sábado, 30 de março de 2013

BATE OUTRA VEZ


Goni Montes - ilustração



Não foi a esperança em meu coração, como na música, que bateu outra vez. Pela fresta eu vi que era ela quem batia novamente à minha porta. Depois de tanto tempo, só não esqueci seu rosto porque ainda guardava um retrato seu na carteira. Essa imagem eu capturei no primeiro e único encontro que tivemos, até esse momento em que ela invadiu novamente minha vida sem ser convidada. Queria levar comigo uma lembrança dela, como se fosse uma parte de sua alma que me acompanhasse para sempre. Por isso roubei-lhe aquele segundo e congelei-o em minhas retinas com auxílio da minha Carl Zeiss. Como na música, fotografei-a com minha rolleiflex e revelou-se sua enorme ingratidão. Não foi assim romântico como cantado por Tom Jobim. Estava com minha máquina fotográfica, que não é rolleiflex e quando ela não percebia, registrei-a num momento de distração. Ela nem deve ter percebido. Ou se percebeu, para ela tanto fez.

Revelei em casa mesmo essa fotografia. Era como se precisasse dar à luz aquele ser que criei. E pensei que poderia ser meio mórbido ou bizarro, meio como aquele “hábito” pessoas tinham de fotografar seus mortos, lá no início da fotografia, por volta do século XIX. Para aquelas pessoas era, entre outros motivos, uma forma de negar a morte e guardar recordação de seus entes queridos. Acho que queria guardá-la comigo porque no fundo sabia que ela iria embora logo depois. E ela realmente foi. Fiz várias cópias da imagem, com vários tratamentos diferentes. Nunca confessei esse meu “segredinho” a ninguém porque temia ser considerado um psicopata. E tinha mais medo de ter que concordar com as pessoas que dissessem isso. Uma das cópias era grande, coloridíssima. Pensei em colocá-la numa moldura bonita e entregar a ela de presente. As outras eram todas menores. A menor é a que carregava na carteira. Em tamanho 5 cm x 7 cm. Mas ainda assim era possível ver seus olhos tristes e aquele quase sorriso. Ela nunca sorriu abertamente. Esboçava quase-sorrisos, meio de lado, espremendo os cantos da boca. Talvez tivesse medo de ser descoberta na alegria, talvez não se sentisse digna da felicidade. Talvez nem achasse graça mesmo das minhas piadas infames sobre banalidades. Ela sempre foi séria, sisuda, preocupada, reflexiva, corroída por dúvidas existenciais neuróticas. Não era austera (adoro esse termo), era simplesmente sem senso de humor, quem sabe. Meio ríspida, beirando a agressividade, às vezes. Simples assim: Ela era seca no limiar da grosseria. 

Mas essa foto que carrego na carteira era sua marca em minha memória. De tempos em tempos eu revisitava essa imagem e as lembranças irreais que criei dela, quando procurava trocados para pagar o estacionamento, ou um café, ou para comprar chicletes ou preservativos, de madrugada, em uma loja de conveniências 24h qualquer, num dos infindáveis e infrutíferos encontros fortuitos que tive para esquecer ausências e solidões. Ela inundava minha memória nessas horas como uma onda. E depois recuava novamente, fluída e evasiva, para o esquecimento. Quase sentia remorso por não tentar mais uma vez procurá-la, por não ligar ou não mandar uma mensagem qualquer, mesmo que lá no fundo eu soubesse que ela nunca atendeu aos meus chamados porque não estava interessada em mim como eu estava interessado em nós. Eu olhava a foto para não esquecer os detalhes do seu rosto: os olhos muito escuros, pequenos, meio juntos e levemente estrábicos, o nariz que te tão pequeno parecia impossível, a boca miúda, reta, de lábios finos, incompatível com o maxilar quadrado. Seus detalhes - tão pequenos - não eram propriamente um grande feito estético. Ela não era uma mulher de close up. Devia ser vista de longe e em conjunto. Na totalidade, inacessível e distante, ela era uma mulher interessante. 

Somente depois percebi que a foto em minha carteira era uma memória distorcida da realidade. Descobri isso quando ela bateu novamente à minha porta. As pessoas mudam, eu sempre soube, mas achei que ela não mudaria. Na verdade, eu não queria que ela mudasse. Ou melhor, eu queria que ela realmente fosse aquilo que eu imaginava dela, aquilo que eu queria que ela fosse. Claro que jamais confessaria que eu queria que ela fosse o que eu imaginava dela. Apenas queria que ela fosse, espontaneamente, tudo o que eu imaginava. E ela era outra. Talvez eu também tenha me tornado outro, quando vi que ela não era nada daquilo que eu criei. E nessas horas não há nada a fazer. Ninguém é vítima, ninguém é culpado. 

Meio atabalhoado, abri a porta. Naqueles olhos negros eu ainda via a mesma moça da fotografia. Ela chegou como uma mensagem cifrada, convidando-me para jantar, como se pouca coisa ou nada tivesse acontecido. E nada aconteceu mesmo. Somente meses de absoluto silêncio, telefonemas não atendidos e mensagens não respondidas. Eu não tinha nada a perder. E suspeitava que não tinha nada a ganhar também. Entretanto, nunca dei tratos à minha intuição. Sem hesitar, aceitei o convite. Ficou sob minha responsabilidade decidir a que lugar iríamos. Acho que ela fez isso por cordialidade. Talvez por preguiça. Talvez por desinteresse, o que era mais provável, depois percebi. Pensei em um lugar neutro, nem muito impessoal, nem intimista demais, com boa comida que agradasse a todos os paladares. Gosto de culinária sofisticada, exótica, mas gosto de comidas aconchegantes e familiares. Depois de muito ponderar decidi: uma cantina italiana, minha zona de conforto. Sou inseguro e pouco criativo. Dificilmente ela não gostaria desse tipo de cozinha e eu tinha a desconfortável sensação de não poder errar em nada, de forma alguma. 

