a biografia de qualquer um.

Meu nome é Nico. Este não é meu nome original, mas detesto meu nome de batismo. Meu pai que me perdoe, mas é um nome realmente muito feio. Por isso rebatizei-me. Gosto de ser chamada assim, lentamente: Ni-co. Descobri dia desses, mexendo no fundo de uma gaveta do banheiro, que tenho uma coleção bizarra e involuntária. “Coleciono” escovas de dentes de pessoas que passaram fugaz e efemeramente pela minha vida, que surgiram do nada e desapareceram sem deixar rastros. A bem da verdade, algumas marcas ficaram. E eu esfrego, nego e escondo para que elas desapareçam ou sejam esquecidas. Só no último ano, “conquistei” quatro novos bustos para o hall of fame. “Tornei-me perita em extrair faísca das britas e leite das pedras”, lembrando Calcanhoto. “Acordo”.

Se eu fosse dada a crenças ocultistas, diria que meu banheiro tem uma maldição: A maldição do porta-escovas. Depois desse emblemático momento, no qual meu território é demarcado por um forasteiro e o espaço vago da escova de dentes é ocupado por um objeto novo e estranho, o prazo para que a escova (e eu) sejamos abandonadas por quem a cravou nesse lugar é de sete dias. Certo, sete dias pode parecer exagero. Mas já existiram situações em que o sumiço aconteceu em menos tempo. E tenho vontade de cantar para todos eles: “I had a lover, / I don't think I'll risk another / These days, these days. / And if I seem to be afraid / To live the life that I have made in song / It's just that I've been losing so long.”*

Já pensei em fazer uma instalação em uma parede da sala com esses objetos. Quase como um memorial em homenagem a mortos de guerra. O nome seria bonito: “Memorial do Amante Desaparecido”. Numa sala branca e completamente vazia, colocaria na parede cada uma em uma moldura, também branca, como uma caixa de madeira com vidro, e sob elas uma legenda contanto sua história. Seria hilário e triste. E como as pessoas adoram ver a desgraça alheia, eu cobraria ingressos. Histórias de separação e abandono sempre captam público. Seria sucesso garantido.

Vendo essas escovas eu percebo que, assim como a gaveta de meias, as escovas de dentes contam muito da personalidade de seus donos. Por que acho isso? Porque fiz uma longa pesquisa de campo, ao longo de vários anos. Se você tiver a chance, dê uma espiada na gaveta de meias (vale gaveta de cuecas ou calcinhas) de seu/sua pretendente e veja se a gaveta não é exatamente uma fotografia da forma de viver dessa pessoa. Veja se as meias estão dobradas em pares ou soltas, empilhadas ou todas misturadas, se são coloridas ou se são todas brancas, se estão separadas por cor e tipo, se são na maioria de algodão, esportivas ou sociais, se estão encardidas, furadas ou puídas. Perceba o que você sente ao ver essa gaveta. Repare em suas próprias reações. E ao menor indício de que algo está errado nessa gaveta, acenda a luz vermelha de alerta. E fuja enquanto é tempo. Provavelmente existe algo que será, no futuro, um foco de tensão entre você e seu/sua aspirante a par(tner). Por outro lado, se a gaveta lhe causar boa impressão e admiração - ou inveja porque a sua é muito mais caótica - veja nisso um estímulo e invista nessa relação. Mas alerto: Nunca, nunca mesmo, deixe que a outra pessoa perceba que você fez esse tipo de análise! Essas idiossincrasias nunca são bem vistas pela população “normal”. Essa investigação deve ser muito particular e sigilosa.

Mas voltemos às escovas que herdei e seus respectivos donos. Uma delas está praticamente intacta, é uma daquelas cheias de tecnologias, anatomias e ergonomias, do tipo que tem propaganda na TV em laboratórios iguais aos da NASA e os atores - sempre com dentes alvíssimos - usam jalecos tão brancos quanto os dentes. Cerdas super macias, cabo emborrachado, tons neutros. Deve ter sido usada no máximo duas vezes e provavelmente foi comprada com o intuito específico de ocupar meu banheiro. Ele era assim também: asséptico e parecia ter sido criado em laboratório. Outra delas é nova também, suponho. Teve pouco uso, pelo menos. É dessas baratinhas, simplíssimas, reta, em plástico de cor lilás de gosto duvidoso, tamanho grande e cerdas médias. É do tipo que se compra em supermercados, normalmente são quatro ou cinco unidades de cores berrantes num pacote promocional, provavelmente o valor por cada uma não chega mais que alguns centavos. Seu dono, se fosse colocado à venda no mercado público, também não valeria muito mais que isso. Outra, ainda, é uma escova dessas de viagem, cujo cabo vira um estojo para proteger as cerdas. Brinde de uma rede de Hotéis, é aquele tipo precário de escova de dentes, que deve ser usada pelo tempo em que se está hospedado no hotel ou até ser encontrada uma drogaria 24h para que se compre uma escova digna. Não foi o caso, acho. Escova de viajante, ela é também bem viajada. Provavelmente ele encontrou-a perdida em sua mala de resolveu desová-la aqui em casa. Prático. Suas cerdas estão gastas e tortas e o estojo que deveria protegê-las de contaminação mais parece uma daquelas placas de laboratório para cultura de fungos, tamanha a quantidade de resíduos esbranquiçados e pretos de creme dental e bolor. Seu dono deve estar perdido até hoje em alguma ponte aérea entre Amsterdã e Teerã e a escova jamais fará falta, porque sempre há um novo hotel no caminho entre nada e lugar nenhum. A última é idêntica à escova de dentes que uso. Achei uma coincidência tão romântica duas escovas exatamente iguais em meu banheiro. Cheguei a pensar que poderia ser algum sinal do universo para que eu não perdesse a esperança na humanidade. São escovas simples e anatômicas, de tamanho pequeno e cerdas macias, haste transparente com detalhes emborrachados na extremidade e possuem protetores de cerdas na cor da haste. Para não confundir as duas, fiz uma marca na minha. Não tive nem tempo de fazer confusão pela manhã. A escova foi utilizada uma única vez. Esperei semanas que ela fosse utilizada novamente. O símbolo do infinito, que tatuei na minha escova em sua homenagem, ficou. A escova dele foi para seu devido lugar. Quando desisti de esperá-lo infinitamente, joguei-a na gaveta para perdê-la de vista para sempre. A gaveta do esquecimento é um bom lugar para elas - escovas e pessoas.

Mas para dor de amor eu não faço sala**. Por isso, hoje decidi: visitas à minha casa somente guiadas e sem pernoite. Ou então posso fornecer um kit-permanência, de cortesia, com escova, creme dental, fio dental, talvez algum mimo opcional, em uma nécessaire que deve, obrigatoriamente, ser levada embora no dia seguinte e retornar na próxima visita, caso exista. Talvez devesse colocar meu cartão de visitas, nunca se sabe. Porque, né, assim todos estaremos livres das maldições ou de vagarmos, erráticos, pelo samsara. Mas ainda não coloquei isso em prática. E provavelmente nunca colocarei. Esta é uma daquelas metas das listas de início de ano que nunca cumpro. Deveria incluir na próxima lista que devo carregar minha própria escova e cravá-la em banheiro alheio. Seria minha libertação. E antes disso preciso anotar na porta da geladeira para não esquecer e repetir como um mantra: - Nico, imponha limites: Sua casa, suas regras.

Apoio-me sobre a pia com a mão direita e com a esquerda seguro essa quase meia dúzia de escovas. Inclino-me e vejo minha imagem refletida no espelho. Mesmo sentindo ser prática, cotidiana e nítida, ao melhor estilo Passagem das Horas, esse processo de construção e reconstrução de mim mesma é cansativo. É preciso encerrar um ciclo para começar outro. É preciso liberar espaço na gaveta, mesmo que seja para enchê-la com as mesmas coisas. Penso nisso pouco antes de jogar todas essas lembranças na lixeira ao lado do vaso sanitário. E sinto uma pontinha de mágoa no peito porque no fundo, bem lá no fundinho mesmo, queria ter uma vida pacata, de casinha com cerca branca, jardim florido, cadeira de balanço na varanda e em seu interior sonhos compartilhados. Porque a Felicidade, desse jeito mesmo com letra maiúscula, como se fosse o nome de um ente querido, é assim bem Nora Ney: “Felicidade é uma casinha simplesinha / Com gerânios, em flor na janela / uma rede de malha branquinha / E nós dois a sonhar dentro dela.”

Encerro mais um ciclo nesta ciranda infinita. Enquanto ouço o barulho das escovas batendo no fundo da lixeira, tiro o pé do pedal que sustenta a tampa erguida, fazendo com que ela bata em um soco seco. E penso, bem Nico - a outra: “Esses dias eu pareço pensar sobre / Como todas as mudanças vieram em minhas direções / E eu penso se eu vou ver outro caminho.” ***

Amanhã, quem sabe?


____________________________

* “Eu tive um amante
Eu não acho que arriscarei outro
Esses dias, esses dias
E se eu parecer estar com medo
De viver a vida que eu criei na música
É só que eu estive perdido há tanto tempo” (Nico – These Days)

**Ralador – Mariana Baltar

*** “These days I seem to think about
How all the changes came about my ways
And I wonder if I'll see another highway.” (Nico – These Days)




quarta-feira, 10 de abril de 2013

E VOCÊ, JÁ FEZ SEU “OUTING”?



“Lembro quando você me falou,
dentro do armário,
só tem bolor e naftalina.
Vem já pra fora, meu bem,
que só aqui é que tem,
calor e adrenalina.”

(Zeca Baleiro – Armário)


“Sair do armário” é um termo com o qual ainda estamos nos familiarizando. Mesmo quem não sabe exatamente o que significa, já ouviu o termo em alguma roda de conversa e tem uma ideia, mesmo vaga, do significado. Trocando em miúdos, a saída do armário é a decisão de indivíduos, que desenvolvem relacionamentos homoafetivos, de assumir publicamente suas inclinações amorosas. A origem do termo é um tanto controversa. Em uma versão irreverente - que eu particularmente acho engraçada, sendo verdadeira ou não - compara o “Coming Out” ("sair para fora") de indivíduos homossexuais ou bissexuais com um Baile de Debutantes, ou seja, uma espécie de apresentação desses sujeitos à sociedade. O termo “coming out” teve a palavra “closet” agregada posteriormente, segundo consta por volta dos anos 60, a partir do levante de Stonewall, em Nova Iorque, numa alusão à vida no armário como uma vida de negação, sombras, sigilo e segredos escamoteados. Então, sair do armário é sair das sombras, é deixar a escuridão e assumir publicamente “a dor e a delícia de ser o que é”, como cantaria nosso bom Caetano.

Nos últimos dias esse tema tem povoado ainda mais nosso imaginário coletivo e as timelines de nossas redes sociais. Nem sempre de forma positiva, às vezes de forma indigna, vez ou outra em tom um tanto desrespeitoso e jocoso, em vários momentos de forma incoerente, preconceituosa e até mesmo leviana. Mas se há democracia, é necessário que haja esse espaço para o debate, para posturas corretas e distorcidas e para a manifestação livre de pensamentos. Percebo que o tema surge como uma atitude de revolta e repúdio às posturas totalitárias, principalmente de religiosos fundamentalistas. Ao que parece, “o amor que não ousa dizer o nome”, termo que o escritor Oscar Wilde utilizava para referir-se à sua homossexualidade, está mostrando sua cara, em reação a uma minoria que se diz representante de uma maioria. E desconfio que essa “maioria” não foi consultada se queria ser representada por esse seleto grupo. Eu, pelo menos, não fui. Você foi?

Não se faz política apenas em movimentos sociais organizados ou ocupando cargos públicos. Tampouco apenas em redes sociais. Fazemos política a todo momento, da hora de acordar até a hora de dormir, desde os atos mais simples, como o de escovar os dentes todas as manhãs ou o “sagrado pingado com média” em pé no balcão do boteco da esquina. Militamos socialmente com o porteiro do prédio, com o motorista do ônibus, com a atendente da farmácia, com o pai, com a mãe, com o irmão, com o namorado ou a namorada. E até mesmo sozinhos em nossos quartos, no escuro, às três da manhã, enquanto pensamos nas mancadas que damos na vida.

Em uma entrevista dada ao jornal O Estado, Daniela Mercury diz o seguinte, sobre sua recente união homoafetiva: "Ou se assume o ônus de quebrar padrões ou você vive numa posição de discriminado." Esta frase é de uma profundidade enorme. O ato de dizer ao mundo sobre sua orientação sexual é, para muitos, libertador e revolucionário. Mas qual é a real necessidade de falar ao mundo sobre por quem nossos sinos dobram? Simples. Porque é uma forma de fincar a estaca no chão e delimitar nosso espaço, nosso lugar no mundo. Porque é um ato político. No entanto, mais que mostrarmos quem somos, é uma forma de mostrarmos a que viemos.

Ouvi pessoas criticando essa superexposição de algumas figuras públicas em relação a algo que é estritamente de foro íntimo. A quem interessa saber dos sentimentos mais ternos e particulares que dispensamos aos demais? Quem quer saber, em última instância, com quem nos deitamos? Que necessidade é essa que homossexuais ou bissexuais tem de declarar ao mundo suas afeições que heterossexuais não possuem? Essas foram perguntas que eu também me fiz. E arrisco uma resposta. Não interessa a ninguém a quem destinamos nosso amor, ninguém tem que saber quem é o fiel depositário dos nossos sonhos e desejos. E digo que não, não é exclusiva de homossexuais a necessidade de falar publicamente sobre seus sentimentos. É uma necessidade humana. Mas tem um tom contestador (ou subversivo) quando um homossexual vem a público falar sobre sua intimidade. Subverte a ordem porque choca ver quebrado o modelo de amor que povoa nossa imaginação. Alguns ficam, no mínimo, estarrecidos ao imaginar que não existe somente o modelo “Papai e Mamãe”, “João e Maria”, “Adão e Eva”. Como essas pessoas, que tem suas convicções abaladas, vão sobreviver à existência afetiva  - e como estrutura familiar - de “Adão e Ivo”?

Pensado como ato político, “sair do armário” não é somente uma decisão de liberdade individual, é também um direito social. Mais que falar sobre sexualidade, é dizer que sujeitos políticos nós somos. Ao externarmos publicamente o que pensamos, expondo nossos sentimentos mais íntimos, sejam eles quais forem, definimos nosso lugar no mundo. E isso é um ato importante na nossa construção como indivíduos.

Ações afirmativas surgem de uma demanda originada pela suposta maioria hegemônica heterossexual, que normatiza conceitos, posturas e sentimentos, que estabelece o que é certo e o que é errado. Principalmente proíbe veementemente o exercício daquilo que ela própria definiu como errado. E não é uma imposição, não é uma “ditadura” (gay), como muitos bradam com tochas em riste, querer defender o direito a não viver conforme uma norma estabelecida por terceiros sobre algo que é absolutamente íntimo e particular. Por isso é importante que o oprimido mostre sua cara e use sua voz. Por isso é importante que existam grupos organizados para defender esses interesses. Porque é imprescindível dizer que amor não tem credo, amor não tem gênero, amor não tem cor. O amor está em todos nós e é um direito nosso exercê-lo como manda o coração. Como diria Drummond, “Amor foge a dicionários / E a regulamentos vários”.

Precisamos sair do armário. Não para assumirmos publicamente nossa sexualidade. Para muito mais que isso. Para assumirmos quem somos em essência, “assumir o ônus” de declararmos quem somos em profundidade, para lutarmos por dignidade e por nossos direitos mais fundamentais como humanos, para gritarmos em uníssono por aqueles que não conseguem gritar, para estendermos a mão àqueles que são iguais a nós. E àqueles que são diferentes de nós também.

Em tempos de Felicianos e corjas de inquisidores moralistas, covardes e hipócritas, é necessário cada um faça seu “outing” e juntos brademos que somos evangélicos, católicos, umbandistas, budistas, negros, brancos, pardos, índios, homens, mulheres, gays, bissexuais, heterossexuais, transgêneros, jovens e velhos. Porque somente sabendo e assumindo quem somos, poderemos escolher conscientemente quem nos representa.