Marcado o dia, o local e o horário, esperei que o momento chegasse. Nas horas que antecederam o encontro, fiquei um pouco ansioso. Nada demais. Procurei pela casa algo para fazer, a fim de aliviar a tensão pré-encontro. Procurei nas palavras de Jack Kerouac sobre a vida de Buda algo que distraísse minha mente. Servi uma dose dupla de whisky sem gelo, mais para dispersar a atenção da expectativa - que eu criara psicoticamente - com a sensação do líquido descendo rascante pela garganta do que o efeito relaxante do álcool. Coloquei uma música, um Chico Buarque melancólico cantando Olhos nos Olhos me ardendo por dentro mais que o whisky. Sentei-me próximo à janela, esperando o tempo passar, como se ela estivesse prestes a chegar. Claro que ela não chegaria. O combinado não foi esse. Quando acertamos os detalhes de nosso encontro, dispus-me a ir buscá-la em casa, em tom cavalheiresco. Ela não aceitou. Preferiu que nos encontrássemos no restaurante no horário marcado. Disse ainda que iria em seu carro, em tom contestador como se queimasse sutiã em praça pública. Embora não seja ecológico irmos sozinhos em dois carros, não insisti. Talvez fizesse parte de sua mise-en-scène fazer a linha independente. 

Cheguei dez minutos antes do horário marcado. Cabelo penteado, barba feita, encharcado de loção, camisa alinhada, sapatos perfeitamente lustrados. Robótico e detestando tudo em mim. Como no primeiro encontro eu esperei por ela dois chopps, achei que teria uma tolerância de alguns minutos. Talvez se eu chegasse antes pareceria que sou ansioso (e eu sou!). Então, resolvi estacionar e esperar no carro ela chegar, uma vez que ainda não tinha visto seu carro estacionado em frente ao restaurante. Liguei o rádio. Olhos nos Olhos novamente. Não muito apropriado, mas deixei a música mesmo assim, batucando no volante para dispensar a tensão, que a uma hora dessas me causava taquicardia e suores frios. Fiquei pensando sobre a situação que estava vivendo naquele exato momento. E no fundo eu queria ver como ela suportaria me ver tão feliz, como na música, mesmo que eu precisasse dissimular com uma felicidade de Prozac. 

Desci do carro e acendi um cigarro. Há tempos parei de fumar, mas ainda insisto em usá-lo como bengala de determinadas situações. Na primeira tragada funda que dei senti uma leve tontura. Então vi o quão ridículo estava sendo. Apaguei-o com a ponta do sapato de couro reluzente. Acho que nunca havia lustrado tão bem um par de sapatos. Decidi entrar, para poder escolher uma mesa razoável, em local estratégico, e beber algo, como já era costumeiro, enquanto esperava ela chegar. O restaurante era pequeno, acolhedor e estava lotado. Da porta dei uma olhada geral para me certificar que ela não estaria. Então a vejo acenando para mim. Eu estava atrasado. 

Cumprimentamo-nos formalmente. A formalidade típica de quem algum dia teve alguma intimidade. Éramos dois velhos conhecidos que não se viam há muito tempo, nada mais que isso. Desculpei-me pelo atraso, mas não disse que havia chegado há quase vinte minutos. Pedi uma bebida para acompanhá-la. O que aconteceu desse momento em diante foi uma sucessão de estranhamentos e equívocos que me causaram algo entre a estupefação e a decepção, tendendo mais à segunda. É como diz uma amiga minha, citando Mario Quintana: “A esperança é um urubu pintado de verde”.

Nossa conversa esteve longe de ser fluida. Se fosse transcrita, formaria no máximo quatro laudas de frases meio desconexas que davam a impressão de serem dois monólogos distantes e ecoados. Se esses diálogos transcritos fossem o roteiro um filme, resultariam em aproximadamente cinco minutos de filmagem. Um curta-metragem. Mas na prática era como se eu fosse protagonista de um longa-metragem experimental de dezesseis horas, rodado em uma única tomada, sem cortes. Ela contou-me sem entusiasmo de seus dias, de seu trabalho, das viagens que aparentemente tinha feito sozinha, dos desencontros e da falta de comunicação e contato mais próximo com as pessoas. Engraçado que ela reclamava das outras pessoas exatamente uma postura que ela estava tendo comigo até aquele momento. Enquanto ela falava, eu pensava em outras coisas. Queria saber o que existia por trás daquele discurso que ela fazia, onde ela estava naquilo tudo, onde, detrás daqueles olhos escuros e opacos, estava aquela mulher que criei. Onde ela queria chegar com aqueles pensamentos desencontrados e incompletos?

Localizado exatamente à minha frente havia um relógio enorme, decorado em ébano e cobre. Um pêndulo dourado imponente quase me hipnotizava durante os longos silêncios que pontuaram nossa conversa, quando eu não tinha coragem de olhar para ela porque temia que saltassem da minha boca que tudo estava sendo um grande erro e que eu iria embora. Perdia-me em pensamentos, enquanto olhava os detalhes entalhados do relógio. Eram flores, pássaros, folhas e umas formas que eu não identificara se eram cobras ou dragões porque para impressioná-la havia decidido deixar os óculos no console do carro (e pouco enxergo sem eles). 

Contei-lhe também sobre meus dias, sem muito entusiasmo, por mera formalidade e para romper o silêncio constrangedor que insistia em se instaurar entre nós. Além de não haver nada muito interessante a ser contato, não tinha muito interesse em dividir minha intimidade com aquela que a cada minuto que passava se tornava mais desconhecida. Tentei dar um ar mais interessante às banalidades de minha vida mediana, sem parecer que estava querendo enaltecer meus feitos, nem tampouco desmerecê-los. Acho que não consegui. Minha máscara sempre cai antes do fim do primeiro ato e acho que não sustentei o personagem. Sentia o suor escorrendo pelas minhas costas sufocadas numa camisa xadrez azul justa demais. Tinha vontade de tirar os sapatos, de desabotoar a camisa e afrouxar o cinto. Não que me sentisse tão confortável perto dela, pelo contrário, era ainda mais constrangedor estar vestindo uma camisa de força em frente à moça de rosto lavado, cabelos amarrados, sapatilhas de pano e camiseta branca em minha frente. Na chegada, quando escorreguei no ladrilho úmido do salão, brinquei que estava desacostumando a caminhar com sapatos porque só usava tênis e ela ainda se achou no direito de criticar meu esforço em arrumar-me com cuidado para encontrá-la. 

Lembro que em nosso primeiro encontro, o outro além desse, dividimos alegremente uma porção medíocre de iscas de carne com torradas num boteco qualquer, ao som de blues envolventes. Trocamos gentilezas acerca da última torrada, cristãmente partida ao meio. E rimos descontraidamente da jocosa porção servida, como rimos do chopp morno e do atendimento ruim. O que importava naquela hora era a companhia. 

De semelhante com o primeiro encontro, o segundo tinha a nossa incapacidade de nos envolvermos. Na verdade eu me envolvi depois do primeiro encontro, mas não foi recíproco. Ainda consegui manter meu equilíbrio, mesmo cortejando a insanidade. Nossa segunda noite terminaria como a primeira, talvez. Iríamos para minha casa, beberíamos um vinho ou algo assim, eu colocaria uma música, diminuiria a luz, nos aproximaríamos, eu finalmente poderia tirar os sapatos, que a essa altura pareciam instrumentos medievais de tortura, e dormiríamos juntos. Provavelmente haveria uma distância abissal entre nós. Trocaríamos carícias mornas, ela seria fria e eu mocho. No dia seguinte, recobraríamos a consciência, sentiríamos um constrangimento disfarçável, pularíamos o romântico café na cama e eu chamaria um táxi para que ela fosse embora da minha casa o mais rápido possível. Então, trocaria os lençóis, abriria todas as janelas e apagaria os vestígios dela em minha vida, sentindo algo entre solidão e repulsa. 

A cada cinco minutos eu olhava a hora que o relógio marcava. O tempo se arrastava torturantemente. Pensei em encurtar o encontro comendo mais rápido, pois assim poderia dizer que era hora de ir embora. Ainda estávamos no couvert e ela não parecia muito inclinada a pedir o prato principal. Acenei para que fizéssemos o pedido o mais breve possível, insinuando que estava famélico, quando na verdade estava até com uma leve indisposição. Até que pedíssemos a entrada, o prato principal, a sobremesa e o café já haveria passado a noite toda e enquanto isso eu imploraria para que a chave da minha cadeira elétrica fosse girada. 

Finalmente o primeiro prato chegou. Tratei de servi-la, gentilmente, e depois servi uma porção para mim. No fim, ela reclamou que eu havia comido a última bruschetta de mussarela de búfala tomate e manjericão, deixando somente a de presunto de Parma, que ela detesta enfaticamente. E tive uma revelação através daquela última bruschetta: Se com a entrada ela fez isso, o que restaria quando fosse servido o prato principal? Nessa altura, eu já havia desistido de pedir sobremesa, mesmo sabendo que aquele lugar servia uma torta tiramissu deliciosa. Não havia clima e isso estenderia demasiadamente o jantar. 

O problema naquela hora era a companhia. Foi então que vi que ela não existia. E que eu não existia para ela. E que a reclamação não era por causa da maldita bruschetta. Era eu o problema. Porém, aquele pãozinho torrado com queijo, azeite e ervas revelou minha absoluta miséria existencial. Depois que ela me tratou como um assassino de sonhos por haver maculado a última infame bruschetta, que ela achava-se no direito de reivindicar como sua, fiquei tão consternado e sem ação que tudo o que queria voltar para minha casa, vestir meu pijama e assistir a reprise de algum filme antigo na TV, protegido do mundo, protegido dela, protegido de mim mesmo. Nossas vidas, que se uniram através de uma torradinha com molho de maionese dividida em duas partes iguais, se afastaram derradeiramente por causa de uma fatia de pão italiano coberto com mussarela de búfala. A única lembrança que fica dela em mim é a certeza de, na próxima vez, lembrar de pedir porções individuais e escolher melhor minhas companhias.

segunda-feira, 18 de março de 2013

ISSO QUE SE CHAMA AMOR



Solidão, compaixão e dignidade: os ingredientes do amor de Haneke

Michael Haneke mexe com o que tenho de mais profundo. E não é uma sensação boa. Acho que é comparável a um exame invasivo, como uma endoscopia. Ou pior. É algo comparado a uma sessão pesada de análise. Daquelas que fazem a gente sair sem saber para que lado correr. Ele me deixa atabalhoado como um bom analista deixaria. Saio do cinema destroçado e grato, tal qual aquele bom analista que me manda embora da sessão sem saber se conseguirei caminhar até o elevador. Bons cineastas, assim como bons terapeutas, são aqueles que nos tiram de nossa zona de conforto. Obviamente que isso não é bom o tempo todo. A bem da verdade, quase nunca é. Principalmente porque me refugio do divã na poltrona do cinema. Às vezes prefiro ver filmes bonitinhos e levinhos, que me fazem ver o mundo mais colorido, da mesma forma que troco uma sessão de análise por uma boa conversa num boteco com meus queridos. Quem gosta de mexer em feridas profundas o tempo todo? Quem gosta de sentir constantemente um soco no estômago? Quem gosta de ver que o mundo (Nota: o nosso mundo interior) é meio feio, meio cinza?