O LADO BOM DA SESSÃO DA TARDE




Mesmo tendo certa resistência a determinados tipos de produções cinematográficas, me propus a assistir (em meu ritmo biológico peculiar) a todos os filmes concorrentes, pelo menos nas principais categorias, e aos vencedores do Oscar 2013. Já havia comentado sobre Amour, de Michael Haneke. Agora é a vez de registrar algumas impressões sobre o incipiente “oscarizado” O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook), dirigido por David O. Russell, o mesmo de O Vencedor. As virtudes do filme são confirmadas pela quantidade de indicações ao Oscar, o que mostra que a obra está afinada com o objetivo do Academy Awards. Ou então que o Prêmio da Academia está afinado com a finalidade comercial do filme, demonstrando a coerência de um prêmio cujo objetivo é reconhecer e celebrar a indústria cinematográfica americana. Foram oito indicações, incluindo melhor filme, melhor roteiro adaptado, melhor ator (Bradley Cooper), melhor ator coadjuvante (Robert De Niro) e melhor atriz (Jennifer Lawrence).

Pelo elenco e pelo roteiro já é possível medir a febre da produção. Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) é um homem que entra em crise, perde o emprego e um casamento fracassado e é internado em um manicômio judiciário. Por decisão da mãe (Jacki Weaver) é levado para casa dos pais para continuar o tratamento, em liberdade condicional. Ele retorna obcecado por reconstruir a vida que ele mesmo pôs a perder. No processo de reinserção na vida “normal”, ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma mulher também desajustada que provoca mudanças em seus planos futuros. Com esse enredo já tive certa preguiça e já previ o que aconteceria. Não me enganei. Impossível não fazer spoiler logo na segunda frase da sinopse ou já no título do filme no Brasil, não mais infeliz apenas que o título em Portugal (“Guia Para um Final Feliz”).

Embora Jennifer Lawrence, vencedora do Oscar, do Globo de Ouro e do SAG Award de Melhor Atriz, esteja realmente boa no filme - e sua atuação o salve em alguns momentos mais enfadonhos - ele não passa de um americanóide previsível. Apesar de todo mérito da moça - e de Robert De Niro, justiça seja feita - ainda acho uma injustiça ela vencer a espetacular e densa atuação de Emmanuelle Riva em Amour. Quando penso nessas injustiças da Academia, lembro que o prêmio não é para os melhores do ano, é para os melhores do ano nos Estados Unidos. Então meu coração se acalma.

Minha sorte é que era um dia qualquer de meio de semana, num fim de tarde com pouco ou quase nada para fazer. Entre um papo relativamente descontraído (e muito inusitado) em uma cafeteria e uma passada de olhos no jornal do dia vi que o filme começaria em quinze minutos. Não hesitei e me joguei na sessão. E se a proposta era um passatempo qualquer sem pretensão alguma, o filme se prestou perfeitamente.

O lado bom do filme é ser bem feito, bem amarrado e sintonizado ao que se propõe. Ele diz a que veio e cumpre satisfatoriamente. Resumidamente, ninguém se lembrará dele daqui a seis meses, mas é um filme honesto. É “levinho”, “divertidinho”, “bonitinho”. É um filme "inho". Mas confesso agora: em alguns momentos torci para que acontecesse o que aconteceu no desenrolar da trama. Adoro clichês, inclusive na vida real. Pena que do lado de cá da tela, nem sempre os finais são felizes. Por isso nos refugiamos da vida real nessas salas escuras, nem sempre confortáveis.





sábado, 30 de março de 2013

BATE OUTRA VEZ


Goni Montes - ilustração



Não foi a esperança em meu coração, como na música, que bateu outra vez. Pela fresta eu vi que era ela quem batia novamente à minha porta. Depois de tanto tempo, só não esqueci seu rosto porque ainda guardava um retrato seu na carteira. Essa imagem eu capturei no primeiro e único encontro que tivemos, até esse momento em que ela invadiu novamente minha vida sem ser convidada. Queria levar comigo uma lembrança dela, como se fosse uma parte de sua alma que me acompanhasse para sempre. Por isso roubei-lhe aquele segundo e congelei-o em minhas retinas com auxílio da minha Carl Zeiss. Como na música, fotografei-a com minha rolleiflex e revelou-se sua enorme ingratidão. Não foi assim romântico como cantado por Tom Jobim. Estava com minha máquina fotográfica, que não é rolleiflex e quando ela não percebia, registrei-a num momento de distração. Ela nem deve ter percebido. Ou se percebeu, para ela tanto fez.

Revelei em casa mesmo essa fotografia. Era como se precisasse dar à luz aquele ser que criei. E pensei que poderia ser meio mórbido ou bizarro, meio como aquele “hábito” pessoas tinham de fotografar seus mortos, lá no início da fotografia, por volta do século XIX. Para aquelas pessoas era, entre outros motivos, uma forma de negar a morte e guardar recordação de seus entes queridos. Acho que queria guardá-la comigo porque no fundo sabia que ela iria embora logo depois. E ela realmente foi. Fiz várias cópias da imagem, com vários tratamentos diferentes. Nunca confessei esse meu “segredinho” a ninguém porque temia ser considerado um psicopata. E tinha mais medo de ter que concordar com as pessoas que dissessem isso. Uma das cópias era grande, coloridíssima. Pensei em colocá-la numa moldura bonita e entregar a ela de presente. As outras eram todas menores. A menor é a que carregava na carteira. Em tamanho 5 cm x 7 cm. Mas ainda assim era possível ver seus olhos tristes e aquele quase sorriso. Ela nunca sorriu abertamente. Esboçava quase-sorrisos, meio de lado, espremendo os cantos da boca. Talvez tivesse medo de ser descoberta na alegria, talvez não se sentisse digna da felicidade. Talvez nem achasse graça mesmo das minhas piadas infames sobre banalidades. Ela sempre foi séria, sisuda, preocupada, reflexiva, corroída por dúvidas existenciais neuróticas. Não era austera (adoro esse termo), era simplesmente sem senso de humor, quem sabe. Meio ríspida, beirando a agressividade, às vezes. Simples assim: Ela era seca no limiar da grosseria. 

Mas essa foto que carrego na carteira era sua marca em minha memória. De tempos em tempos eu revisitava essa imagem e as lembranças irreais que criei dela, quando procurava trocados para pagar o estacionamento, ou um café, ou para comprar chicletes ou preservativos, de madrugada, em uma loja de conveniências 24h qualquer, num dos infindáveis e infrutíferos encontros fortuitos que tive para esquecer ausências e solidões. Ela inundava minha memória nessas horas como uma onda. E depois recuava novamente, fluída e evasiva, para o esquecimento. Quase sentia remorso por não tentar mais uma vez procurá-la, por não ligar ou não mandar uma mensagem qualquer, mesmo que lá no fundo eu soubesse que ela nunca atendeu aos meus chamados porque não estava interessada em mim como eu estava interessado em nós. Eu olhava a foto para não esquecer os detalhes do seu rosto: os olhos muito escuros, pequenos, meio juntos e levemente estrábicos, o nariz que te tão pequeno parecia impossível, a boca miúda, reta, de lábios finos, incompatível com o maxilar quadrado. Seus detalhes - tão pequenos - não eram propriamente um grande feito estético. Ela não era uma mulher de close up. Devia ser vista de longe e em conjunto. Na totalidade, inacessível e distante, ela era uma mulher interessante. 

Somente depois percebi que a foto em minha carteira era uma memória distorcida da realidade. Descobri isso quando ela bateu novamente à minha porta. As pessoas mudam, eu sempre soube, mas achei que ela não mudaria. Na verdade, eu não queria que ela mudasse. Ou melhor, eu queria que ela realmente fosse aquilo que eu imaginava dela, aquilo que eu queria que ela fosse. Claro que jamais confessaria que eu queria que ela fosse o que eu imaginava dela. Apenas queria que ela fosse, espontaneamente, tudo o que eu imaginava. E ela era outra. Talvez eu também tenha me tornado outro, quando vi que ela não era nada daquilo que eu criei. E nessas horas não há nada a fazer. Ninguém é vítima, ninguém é culpado. 