Ele me chegou numa tarde cinzenta e fria de sábado, embora sendo março. (Nota: dia apropriado para um café fumegante e uma fatia generosa de torta com abundante calda de chocolate. Chocolate conforta em dias cinzentos). Desde o lançamento do filme eu esperava o momento certo de assisti-lo. Sabia da badalação que o cercava e vivia um misto de receio e indisposição em relação à obra. Confesso que não sei se esse dia foi o mais acertado. Achei o início do filme lento, arrastado, em vários momentos meu pensamento voou longe, tentei me acomodar melhor para vencer o sono e a dispersão. Queria parar na metade e ir tomar um cappuccino. Foi aí que vi que esse era o objetivo do diretor, como sempre. Assim como fujo de sessões pesadas de terapia, fujo de filmes que reviram minhas vísceras existenciais. Mesmo querendo sempre ser arrebatado e surpreendido por tudo e por todos, acho que comecei a assistir ao filme esperando ver algo mais “amoroso”, em sentido vulgar e corriqueiro mesmo. Fui surpreendido por uma visão da vida que me deixou, no fim da sessão, um tempo não contado olhando para o teto, tentando recobrar o fôlego e emergir. Estava esvaziado. Sentia-me como se minha vida toda e minha visão romântica do amor tivessem sido tomadas de assalto e eu tivesse recebido um choque elétrico nas pálpebras. Ver outras vidas (im?)possíveis - mesmo sendo pela janela que Haneke abriu - e ter contato com um outro olhar sobre o mundo (interior e exterior) é assim, tira a gente do eixo. E é aí que ele me pegou de jeito: gosto da obra do cineasta austríaco justamente por seu jeito amargo de mostrar um mundo duro. Ou da crueza como mostra um mundo amargo. Sem rodeios, sem ufanismos, sem eufemismos.

Por isso alerto: Haneke não é para Sessão da Tarde. A exemplo de outros filmes inquietantes, como Caché (2005) e A Professora de Piano (La Pianiste, 2001), Amor (Amour, 2012) não é uma obra que trata de questões como velhice, compaixão, solidão e companheirismo de forma complacente. Amour é um filme que fala sobre o que é o verdadeiro amor (quando há amor). Sobre os limites da vida a dois. Sobre o fim da vida. E embora seja um filme sombrio e arrastado, principalmente para os padrões hollywoodianos, foi o vencedor do Oscar de melhor filme em língua estrangeira, tendo sido indicado também para melhor filme, cenário, direção e atriz (Emmanuelle Riva). Amour venceu, ainda, a Palma de Ouro no Festival de Cannes e os Cesares de melhor filme, ator, atriz e diretor.

A obra, escrita e dirigida por Haneke, é um tratado sobre a vida, sobre o lado amargo dela. E embora envolva sempre a sombra da morte, não é um filme que trata diretamente sobre o tema. Não é por acaso, penso, que a cena inicial mostra um cadáver em decomposição sendo encontrado pela polícia e toda a trama se desenrola em feedback. A trama gira em torno da vida cotidiana de um casal de idosos, Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), que vivem sozinhos em um amplo apartamento parisiense. A partir de um acidente vascular cerebral que paralisa um lado do corpo de Anne, vê-se a decrepitude dos protagonistas, o limite da devoção de Georges e a luta de ambos para manterem sua dignidade. O elenco ainda conta com a participação de Isabelle Huppert, como Eva, a filha do casal, que aparece em alguns momentos para lamentar e choramingar a situação da mãe.

Amour trata de maneira seca e dolorosa, pungente e compassiva, das formas que encontramos de sobreviver a nós mesmos e aos nossos desastres. É um filme que esmiúça dos sentimentos mais profundos e mais humanos como se trilhasse o curso das águas de um rio através de um leito repleto de pedras. É um filme que fala sobre como sobreviver quando chegamos ao limite inevitável. É impossível acompanhar Haneke nessa viagem e permanecer o mesmo. É impossível sair do cinema do jeito que entramos. Se você está pronto para embarcar nessa incursão, respire fundo, abra os olhos e experimente-se.


sexta-feira, 8 de março de 2013

PARA A PAGU QUE EXISTE EM CADA UM MANDO UM BEIJO



Hoje é dia de render homenagens. Pululam flores, mensagens, frases de efeito que enaltecem a condição feminina. O problema é que, para muitos(as?), é somente hoje. E eu queria apenas que isso não fosse necessário.


Hoje cedo fui interpelado por uma moça, uma conhecida, no elevador. Ela me perguntou o que eu faria para homenageá-la. Perguntou, à queima-roupa, o que eu daria de presente a ela. Não entendi. Era muito cedo e eu ainda estava sonolento, “operava por instrumentos”, sem óculos de sol, sem fone de ouvido e sem café preto na veia. Perguntei se era seu aniversário. E ela lascou que obviamente não, mas que hoje é o dia dela, porque é o Dia Internacional da Mulher. Não me contive e respondi: “Acho que eu mereço flores. Meu lado feminino clama por homenagens no dia de hoje. Graças a vocês, me tornei Pagu. Um beijo.” Se fosse possível comandar a trilha sonora do elevador naquela hora, eu colocaria, ao invés do tradicional Kenny G, Caetano cantando “Super-Homem (A Canção)”. Porque o que eu queria dizer a ela é justamente isso: Que minha porção mulher que até então se resguardara é a porção melhor que trago em mim agora.

Tenho certo ranço dessas datas que lembram as lutas das “minorias”. Dia internacional da mulher, Dia da Consciência Negra, Dia do Orgulho Gay, Dia do Índio. Acho tudo meio alegórico e quase folclórico. Compreendo que são movimentos que objetivam maior visibilidade e servem como um grito de grupos oprimidos, não necessariamente minoritários. Servem para criar um espaço de reflexão e crítica, para lembrarmos eventos violentos e dolorosos, para essas marcas que carregamos na memória não sejam apagadas e principalmente para que as situações do passado não se repitam. Porque todos temos lutas diárias, todos matamos um leão por dia para conquistarmos nosso espaço. Mas fico incomodado com essa necessidade feroz de bramir quem somos e a que viemos. Acho humilhante ter que me agregar aos meus pares e gritar em coro para ser respeitado pelo que sou. Acho doloroso ser considerado minoria. Acho triste ser oprimido por outra minoria mais forte que quer solapar minha condição, seja ela qual for.

Sei que tenho uma visão um tanto romântica e idealista da vida. Sei que é ilusão pensar que um dia nada disso será necessário. No meu mundo ideal, todo dia é dia de todo mundo. E a gente vive junto e a gente se dá bem, como cantaria Lulu Santos. Entretanto, no elevador hoje cedo, fui trazido à realidade pela moça que queria ser reconhecida em sua condição primordial. Tive vontade de perguntar: “Mas afinal, o que você fez para merecer esse presente que reivindica?” Mal sabe ela que eu a reconheço e a valorizo todos dias, não somente hoje. Ela não tem ideia do que as gerações anteriores à sua precisaram fazer, neste mesmo dia 08 de março, para que ela pudesse pedir presentes descuidadamente no elevador. Mal sabe essa pobre moça, que a data de hoje talvez não tenha despertado nela um sentimento de valorização de si mesma pelo que realmente é.

Se o mecanismo social é de pregar a igualdade, não é estabelecendo diferenças que seremos iguais. Saliento que não acho que devemos ser tratados como iguais, mas devemos ser respeitados em nossas idiossincrasias. Igualdade é tratar o semelhante como semelhante em suas particularidades e o dessemelhante como dessemelhante em suas peculiaridades. Mas semelhantes e dessemelhantes não são outra coisa senão o mesmo barro. Eu me construo, o outro me constrói, eu construo o outro, o outro constrói a si mesmo. Explico: Não sou mulher e objetivamente nunca serei. Mas bem no fundo, tem coisas femininas com as quais me identifico. E me torno mais mulher a cada dia. Aprendi a, femininamente, me sensibilizar com o é digno e me dessensibilizar com o que é descartável. As mulheres que lêem este texto agora, se lançarem um olhar apurado sobre si mesmas, tenho certeza que também identificarão traços masculinos. E nem por isso serão homens.


Não acredito, sinceramente, que valoriza e enaltece a condição feminina, castrada desde sempre, definirmos papéis. Não é porque somos mulheres que merecemos ser reverenciadas, tampouco porque somos homens que devemos reverenciar. Não é estabelecendo a diferença entre “coisas de mulher”, e “coisas de homens” que seremos tratados com o respeito que merecemos. Não nascemos homens ou mulheres, mas nos tornamos. E é por isso que hoje rendo homenagens a todas as mulheres que me fizeram ser um pouco mulher. Então, meninas, hoje é também meu dia. Vamos trocar flores?
 

sexta-feira, 1 de março de 2013

HOCUS POCUS: E UM AMOR NOVINHO SALTA DO CHAPÉU DE UM LOUCO!



“Antes de declarar sua preferência por alguém, espera-se que você venha a conhecê-la gradualmente e por meio de palavras; não devemos cair de amores (ou de tesão) à primeira vista.”
(Alain de Botton: “Como Pensar Mais Sobre Sexo”. Ed. Objetiva. Pág. 42)

Com a citação de Allain de Botton já começo este texto de forma um tanto amarga. Saliento, entretanto, que amargura pode ser boa. Vide um espesso, aromático e forte café preto. Cafés assim devem ser sorvidos com parcimônia, permitindo que seu sabor inunde cada papila. E sem açúcar. Adoçar um café de qualidade deveria ser crime passível de proibição perpétua de bebê-lo por profanar seu Santo Corpo Negro. Ou ainda a referência a um “bom veneno”, que como canta Nina Becker, “é amargo e os melhores vêm em pequenos frascos”. A amargura nos alerta sobre os perigos do mundo, objetivos ou não. Temos instintivamente a noção primitiva de que o que é amargo é nocivo e pode nos matar e o que é doce é benéfico e nos nutrirá. Diabéticos, porém, são o exemplo de que venenos podem ser doces também.

Não quero falar sobre amarguras. Na verdade quero sim. Mas vou falar das doces amarguras. Ou das doçuras amargas. Quero falar das doces e amargas ilusões que perdemos e nunca mais encontramos. E vagamos erráticos desde então, querendo recobrar nossa insanidade infantil e ingênua primordial. A busca de Parsifal pelo Santo Graal perde!

É confortável viver iludido. A gente vive melhor. As ilusões nos mantêm vivos e esperançosos. São elas que alicerçam as religiões, os casamentos, as instituições familiares e as sociedades corporativas. Sem ilusão, o mundo talvez fosse um caos completo. A vida que chamamos de real – mesmo sem saber se é porque não sabemos mais o que não é real – é mais dura. E mais amarga, obviamente. Por mais tentados a iludir-nos que vivamos, sempre sopra aquela voz no ouvido (esquizofrenia?) dizendo que não adianta fechar os olhos porque o sonho morreu. But I have a dream, embora meu sonho seja mais egoísta que o de Luther King.


Percebo, andando pelas ruas e principalmente pelos bares da vida, que as pessoas andam ávidas, cansadas e impacientes. Desejosas de algo que nem sabem o que é porque nunca viveram. Todos nós temos a ilusão midiática e mercantil de Amor, assim mesmo com letra maiúscula, e buscamos essa satisfação imediatamente. O Amor é algo intangível tratado como produto, é um bem que esperamos encontrar nas prateleiras de lojas de departamentos ou sites de compras (leia-se sites de relacionamentos). Não vemos o outro, vemos através dele nossa própria imagem refletida em suas pupilas. Bem Narciso. O outro não passa da possibilidade de ser o puzzle encaixado na lacuna que temos em nossas existências. Ele não precisa existir de verdade, basta não reclamar de ficar encaixado no espaço diminuto que destinado a ele, mesmo que ele seja um octógono enfiado em um triângulo. E isso é urgente. Tem que ser agora. Porque qualquer um pode ser potencialmente “o grande amor para a vida toda da semana”.


O “Grande amor” foi submetido à outra lógica nestes tempos difíceis para sonhadores. Antes era envolto em uma aura de perenidade e constância. E era uma quimera, convenhamos, mas isso é outro assunto. Agora, o amor eterno dura vinte e quatro horas e durante esse período é para sempre. Tudo é chama. Nada é imortal, portanto. Mas há a obrigatoriedade, velada e tácita, de ser infinito enquanto dure. Será uma maldição de Vinícius de Morais para as gerações futuras? Se comparado com o passado, amar hoje é menos ilusório. Mas gera muito mais frustração. Amor de fast food neurotiza o coração. E se o sujeito choramingar reclamando, tudo desmorona. Assim: CLIC! Libertamo-nos de amarras sociais e vivemos um amor tão livre, mas tão livre, que se tornou soberbo, arbitrário, intransigente e intolerante com tudo que é diferente de si. Egomaníacos, queremos um duplo de nós mesmos. Buscamos neuroticamente alguma coisa que nos falta. Queremos vestir uma calça tamanho 36 quando nossa cintura é 42. E tem que caber! Duela a quien duela. E tem que ser perfeito e incrível no espaço de um estalar de dedos. Ou somos todos condenados à escuridão e ao ostracismo eternos.