Meio atabalhoado, abri a porta. Naqueles olhos negros eu ainda via a mesma moça da fotografia. Ela chegou como uma mensagem cifrada, convidando-me para jantar, como se pouca coisa ou nada tivesse acontecido. E nada aconteceu mesmo. Somente meses de absoluto silêncio, telefonemas não atendidos e mensagens não respondidas. Eu não tinha nada a perder. E suspeitava que não tinha nada a ganhar também. Entretanto, nunca dei tratos à minha intuição. Sem hesitar, aceitei o convite. Ficou sob minha responsabilidade decidir a que lugar iríamos. Acho que ela fez isso por cordialidade. Talvez por preguiça. Talvez por desinteresse, o que era mais provável, depois percebi. Pensei em um lugar neutro, nem muito impessoal, nem intimista demais, com boa comida que agradasse a todos os paladares. Gosto de culinária sofisticada, exótica, mas gosto de comidas aconchegantes e familiares. Depois de muito ponderar decidi: uma cantina italiana, minha zona de conforto. Sou inseguro e pouco criativo. Dificilmente ela não gostaria desse tipo de cozinha e eu tinha a desconfortável sensação de não poder errar em nada, de forma alguma. 

Marcado o dia, o local e o horário, esperei que o momento chegasse. Nas horas que antecederam o encontro, fiquei um pouco ansioso. Nada demais. Procurei pela casa algo para fazer, a fim de aliviar a tensão pré-encontro. Procurei nas palavras de Jack Kerouac sobre a vida de Buda algo que distraísse minha mente. Servi uma dose dupla de whisky sem gelo, mais para dispersar a atenção da expectativa - que eu criara psicoticamente - com a sensação do líquido descendo rascante pela garganta do que o efeito relaxante do álcool. Coloquei uma música, um Chico Buarque melancólico cantando Olhos nos Olhos me ardendo por dentro mais que o whisky. Sentei-me próximo à janela, esperando o tempo passar, como se ela estivesse prestes a chegar. Claro que ela não chegaria. O combinado não foi esse. Quando acertamos os detalhes de nosso encontro, dispus-me a ir buscá-la em casa, em tom cavalheiresco. Ela não aceitou. Preferiu que nos encontrássemos no restaurante no horário marcado. Disse ainda que iria em seu carro, em tom contestador como se queimasse sutiã em praça pública. Embora não seja ecológico irmos sozinhos em dois carros, não insisti. Talvez fizesse parte de sua mise-en-scène fazer a linha independente. 

Cheguei dez minutos antes do horário marcado. Cabelo penteado, barba feita, encharcado de loção, camisa alinhada, sapatos perfeitamente lustrados. Robótico e detestando tudo em mim. Como no primeiro encontro eu esperei por ela dois chopps, achei que teria uma tolerância de alguns minutos. Talvez se eu chegasse antes pareceria que sou ansioso (e eu sou!). Então, resolvi estacionar e esperar no carro ela chegar, uma vez que ainda não tinha visto seu carro estacionado em frente ao restaurante. Liguei o rádio. Olhos nos Olhos novamente. Não muito apropriado, mas deixei a música mesmo assim, batucando no volante para dispensar a tensão, que a uma hora dessas me causava taquicardia e suores frios. Fiquei pensando sobre a situação que estava vivendo naquele exato momento. E no fundo eu queria ver como ela suportaria me ver tão feliz, como na música, mesmo que eu precisasse dissimular com uma felicidade de Prozac. 

Desci do carro e acendi um cigarro. Há tempos parei de fumar, mas ainda insisto em usá-lo como bengala de determinadas situações. Na primeira tragada funda que dei senti uma leve tontura. Então vi o quão ridículo estava sendo. Apaguei-o com a ponta do sapato de couro reluzente. Acho que nunca havia lustrado tão bem um par de sapatos. Decidi entrar, para poder escolher uma mesa razoável, em local estratégico, e beber algo, como já era costumeiro, enquanto esperava ela chegar. O restaurante era pequeno, acolhedor e estava lotado. Da porta dei uma olhada geral para me certificar que ela não estaria. Então a vejo acenando para mim. Eu estava atrasado. 

Cumprimentamo-nos formalmente. A formalidade típica de quem algum dia teve alguma intimidade. Éramos dois velhos conhecidos que não se viam há muito tempo, nada mais que isso. Desculpei-me pelo atraso, mas não disse que havia chegado há quase vinte minutos. Pedi uma bebida para acompanhá-la. O que aconteceu desse momento em diante foi uma sucessão de estranhamentos e equívocos que me causaram algo entre a estupefação e a decepção, tendendo mais à segunda. É como diz uma amiga minha, citando Mario Quintana: “A esperança é um urubu pintado de verde”.

Nossa conversa esteve longe de ser fluida. Se fosse transcrita, formaria no máximo quatro laudas de frases meio desconexas que davam a impressão de serem dois monólogos distantes e ecoados. Se esses diálogos transcritos fossem o roteiro um filme, resultariam em aproximadamente cinco minutos de filmagem. Um curta-metragem. Mas na prática era como se eu fosse protagonista de um longa-metragem experimental de dezesseis horas, rodado em uma única tomada, sem cortes. Ela contou-me sem entusiasmo de seus dias, de seu trabalho, das viagens que aparentemente tinha feito sozinha, dos desencontros e da falta de comunicação e contato mais próximo com as pessoas. Engraçado que ela reclamava das outras pessoas exatamente uma postura que ela estava tendo comigo até aquele momento. Enquanto ela falava, eu pensava em outras coisas. Queria saber o que existia por trás daquele discurso que ela fazia, onde ela estava naquilo tudo, onde, detrás daqueles olhos escuros e opacos, estava aquela mulher que criei. Onde ela queria chegar com aqueles pensamentos desencontrados e incompletos?

Localizado exatamente à minha frente havia um relógio enorme, decorado em ébano e cobre. Um pêndulo dourado imponente quase me hipnotizava durante os longos silêncios que pontuaram nossa conversa, quando eu não tinha coragem de olhar para ela porque temia que saltassem da minha boca que tudo estava sendo um grande erro e que eu iria embora. Perdia-me em pensamentos, enquanto olhava os detalhes entalhados do relógio. Eram flores, pássaros, folhas e umas formas que eu não identificara se eram cobras ou dragões porque para impressioná-la havia decidido deixar os óculos no console do carro (e pouco enxergo sem eles). 

Contei-lhe também sobre meus dias, sem muito entusiasmo, por mera formalidade e para romper o silêncio constrangedor que insistia em se instaurar entre nós. Além de não haver nada muito interessante a ser contato, não tinha muito interesse em dividir minha intimidade com aquela que a cada minuto que passava se tornava mais desconhecida. Tentei dar um ar mais interessante às banalidades de minha vida mediana, sem parecer que estava querendo enaltecer meus feitos, nem tampouco desmerecê-los. Acho que não consegui. Minha máscara sempre cai antes do fim do primeiro ato e acho que não sustentei o personagem. Sentia o suor escorrendo pelas minhas costas sufocadas numa camisa xadrez azul justa demais. Tinha vontade de tirar os sapatos, de desabotoar a camisa e afrouxar o cinto. Não que me sentisse tão confortável perto dela, pelo contrário, era ainda mais constrangedor estar vestindo uma camisa de força em frente à moça de rosto lavado, cabelos amarrados, sapatilhas de pano e camiseta branca em minha frente. Na chegada, quando escorreguei no ladrilho úmido do salão, brinquei que estava desacostumando a caminhar com sapatos porque só usava tênis e ela ainda se achou no direito de criticar meu esforço em arrumar-me com cuidado para encontrá-la. 

Lembro que em nosso primeiro encontro, o outro além desse, dividimos alegremente uma porção medíocre de iscas de carne com torradas num boteco qualquer, ao som de blues envolventes. Trocamos gentilezas acerca da última torrada, cristãmente partida ao meio. E rimos descontraidamente da jocosa porção servida, como rimos do chopp morno e do atendimento ruim. O que importava naquela hora era a companhia. 

De semelhante com o primeiro encontro, o segundo tinha a nossa incapacidade de nos envolvermos. Na verdade eu me envolvi depois do primeiro encontro, mas não foi recíproco. Ainda consegui manter meu equilíbrio, mesmo cortejando a insanidade. Nossa segunda noite terminaria como a primeira, talvez. Iríamos para minha casa, beberíamos um vinho ou algo assim, eu colocaria uma música, diminuiria a luz, nos aproximaríamos, eu finalmente poderia tirar os sapatos, que a essa altura pareciam instrumentos medievais de tortura, e dormiríamos juntos. Provavelmente haveria uma distância abissal entre nós. Trocaríamos carícias mornas, ela seria fria e eu mocho. No dia seguinte, recobraríamos a consciência, sentiríamos um constrangimento disfarçável, pularíamos o romântico café na cama e eu chamaria um táxi para que ela fosse embora da minha casa o mais rápido possível. Então, trocaria os lençóis, abriria todas as janelas e apagaria os vestígios dela em minha vida, sentindo algo entre solidão e repulsa. 

A cada cinco minutos eu olhava a hora que o relógio marcava. O tempo se arrastava torturantemente. Pensei em encurtar o encontro comendo mais rápido, pois assim poderia dizer que era hora de ir embora. Ainda estávamos no couvert e ela não parecia muito inclinada a pedir o prato principal. Acenei para que fizéssemos o pedido o mais breve possível, insinuando que estava famélico, quando na verdade estava até com uma leve indisposição. Até que pedíssemos a entrada, o prato principal, a sobremesa e o café já haveria passado a noite toda e enquanto isso eu imploraria para que a chave da minha cadeira elétrica fosse girada. 

Finalmente o primeiro prato chegou. Tratei de servi-la, gentilmente, e depois servi uma porção para mim. No fim, ela reclamou que eu havia comido a última bruschetta de mussarela de búfala tomate e manjericão, deixando somente a de presunto de Parma, que ela detesta enfaticamente. E tive uma revelação através daquela última bruschetta: Se com a entrada ela fez isso, o que restaria quando fosse servido o prato principal? Nessa altura, eu já havia desistido de pedir sobremesa, mesmo sabendo que aquele lugar servia uma torta tiramissu deliciosa. Não havia clima e isso estenderia demasiadamente o jantar. 

O problema naquela hora era a companhia. Foi então que vi que ela não existia. E que eu não existia para ela. E que a reclamação não era por causa da maldita bruschetta. Era eu o problema. Porém, aquele pãozinho torrado com queijo, azeite e ervas revelou minha absoluta miséria existencial. Depois que ela me tratou como um assassino de sonhos por haver maculado a última infame bruschetta, que ela achava-se no direito de reivindicar como sua, fiquei tão consternado e sem ação que tudo o que queria voltar para minha casa, vestir meu pijama e assistir a reprise de algum filme antigo na TV, protegido do mundo, protegido dela, protegido de mim mesmo. Nossas vidas, que se uniram através de uma torradinha com molho de maionese dividida em duas partes iguais, se afastaram derradeiramente por causa de uma fatia de pão italiano coberto com mussarela de búfala. A única lembrança que fica dela em mim é a certeza de, na próxima vez, lembrar de pedir porções individuais e escolher melhor minhas companhias.

segunda-feira, 18 de março de 2013

ISSO QUE SE CHAMA AMOR



Solidão, compaixão e dignidade: os ingredientes do amor de Haneke

Michael Haneke mexe com o que tenho de mais profundo. E não é uma sensação boa. Acho que é comparável a um exame invasivo, como uma endoscopia. Ou pior. É algo comparado a uma sessão pesada de análise. Daquelas que fazem a gente sair sem saber para que lado correr. Ele me deixa atabalhoado como um bom analista deixaria. Saio do cinema destroçado e grato, tal qual aquele bom analista que me manda embora da sessão sem saber se conseguirei caminhar até o elevador. Bons cineastas, assim como bons terapeutas, são aqueles que nos tiram de nossa zona de conforto. Obviamente que isso não é bom o tempo todo. A bem da verdade, quase nunca é. Principalmente porque me refugio do divã na poltrona do cinema. Às vezes prefiro ver filmes bonitinhos e levinhos, que me fazem ver o mundo mais colorido, da mesma forma que troco uma sessão de análise por uma boa conversa num boteco com meus queridos. Quem gosta de mexer em feridas profundas o tempo todo? Quem gosta de sentir constantemente um soco no estômago? Quem gosta de ver que o mundo (Nota: o nosso mundo interior) é meio feio, meio cinza?

Ele me chegou numa tarde cinzenta e fria de sábado, embora sendo março. (Nota: dia apropriado para um café fumegante e uma fatia generosa de torta com abundante calda de chocolate. Chocolate conforta em dias cinzentos). Desde o lançamento do filme eu esperava o momento certo de assisti-lo. Sabia da badalação que o cercava e vivia um misto de receio e indisposição em relação à obra. Confesso que não sei se esse dia foi o mais acertado. Achei o início do filme lento, arrastado, em vários momentos meu pensamento voou longe, tentei me acomodar melhor para vencer o sono e a dispersão. Queria parar na metade e ir tomar um cappuccino. Foi aí que vi que esse era o objetivo do diretor, como sempre. Assim como fujo de sessões pesadas de terapia, fujo de filmes que reviram minhas vísceras existenciais. Mesmo querendo sempre ser arrebatado e surpreendido por tudo e por todos, acho que comecei a assistir ao filme esperando ver algo mais “amoroso”, em sentido vulgar e corriqueiro mesmo. Fui surpreendido por uma visão da vida que me deixou, no fim da sessão, um tempo não contado olhando para o teto, tentando recobrar o fôlego e emergir. Estava esvaziado. Sentia-me como se minha vida toda e minha visão romântica do amor tivessem sido tomadas de assalto e eu tivesse recebido um choque elétrico nas pálpebras. Ver outras vidas (im?)possíveis - mesmo sendo pela janela que Haneke abriu - e ter contato com um outro olhar sobre o mundo (interior e exterior) é assim, tira a gente do eixo. E é aí que ele me pegou de jeito: gosto da obra do cineasta austríaco justamente por seu jeito amargo de mostrar um mundo duro. Ou da crueza como mostra um mundo amargo. Sem rodeios, sem ufanismos, sem eufemismos.

Por isso alerto: Haneke não é para Sessão da Tarde. A exemplo de outros filmes inquietantes, como Caché (2005) e A Professora de Piano (La Pianiste, 2001), Amor (Amour, 2012) não é uma obra que trata de questões como velhice, compaixão, solidão e companheirismo de forma complacente. Amour é um filme que fala sobre o que é o verdadeiro amor (quando há amor). Sobre os limites da vida a dois. Sobre o fim da vida. E embora seja um filme sombrio e arrastado, principalmente para os padrões hollywoodianos, foi o vencedor do Oscar de melhor filme em língua estrangeira, tendo sido indicado também para melhor filme, cenário, direção e atriz (Emmanuelle Riva). Amour venceu, ainda, a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os Cesares de melhor filme, ator, atriz e diretor.

A obra, escrita e dirigida por Haneke, é um tratado sobre a vida, sobre o lado amargo dela. E embora envolva sempre a sombra da morte, não é um filme que trata diretamente sobre o tema. Não é por acaso, penso, que a cena inicial mostra um cadáver em decomposição sendo encontrado pela polícia e toda a trama se desenrola em feedback. A trama gira em torno da vida cotidiana de um casal de idosos, Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), que vivem sozinhos em um amplo apartamento parisiense. A partir de um acidente vascular cerebral que paralisa um lado do corpo de Anne, vê-se a decrepitude dos protagonistas, o limite da devoção de Georges e a luta de ambos para manterem sua dignidade. O elenco ainda conta com a participação de Isabelle Huppert, como Eva, a filha do casal, que aparece em alguns momentos para lamentar e choramingar a situação da mãe.

Amour trata de maneira seca e dolorosa, pungente e compassiva, das formas que encontramos de sobreviver a nós mesmos e aos nossos desastres. É um filme que esmiúça dos sentimentos mais profundos e mais humanos como se trilhasse o curso das águas de um rio através de um leito repleto de pedras. É um filme que fala sobre como sobreviver quando chegamos ao limite inevitável. É impossível acompanhar Haneke nessa viagem e permanecer o mesmo. É impossível sair do cinema do jeito que entramos. Se você está pronto para embarcar nessa incursão, respire fundo, abra os olhos e experimente-se.


sexta-feira, 8 de março de 2013

PARA A PAGU QUE EXISTE EM CADA UM MANDO UM BEIJO



Hoje é dia de render homenagens. Pululam flores, mensagens, frases de efeito que enaltecem a condição feminina. O problema é que, para muitos(as?), é somente hoje. E eu queria apenas que isso não fosse necessário.