Sistematicamente, incautos vendedores de ilusões batem à porta oferecendo-nos, envoltas em tecidos brilhantes, promessas de felicidade eterna. Com elas chegam-nos certificados de satisfação garantida ou devolução de nosso tempo perdido. Eles aparecem meio Vanessa da Mata, cantando ao pé do ouvido: “Se você quiser eu vou te dar um amor desses de cinema”. Faz parte da mise-en-scène do canastrão caricato. E volta e meia caímos nessas teias. Por mais desconfiados e desencantados que estejamos, uma mentira almofadada bem vivida pode ser melhor que a realidade fria de mármore. Pelo menos precária e provisoriamente. Saída pela esquerda, Leão da Montanha. Bons encontros spinozianos são bem-vindos. Bons orgasmos freudianos - se que é existem - são necessários. Bons passatempos para dias chuvosos, para tardes sonolentas, para noites friorentas. Para ir ao cinema, para jantar fora vez ou outra. Para satisfazer necessidades físicas e psicológicas, objetivas e subjetivas. Não há mal algum na precariedade, desde que honesta.

Entretanto, até aquilo que é provisório, precário, ilusório e fronteiriço tem que ser maturado. Existe certo ritmo e determinado rito que lhe são próprios. Como um vinho precisa de tempo para chegar ao ponto ideal, uma boa refeição demanda de rituais e tempo precisos para ser apurada, uma relação fast também precisa. E não é porque é “fast relationship” que devemos quebrar todas as regras sociais (?) que dão sabor a ela. O fato é que, assim como para um bom apreciador de gastronomia macarrão instantâneo não tem vez, para um bom amante, amor instantâneo é miojo. Se café instantâneo não satisfaz o paladar de um bom barista, não vai ser uma paixão instantânea que vai satisfazer o coração. Contudo, a título de exercício livre da ludicidade, ser iludido conscientemente, tendo um olho a pestanejar e outro que agita, pode dar uma cor a dias nublados.


Ilusionista que se preze, engana-nos e aplaudimos, entusiasmados com o frio na barriga que sentimos. E parafraseando Caio F. Abreu, digo: que nem seja assim tão doce! Não importa. Desde que seja intenso sem medida certa, no tempo que for necessário, sem toque exato, mas que ainda assim seja um tiro certeiro. Doce ou amargo, tanto faz, mas autêntico e honesto. Que não seja febril e histérico, mas que seja lúcido. E que não queira nos fazer parecer um hambúrguer do McDonald’s no Drive Thru em dia de McLanche Feliz. 


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

SOBRE CINZAS


Fotografia de João Machado - Guarulhos- SP ( olhares.uol.com.br/joaomachadobahia)

É nas horas de vulnerabilidade que vemos nossa verdadeira face. A face feia de nossa finitude, de nossa incapacidade, de nossa impotência e de nossa limitação.

Tentei fugir de todas as formas deste assunto. Relutei o quanto pude me expor ao sofrimento de reviver minhas tristezas e meus desastres pessoais através da aproximação e do reconhecimento dos sofrimentos alheios. Tentei não mexer ainda mais numa ferida que, embora não marque minha carne propriamente, dói fundo em mim como se fosse minha.  Queria poder recobrar minhas forças em silêncio meditativo, porque acho que é o mais digno a ser feito numa hora de burburinho midiático quase histérico. Por respeito a mim e principalmente por respeito a todos os diretamente afetados. Tentei não expor ainda mais uma tragédia que ainda pulsa sangrenta em nossa memória, ampliada pela lente de minhas perdas pessoais. Não queria explorar de forma sensacionalista o sofrimento e a comoção de centenas de pessoas. Sofrimento que humildemente assumo meu neste momento.

Temia ser mais um a poluir as vidas das pessoas com relatos inflamados e empapuçados de sentimentos muito particulares. Mas não consigo deixar de falar sobre isso. Este é o assunto em todas as rodas de conversa pelas ruas, em todos os meios de comunicação, em todas as redes sociais. E o tema bate à porta da minha memória o tempo todo desde o último domingo.

Não evitei até agora falar exaustivamente sobre essas dores por covardia ou algo parecido. Nada disso. Evitei porque queria decantar minhas aflições afloradas. Porque estamos todos ainda sob efeito de intensas e recentes emoções. Porque todo mundo se sente um pouco vítima e um pouco sobrevivente, um pouco familiar de cada vítima neste momento.

Era para ser mais um domingo comum, hiperbolicamente ensolarado de Janeiro. Era para ser mais um domingo de bermudas e chinelos, de churrasco com a família, chimarrão com os amigos no calçadão, de choppinho no fim da tarde, de caminhada no parque. Era para ser um domingo de preguiça e ressaca da festa da noite anterior. Mas não foi assim que aconteceu. O domingo amanheceu com o céu manchado por nuvens negras de fumaça tóxica e um cheiro de desespero invadiu nossas casas. Um silêncio desolador pairou sobre todos nós. E esse silêncio era rasgado por sirenes frenéticas e choros desesperançados.

Fui solapado pelos telefonemas aflitos de amigos e familiares estupefatos. Minha preguiça dominical foi abruptamente rompida por uma enxurrada de informações na TV e na internet. Com a voz ainda em falsete de sono eu dizia, atabalhoado, que mal sabia o que estava acontecendo e que dormira tão profundamente que não atenderia facilmente qualquer telefonema antes das nove e meia da manhã. Parecia que La Doña Muerte havia entrado em meu quarto sem pedir licença e destruído para sempre a minha paz. Que direito ela tinha de me ceifar a tranquilidade de um domingo qualquer? Que direitos quem quer que fosse tinha de dilacerar milhares de corações, ceifar centenas de vidas, desconsolar famílias inteiras?