Hoje cedo fui interpelado por uma moça, uma conhecida, no elevador. Ela me perguntou o que eu faria para homenageá-la. Perguntou, à queima-roupa, o que eu daria de presente a ela. Não entendi. Era muito cedo e eu ainda estava sonolento, “operava por instrumentos”, sem óculos de sol, sem fone de ouvido e sem café preto na veia. Perguntei se era seu aniversário. E ela lascou que obviamente não, mas que hoje é o dia dela, porque é o Dia Internacional da Mulher. Não me contive e respondi: “Acho que eu mereço flores. Meu lado feminino clama por homenagens no dia de hoje. Graças a vocês, me tornei Pagu. Um beijo.” Se fosse possível comandar a trilha sonora do elevador naquela hora, eu colocaria, ao invés do tradicional Kenny G, Caetano cantando “Super-Homem (A Canção)”. Porque o que eu queria dizer a ela é justamente isso: Que minha porção mulher que até então se resguardara é a porção melhor que trago em mim agora.

Tenho certo ranço dessas datas que lembram as lutas das “minorias”. Dia internacional da mulher, Dia da Consciência Negra, Dia do Orgulho Gay, Dia do Índio. Acho tudo meio alegórico e quase folclórico. Compreendo que são movimentos que objetivam maior visibilidade e servem como um grito de grupos oprimidos, não necessariamente minoritários. Servem para criar um espaço de reflexão e crítica, para lembrarmos eventos violentos e dolorosos, para essas marcas que carregamos na memória não sejam apagadas e principalmente para que as situações do passado não se repitam. Porque todos temos lutas diárias, todos matamos um leão por dia para conquistarmos nosso espaço. Mas fico incomodado com essa necessidade feroz de bramir quem somos e a que viemos. Acho humilhante ter que me agregar aos meus pares e gritar em coro para ser respeitado pelo que sou. Acho doloroso ser considerado minoria. Acho triste ser oprimido por outra minoria mais forte que quer solapar minha condição, seja ela qual for.

Sei que tenho uma visão um tanto romântica e idealista da vida. Sei que é ilusão pensar que um dia nada disso será necessário. No meu mundo ideal, todo dia é dia de todo mundo. E a gente vive junto e a gente se dá bem, como cantaria Lulu Santos. Entretanto, no elevador hoje cedo, fui trazido à realidade pela moça que queria ser reconhecida em sua condição primordial. Tive vontade de perguntar: “Mas afinal, o que você fez para merecer esse presente que reivindica?” Mal sabe ela que eu a reconheço e a valorizo todos dias, não somente hoje. Ela não tem ideia do que as gerações anteriores à sua precisaram fazer, neste mesmo dia 08 de março, para que ela pudesse pedir presentes descuidadamente no elevador. Mal sabe essa pobre moça, que a data de hoje talvez não tenha despertado nela um sentimento de valorização de si mesma pelo que realmente é.

Se o mecanismo social é de pregar a igualdade, não é estabelecendo diferenças que seremos iguais. Saliento que não acho que devemos ser tratados como iguais, mas devemos ser respeitados em nossas idiossincrasias. Igualdade é tratar o semelhante como semelhante em suas particularidades e o dessemelhante como dessemelhante em suas peculiaridades. Mas semelhantes e dessemelhantes não são outra coisa senão o mesmo barro. Eu me construo, o outro me constrói, eu construo o outro, o outro constrói a si mesmo. Explico: Não sou mulher e objetivamente nunca serei. Mas bem no fundo, tem coisas femininas com as quais me identifico. E me torno mais mulher a cada dia. Aprendi a, femininamente, me sensibilizar com o é digno e me dessensibilizar com o que é descartável. As mulheres que lêem este texto agora, se lançarem um olhar apurado sobre si mesmas, tenho certeza que também identificarão traços masculinos. E nem por isso serão homens.


Não acredito, sinceramente, que valoriza e enaltece a condição feminina, castrada desde sempre, definirmos papéis. Não é porque somos mulheres que merecemos ser reverenciadas, tampouco porque somos homens que devemos reverenciar. Não é estabelecendo a diferença entre “coisas de mulher”, e “coisas de homens” que seremos tratados com o respeito que merecemos. Não nascemos homens ou mulheres, mas nos tornamos. E é por isso que hoje rendo homenagens a todas as mulheres que me fizeram ser um pouco mulher. Então, meninas, hoje é também meu dia. Vamos trocar flores?
 

sexta-feira, 1 de março de 2013

HOCUS POCUS: E UM AMOR NOVINHO SALTA DO CHAPÉU DE UM LOUCO!



“Antes de declarar sua preferência por alguém, espera-se que você venha a conhecê-la gradualmente e por meio de palavras; não devemos cair de amores (ou de tesão) à primeira vista.”
(Alain de Botton: “Como Pensar Mais Sobre Sexo”. Ed. Objetiva. Pág. 42)

Com a citação de Allain de Botton já começo este texto de forma um tanto amarga. Saliento, entretanto, que amargura pode ser boa. Vide um espesso, aromático e forte café preto. Cafés assim devem ser sorvidos com parcimônia, permitindo que seu sabor inunde cada papila. E sem açúcar. Adoçar um café de qualidade deveria ser crime passível de proibição perpétua de bebê-lo por profanar seu Santo Corpo Negro. Ou ainda a referência a um “bom veneno”, que como canta Nina Becker, “é amargo e os melhores vêm em pequenos frascos”. A amargura nos alerta sobre os perigos do mundo, objetivos ou não. Temos instintivamente a noção primitiva de que o que é amargo é nocivo e pode nos matar e o que é doce é benéfico e nos nutrirá. Diabéticos, porém, são o exemplo de que venenos podem ser doces também.

Não quero falar sobre amarguras. Na verdade quero sim. Mas vou falar das doces amarguras. Ou das doçuras amargas. Quero falar das doces e amargas ilusões que perdemos e nunca mais encontramos. E vagamos erráticos desde então, querendo recobrar nossa insanidade infantil e ingênua primordial. A busca de Parsifal pelo Santo Graal perde!

É confortável viver iludido. A gente vive melhor. As ilusões nos mantêm vivos e esperançosos. São elas que alicerçam as religiões, os casamentos, as instituições familiares e as sociedades corporativas. Sem ilusão, o mundo talvez fosse um caos completo. A vida que chamamos de real – mesmo sem saber se é porque não sabemos mais o que não é real – é mais dura. E mais amarga, obviamente. Por mais tentados a iludir-nos que vivamos, sempre sopra aquela voz no ouvido (esquizofrenia?) dizendo que não adianta fechar os olhos porque o sonho morreu. But I have a dream, embora meu sonho seja mais egoísta que o de Luther King.


Percebo, andando pelas ruas e principalmente pelos bares da vida, que as pessoas andam ávidas, cansadas e impacientes. Desejosas de algo que nem sabem o que é porque nunca viveram. Todos nós temos a ilusão midiática e mercantil de Amor, assim mesmo com letra maiúscula, e buscamos essa satisfação imediatamente. O Amor é algo intangível tratado como produto, é um bem que esperamos encontrar nas prateleiras de lojas de departamentos ou sites de compras (leia-se sites de relacionamentos). Não vemos o outro, vemos através dele nossa própria imagem refletida em suas pupilas. Bem Narciso. O outro não passa da possibilidade de ser o puzzle encaixado na lacuna que temos em nossas existências. Ele não precisa existir de verdade, basta não reclamar de ficar encaixado no espaço diminuto que destinado a ele, mesmo que ele seja um octógono enfiado em um triângulo. E isso é urgente. Tem que ser agora. Porque qualquer um pode ser potencialmente “o grande amor para a vida toda da semana”.


O “Grande amor” foi submetido à outra lógica nestes tempos difíceis para sonhadores. Antes era envolto em uma aura de perenidade e constância. E era uma quimera, convenhamos, mas isso é outro assunto. Agora, o amor eterno dura vinte e quatro horas e durante esse período é para sempre. Tudo é chama. Nada é imortal, portanto. Mas há a obrigatoriedade, velada e tácita, de ser infinito enquanto dure. Será uma maldição de Vinícius de Morais para as gerações futuras? Se comparado com o passado, amar hoje é menos ilusório. Mas gera muito mais frustração. Amor de fast food neurotiza o coração. E se o sujeito choramingar reclamando, tudo desmorona. Assim: CLIC! Libertamo-nos de amarras sociais e vivemos um amor tão livre, mas tão livre, que se tornou soberbo, arbitrário, intransigente e intolerante com tudo que é diferente de si. Egomaníacos, queremos um duplo de nós mesmos. Buscamos neuroticamente alguma coisa que nos falta. Queremos vestir uma calça tamanho 36 quando nossa cintura é 42. E tem que caber! Duela a quien duela. E tem que ser perfeito e incrível no espaço de um estalar de dedos. Ou somos todos condenados à escuridão e ao ostracismo eternos.

Sistematicamente, incautos vendedores de ilusões batem à porta oferecendo-nos, envoltas em tecidos brilhantes, promessas de felicidade eterna. Com elas chegam-nos certificados de satisfação garantida ou devolução de nosso tempo perdido. Eles aparecem meio Vanessa da Mata, cantando ao pé do ouvido: “Se você quiser eu vou te dar um amor desses de cinema”. Faz parte da mise-en-scène do canastrão caricato. E volta e meia caímos nessas teias. Por mais desconfiados e desencantados que estejamos, uma mentira almofadada bem vivida pode ser melhor que a realidade fria de mármore. Pelo menos precária e provisoriamente. Saída pela esquerda, Leão da Montanha. Bons encontros spinozianos são bem-vindos. Bons orgasmos freudianos - se que é existem - são necessários. Bons passatempos para dias chuvosos, para tardes sonolentas, para noites friorentas. Para ir ao cinema, para jantar fora vez ou outra. Para satisfazer necessidades físicas e psicológicas, objetivas e subjetivas. Não há mal algum na precariedade, desde que honesta.

Entretanto, até aquilo que é provisório, precário, ilusório e fronteiriço tem que ser maturado. Existe certo ritmo e determinado rito que lhe são próprios. Como um vinho precisa de tempo para chegar ao ponto ideal, uma boa refeição demanda de rituais e tempo precisos para ser apurada, uma relação fast também precisa. E não é porque é “fast relationship” que devemos quebrar todas as regras sociais (?) que dão sabor a ela. O fato é que, assim como para um bom apreciador de gastronomia macarrão instantâneo não tem vez, para um bom amante, amor instantâneo é miojo. Se café instantâneo não satisfaz o paladar de um bom barista, não vai ser uma paixão instantânea que vai satisfazer o coração. Contudo, a título de exercício livre da ludicidade, ser iludido conscientemente, tendo um olho a pestanejar e outro que agita, pode dar uma cor a dias nublados.


Ilusionista que se preze, engana-nos e aplaudimos, entusiasmados com o frio na barriga que sentimos. E parafraseando Caio F. Abreu, digo: que nem seja assim tão doce! Não importa. Desde que seja intenso sem medida certa, no tempo que for necessário, sem toque exato, mas que ainda assim seja um tiro certeiro. Doce ou amargo, tanto faz, mas autêntico e honesto. Que não seja febril e histérico, mas que seja lúcido. E que não queira nos fazer parecer um hambúrguer do McDonald’s no Drive Thru em dia de McLanche Feliz. 


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

SOBRE CINZAS


Fotografia de João Machado - Guarulhos- SP ( olhares.uol.com.br/joaomachadobahia)

É nas horas de vulnerabilidade que vemos nossa verdadeira face. A face feia de nossa finitude, de nossa incapacidade, de nossa impotência e de nossa limitação.

Tentei fugir de todas as formas deste assunto. Relutei o quanto pude me expor ao sofrimento de reviver minhas tristezas e meus desastres pessoais através da aproximação e do reconhecimento dos sofrimentos alheios. Tentei não mexer ainda mais numa ferida que, embora não marque minha carne propriamente, dói fundo em mim como se fosse minha.  Queria poder recobrar minhas forças em silêncio meditativo, porque acho que é o mais digno a ser feito numa hora de burburinho midiático quase histérico. Por respeito a mim e principalmente por respeito a todos os diretamente afetados. Tentei não expor ainda mais uma tragédia que ainda pulsa sangrenta em nossa memória, ampliada pela lente de minhas perdas pessoais. Não queria explorar de forma sensacionalista o sofrimento e a comoção de centenas de pessoas. Sofrimento que humildemente assumo meu neste momento.

Temia ser mais um a poluir as vidas das pessoas com relatos inflamados e empapuçados de sentimentos muito particulares. Mas não consigo deixar de falar sobre isso. Este é o assunto em todas as rodas de conversa pelas ruas, em todos os meios de comunicação, em todas as redes sociais. E o tema bate à porta da minha memória o tempo todo desde o último domingo.

Não evitei até agora falar exaustivamente sobre essas dores por covardia ou algo parecido. Nada disso. Evitei porque queria decantar minhas aflições afloradas. Porque estamos todos ainda sob efeito de intensas e recentes emoções. Porque todo mundo se sente um pouco vítima e um pouco sobrevivente, um pouco familiar de cada vítima neste momento.

Era para ser mais um domingo comum, hiperbolicamente ensolarado de Janeiro. Era para ser mais um domingo de bermudas e chinelos, de churrasco com a família, chimarrão com os amigos no calçadão, de choppinho no fim da tarde, de caminhada no parque. Era para ser um domingo de preguiça e ressaca da festa da noite anterior. Mas não foi assim que aconteceu. O domingo amanheceu com o céu manchado por nuvens negras de fumaça tóxica e um cheiro de desespero invadiu nossas casas. Um silêncio desolador pairou sobre todos nós. E esse silêncio era rasgado por sirenes frenéticas e choros desesperançados.

Fui solapado pelos telefonemas aflitos de amigos e familiares estupefatos. Minha preguiça dominical foi abruptamente rompida por uma enxurrada de informações na TV e na internet. Com a voz ainda em falsete de sono eu dizia, atabalhoado, que mal sabia o que estava acontecendo e que dormira tão profundamente que não atenderia facilmente qualquer telefonema antes das nove e meia da manhã. Parecia que La Doña Muerte havia entrado em meu quarto sem pedir licença e destruído para sempre a minha paz. Que direito ela tinha de me ceifar a tranquilidade de um domingo qualquer? Que direitos quem quer que fosse tinha de dilacerar milhares de corações, ceifar centenas de vidas, desconsolar famílias inteiras?

Esse domingo marcará injusta e violentamente nossas vidas, direta ou indiretamente, para sempre. Porque não existe forma de não nos afetarmos com o que aconteceu aqui, em nosso quintal, não importa se moramos em Santa Maria, Bogotá ou Tóquio. Nesse domingo, todos estávamos no mesmo lugar. Porque não dá para fechar os olhos para as lágrimas do vizinho, fechar os ouvidos para o choro ruidoso do amigo, do pai ou da mãe, negar a boca para uma palavra de consolo a um desconhecido devastado no meio-fio da calçada.

Tenho crenças religiosas fortes, mas não gosto de dar explicações religiosas para os fatos. Acho que Deus - quer você acredite Nele ou quer que Ele exista ou não - não tem nada a ver com isso. Não foi Ele quem condenou pessoas a morte. Nem o diabo, como muitos insistem ignorantemente em afirmar. Não foi Ele quem decidiu que haveria uma tragédia com mais de duzentas e trinta mortes. Não foi Ele quem decidiu “matear com a gurizada no céu”, como alguns dizem para amainar a dor na alma que não cessa. Não será Ele que vai consolar as vítimas, tampouco seus familiares. Entretanto, isso que digo não tem absolutamente nenhuma relação com falta de fé. Pelo contrário. Acredito firmemente que fé é fundamental. É nela que buscamos forças, é através dela que nos reconfortamos.