Esse domingo marcará injusta e violentamente nossas vidas, direta ou indiretamente, para sempre. Porque não existe forma de não nos afetarmos com o que aconteceu aqui, em nosso quintal, não importa se moramos em Santa Maria, Bogotá ou Tóquio. Nesse domingo, todos estávamos no mesmo lugar. Porque não dá para fechar os olhos para as lágrimas do vizinho, fechar os ouvidos para o choro ruidoso do amigo, do pai ou da mãe, negar a boca para uma palavra de consolo a um desconhecido devastado no meio-fio da calçada.

Tenho crenças religiosas fortes, mas não gosto de dar explicações religiosas para os fatos. Acho que Deus - quer você acredite Nele ou quer que Ele exista ou não - não tem nada a ver com isso. Não foi Ele quem condenou pessoas a morte. Nem o diabo, como muitos insistem ignorantemente em afirmar. Não foi Ele quem decidiu que haveria uma tragédia com mais de duzentas e trinta mortes. Não foi Ele quem decidiu “matear com a gurizada no céu”, como alguns dizem para amainar a dor na alma que não cessa. Não será Ele que vai consolar as vítimas, tampouco seus familiares. Entretanto, isso que digo não tem absolutamente nenhuma relação com falta de fé. Pelo contrário. Acredito firmemente que fé é fundamental. É nela que buscamos forças, é através dela que nos reconfortamos.

Compreendo que para muitos “Deus” é a representação de sua fé. E digo que tudo bem se acreditarem que “foi Deus que quis assim”. Cada um encontra sua forma particular de dar sentido ao seu mundo. Porém, ainda prefiro acreditar que Deus não “existe” para isso. A função dele em nossas vidas é outra. Mas gostaria de falar sobre o que entendo por fé e sobre a fé que vejo pelas ruas nestes dias estranhamente silenciosos. Uma fé fundamental para que continuemos existindo neste mundo de forma subjetiva, porque para existirmos de forma objetiva não precisamos de quase nada além de um pouco de água e alguma comida. A fé a que me refiro é uma fé pura e simples nos atributos de humanidade que os seres humanos - suspeito que nem todos - possuem. Uma fé que nos conforta quando enfrentamos duramente a realidade de não termos mais nossos queridos entre nós. É a fé mais humana e sincera no próximo e em nossa capacidade se superarmos a nós próprios. Não é uma fé metafísica, mística, mágica ou espiritual. É sim aquela fé na existência de alguém que estenda a mão quando estamos sofrendo, aquela fé que nos impele a oferecer um copo d’água, um ombro, um abraço, cinco minutos de nosso tempo escasso para ouvir em silêncio o outro chorar. É a fé naquelas pessoas que arriscaram suas próprias vidas para salvar as vidas de desconhecidos. É a fé no amparo fraterno, no acolhimento sincero, na solidariedade sem qualquer retorno ou recompensa.

Acalma meu coração ver a união das pessoas nesses momentos de sofrimento. Vi diversas manifestações de solidariedade e de humanidade, em meio a tanta violência e atrocidade, em meio a tanta negligência e omissão. Porque é nessas horas de vulnerabilidade que vemos nossa verdadeira face. A face feia de nossa finitude, de nossa incapacidade, de nossa impotência e de nossa limitação. É quando o outro sofre que vemos nossa própria imagem refletida. E muitas vezes é nossa pior face. Vendo o sofrimento alheio, nos deparamos com os nossos e vemos que também podemos sofrer tanto quanto o outro ou mais.

É quando sofremos extremamente, e achamos que não vamos ter forças para superar a dor incrustada em nossos corações, que emerge nossa verdadeira essência humana. Mostramo-nos mais verdadeiros quando emergimos de nossos escombros. Não tal qual Fênix, a deusa pássaro da mitologia grega que morria e renascia de suas próprias cinzas, porque não renascemos. Apenas continuamos vivos, com todas as cicatrizes que nos competem. E de uma forma ou de outra, seguimos em frente. E que bom que às vezes surgem outros seres que nos estendem a mão para que juntos sobrevivamos aos nossos desastres. 

Montagem com Fotografias de João Machado - Guarulhos- SP ( olhares.uol.com.br/joaomachadobahia

sábado, 5 de janeiro de 2013

O PALHAÇO MAIS TRISTE DO MUNDO



 Andrew Salgado, “If One Man’s Joy is Another Man’s Sadness” (2012). Courtesy Beers.Lambert


“Voltei pra me certificar
Que nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar”
(Bastidores – Chico Buarque)



Tu sabes como é quando ficamos exauridos? É, exauri. Por isso estou aqui, olhando minha cara no espelho mais uma vez. Esfrego um lenço úmido para tirar a maquiagem, mas ela não sai, apenas desenha manchas disformes e coloridas em minhas faces sem expressão alguma. Minha cara é um grande borrão agora. Todas as cores misturadas, sem qualquer lógica, mas com todo sentido. Somente agora vejo que o verdadeiro sentido de minha existência está expresso nesses borrões que desenhei querendo apagar minha própria história de palhaço tatuada para sempre em mim.

Na verdade não vejo sentido no que tenho sentido. E nem sei se deveria ter algum sentido. Talvez não haja sentido no que não é sentido. Ou talvez todo sentido da vida esteja em analisa-la sem procurar sentido. O que eu estou dizendo agora? Deveria suspender o gim. Não! Somente ele me compreende. Por isso ergo o gim! Um brinde, respeitável público! Um brinde ao mais infeliz de todos os palhaços! Não estou referindo-me a ti. Tampouco falo contigo. Estou falando sobre este palhaço besta que vejo no espelho agora. Sim, sou eu mesmo. São para mim os aplausos. São para ti as lágrimas que luto para não derramar cada vez que te vais. Pode ser para nós o brinde? Não, nunca poderá. O brinde é também todo meu.