Compreendo que para muitos “Deus” é a representação de sua fé. E digo que tudo bem se acreditarem que “foi Deus que quis assim”. Cada um encontra sua forma particular de dar sentido ao seu mundo. Porém, ainda prefiro acreditar que Deus não “existe” para isso. A função dele em nossas vidas é outra. Mas gostaria de falar sobre o que entendo por fé e sobre a fé que vejo pelas ruas nestes dias estranhamente silenciosos. Uma fé fundamental para que continuemos existindo neste mundo de forma subjetiva, porque para existirmos de forma objetiva não precisamos de quase nada além de um pouco de água e alguma comida. A fé a que me refiro é uma fé pura e simples nos atributos de humanidade que os seres humanos - suspeito que nem todos - possuem. Uma fé que nos conforta quando enfrentamos duramente a realidade de não termos mais nossos queridos entre nós. É a fé mais humana e sincera no próximo e em nossa capacidade se superarmos a nós próprios. Não é uma fé metafísica, mística, mágica ou espiritual. É sim aquela fé na existência de alguém que estenda a mão quando estamos sofrendo, aquela fé que nos impele a oferecer um copo d’água, um ombro, um abraço, cinco minutos de nosso tempo escasso para ouvir em silêncio o outro chorar. É a fé naquelas pessoas que arriscaram suas próprias vidas para salvar as vidas de desconhecidos. É a fé no amparo fraterno, no acolhimento sincero, na solidariedade sem qualquer retorno ou recompensa.

Acalma meu coração ver a união das pessoas nesses momentos de sofrimento. Vi diversas manifestações de solidariedade e de humanidade, em meio a tanta violência e atrocidade, em meio a tanta negligência e omissão. Porque é nessas horas de vulnerabilidade que vemos nossa verdadeira face. A face feia de nossa finitude, de nossa incapacidade, de nossa impotência e de nossa limitação. É quando o outro sofre que vemos nossa própria imagem refletida. E muitas vezes é nossa pior face. Vendo o sofrimento alheio, nos deparamos com os nossos e vemos que também podemos sofrer tanto quanto o outro ou mais.

É quando sofremos extremamente, e achamos que não vamos ter forças para superar a dor incrustada em nossos corações, que emerge nossa verdadeira essência humana. Mostramo-nos mais verdadeiros quando emergimos de nossos escombros. Não tal qual Fênix, a deusa pássaro da mitologia grega que morria e renascia de suas próprias cinzas, porque não renascemos. Apenas continuamos vivos, com todas as cicatrizes que nos competem. E de uma forma ou de outra, seguimos em frente. E que bom que às vezes surgem outros seres que nos estendem a mão para que juntos sobrevivamos aos nossos desastres. 

Montagem com Fotografias de João Machado - Guarulhos- SP ( olhares.uol.com.br/joaomachadobahia

sábado, 5 de janeiro de 2013

O PALHAÇO MAIS TRISTE DO MUNDO



 Andrew Salgado, “If One Man’s Joy is Another Man’s Sadness” (2012). Courtesy Beers.Lambert


“Voltei pra me certificar
Que nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar”
(Bastidores – Chico Buarque)



Tu sabes como é quando ficamos exauridos? É, exauri. Por isso estou aqui, olhando minha cara no espelho mais uma vez. Esfrego um lenço úmido para tirar a maquiagem, mas ela não sai, apenas desenha manchas disformes e coloridas em minhas faces sem expressão alguma. Minha cara é um grande borrão agora. Todas as cores misturadas, sem qualquer lógica, mas com todo sentido. Somente agora vejo que o verdadeiro sentido de minha existência está expresso nesses borrões que desenhei querendo apagar minha própria história de palhaço tatuada para sempre em mim.

Na verdade não vejo sentido no que tenho sentido. E nem sei se deveria ter algum sentido. Talvez não haja sentido no que não é sentido. Ou talvez todo sentido da vida esteja em analisa-la sem procurar sentido. O que eu estou dizendo agora? Deveria suspender o gim. Não! Somente ele me compreende. Por isso ergo o gim! Um brinde, respeitável público! Um brinde ao mais infeliz de todos os palhaços! Não estou referindo-me a ti. Tampouco falo contigo. Estou falando sobre este palhaço besta que vejo no espelho agora. Sim, sou eu mesmo. São para mim os aplausos. São para ti as lágrimas que luto para não derramar cada vez que te vais. Pode ser para nós o brinde? Não, nunca poderá. O brinde é também todo meu.

Tranquei a porta do camarim, fechei as janelas e chorei, chorei, até ficar com dó de mim*. Quero que os aplausos cessem. Quero que as vozes cessem. Quero que as palavras cessem. Quero que os ruídos, interiores e exteriores, silenciem. Existem muitos ruídos aqui dentro de mim. Desejei (e como desejei!) ter junto a ti silêncios povoados de significados indizíveis, aqueles momentos em que os silêncios seriam maculados por palavras. Ficaríamos quietos em nós mesmos e um no outro, enquanto veríamos o tempo rasgar vagarosamente nossas vidas, delegando ao justo esquecimento nossos passados.

Mas silêncios são complexos. Para distinguirmos os férteis dos inférteis é necessário que conheçamos ao outro intimamente. Quanto a nós, nunca chegamos a nos conhecer. Como diz a música, “existe um preconceito muito forte separando você de mim**. Mas não me vitimizo. A culpa foi minha também. Nunca consegui ultrapassar o abismo dos teus olhos esverdeados e brilhantes. Da mesma forma, nunca compreendeste o que calou minha boca seca.

Não esperei grandes demonstrações tuas. Queria as “minimalezas”, as sutilezas, as gentilezas e as cotidianidades. Queria anoitecer e amanhecer contigo. E quando anoitecesse, queria apenas garantias de que amanheceríamos juntos. Queria que tivesses para onde voltar das tuas longas jornadas. Queria a certeza de que eu poderia ir e teria um porto para atracar quando voltasse. Mas sempre voltei para a casa vazia e para a cama fria.

O que precisei a vida toda - e nunca tive de ti - é presença. Nunca foi companhia o que te pedi em todos os momentos de mendicância extrema e indigna. Tampouco me satisfaziam os presentes raros que trazias de além-mar. Tu saías antes do sol nascer porque o cais é apenas uma parada provisória. E deixavas tuas migalhas sobre o criado-mudo esperando calar-me. Quanto a mim, navegar não é preciso. Viver é preciso. Mas exigir isso de ti é muito, não é mesmo? Teu espírito é elevado demais para satisfazer meus desejos tão primitivos e egomaníacos.

Disparatado da minha parte desejar que me quisesses quando estavas aqui olhando-me nos olhos, como dizias querer-me nas cartas, escritas com caligrafia impecável, que mandavas dos portos onde chegavas. Tuas cartas tinham o cheiro dos lugares por onde passavas e se eu inspirasse profundamente o papel conseguia sentir o cheiro acre das tuas mãos hábeis em iludir-me. Sabes, teve um tempo no qual eu seria capaz de identificar de onde o sujeito vinha pelo cheiro de sua bagagem. Os lugares tem cheiros característicos. Este lugar, por exemplo, cheira a mofo. Este é o seu cheiro, por mais que limpem e perfumem com flores, essências e incensos. E a casa que eu queria que fosse nossa cheira a morte, principalmente agora.

Soou a primeira campainha, preciso terminar de vestir-me. Mas não é isso que queria dizer. Minha teoria é que as cidades têm cheiros característicos e que eu consigo identificá-los porque sempre fui um andarilho atento. Pretensão minha? Talvez. Assim como foi pretensão minha achar que serias capaz de transformar nossas vidas ou que eu seria capaz de manter-te junto a mim por vontade tua. Assim como sou um astuto em identificar aromas, sou persuasivo para satisfazer minhas vontades. Eu quis que ficasses porque cansei de ser um cavaleiro andante. Talvez agora tenha conseguido fazer-te permanecer, não? Mas agora não quero que fiques. Acho que teu lugar é o mundo, tua casa são os sete mares. Por isso quero despedir-me definitiva e dignamente de ti.

Defendo-me de ti mostrando-me a ti. Soou a segunda campainha. Hora de entrar no palco mais uma vez. Preciso da peruca colorida, do meu nariz e do sorriso falso. É triste ser reduzido a um personagem, porém esses elementos são minha marca e jamais serei alguém sem eles. Agora eu sou o personagem, a máscara grudou definitivamente em minha cara e devo aceitá-la. Logo precisarei retornar ao que chamamos precariamente de lar para encontrar-te, meu querido. Preciso limpar as marcas do nosso último encontro, recolher os cacos espalhados pelos cantos, arejar e incensar todos os cômodos para as boas energias entrarem, dar-te um beijo de despedida na testa e após carregar até o porto a arca onde o teu corpo que um dia quis meu e jogá-la ao mar.


* Trecho da música Bastidores – Chico Buarque de Holanda
** Trecho da música Preconceiro – Antonio Maria e Fernando Lobo