Tranquei a porta do camarim, fechei as janelas e chorei, chorei, até ficar com dó de mim*. Quero que os aplausos cessem. Quero que as vozes cessem. Quero que as palavras cessem. Quero que os ruídos, interiores e exteriores, silenciem. Existem muitos ruídos aqui dentro de mim. Desejei (e como desejei!) ter junto a ti silêncios povoados de significados indizíveis, aqueles momentos em que os silêncios seriam maculados por palavras. Ficaríamos quietos em nós mesmos e um no outro, enquanto veríamos o tempo rasgar vagarosamente nossas vidas, delegando ao justo esquecimento nossos passados.

Mas silêncios são complexos. Para distinguirmos os férteis dos inférteis é necessário que conheçamos ao outro intimamente. Quanto a nós, nunca chegamos a nos conhecer. Como diz a música, “existe um preconceito muito forte separando você de mim**. Mas não me vitimizo. A culpa foi minha também. Nunca consegui ultrapassar o abismo dos teus olhos esverdeados e brilhantes. Da mesma forma, nunca compreendeste o que calou minha boca seca.

Não esperei grandes demonstrações tuas. Queria as “minimalezas”, as sutilezas, as gentilezas e as cotidianidades. Queria anoitecer e amanhecer contigo. E quando anoitecesse, queria apenas garantias de que amanheceríamos juntos. Queria que tivesses para onde voltar das tuas longas jornadas. Queria a certeza de que eu poderia ir e teria um porto para atracar quando voltasse. Mas sempre voltei para a casa vazia e para a cama fria.

O que precisei a vida toda - e nunca tive de ti - é presença. Nunca foi companhia o que te pedi em todos os momentos de mendicância extrema e indigna. Tampouco me satisfaziam os presentes raros que trazias de além-mar. Tu saías antes do sol nascer porque o cais é apenas uma parada provisória. E deixavas tuas migalhas sobre o criado-mudo esperando calar-me. Quanto a mim, navegar não é preciso. Viver é preciso. Mas exigir isso de ti é muito, não é mesmo? Teu espírito é elevado demais para satisfazer meus desejos tão primitivos e egomaníacos.

Disparatado da minha parte desejar que me quisesses quando estavas aqui olhando-me nos olhos, como dizias querer-me nas cartas, escritas com caligrafia impecável, que mandavas dos portos onde chegavas. Tuas cartas tinham o cheiro dos lugares por onde passavas e se eu inspirasse profundamente o papel conseguia sentir o cheiro acre das tuas mãos hábeis em iludir-me. Sabes, teve um tempo no qual eu seria capaz de identificar de onde o sujeito vinha pelo cheiro de sua bagagem. Os lugares tem cheiros característicos. Este lugar, por exemplo, cheira a mofo. Este é o seu cheiro, por mais que limpem e perfumem com flores, essências e incensos. E a casa que eu queria que fosse nossa cheira a morte, principalmente agora.

Soou a primeira campainha, preciso terminar de vestir-me. Mas não é isso que queria dizer. Minha teoria é que as cidades têm cheiros característicos e que eu consigo identificá-los porque sempre fui um andarilho atento. Pretensão minha? Talvez. Assim como foi pretensão minha achar que serias capaz de transformar nossas vidas ou que eu seria capaz de manter-te junto a mim por vontade tua. Assim como sou um astuto em identificar aromas, sou persuasivo para satisfazer minhas vontades. Eu quis que ficasses porque cansei de ser um cavaleiro andante. Talvez agora tenha conseguido fazer-te permanecer, não? Mas agora não quero que fiques. Acho que teu lugar é o mundo, tua casa são os sete mares. Por isso quero despedir-me definitiva e dignamente de ti.

Defendo-me de ti mostrando-me a ti. Soou a segunda campainha. Hora de entrar no palco mais uma vez. Preciso da peruca colorida, do meu nariz e do sorriso falso. É triste ser reduzido a um personagem, porém esses elementos são minha marca e jamais serei alguém sem eles. Agora eu sou o personagem, a máscara grudou definitivamente em minha cara e devo aceitá-la. Logo precisarei retornar ao que chamamos precariamente de lar para encontrar-te, meu querido. Preciso limpar as marcas do nosso último encontro, recolher os cacos espalhados pelos cantos, arejar e incensar todos os cômodos para as boas energias entrarem, dar-te um beijo de despedida na testa e após carregar até o porto a arca onde o teu corpo que um dia quis meu e jogá-la ao mar.


* Trecho da música Bastidores – Chico Buarque de Holanda
** Trecho da música Preconceiro – Antonio Maria e Fernando Lobo

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

DA ETERNA BUSCA POR SENTIDO


“Para fazer uma colcha de retalhos, deve-se escolher os retalhos com cuidado. Se escolher bem dará destaque à obra, mas se escolher mal as cores ficam sem vida e tiram sua beleza. Não há regras a serem seguidas. Deve-se seguir o instinto e ser corajosa.”

(Trecho do filme Colcha de Retalhos)

ONDE MORA O AMOR? Esta é a pergunta central da trama do sensível e feminino Colcha de Retalhos (How To Make An American Quilt), de 1995, o primeiro longa metragem dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse. A história gira em torno das (re)construções  existenciais da personagem Finn (Winona Ryder), uma acadêmica que está escrevendo uma tese sobre trabalhos femininos coletivos em diversas culturas. Sua teoria é que todos os trabalhos artesanais coletivos dessas mulheres são realizados de forma ritualística. Prestes a concluir sua tese, depois de diversas tentativas frustradas de realizar outros trabalhos similares e abandoná-los por perder o interesse pelos temas, ela decide deixar a vida que levava com o noivo Sam (Dermot Mulroney) e passar uma temporada de verão na casa de sua tia Glady Joe (Anne Bancroft) e de sua avó Hy (Ellen Burstyn), com o objetivo de repensar os rumos sua vida acadêmica e pessoal. Reencontra, então, os rituais de um grupo de mulheres de uma pequena comunidade no interior da Califórnia, com os quais está familiarizada desde a infância. Elas reuniam-se, sob o comando da forte Anna (Maya Angelou), com o objetivo de confeccionar colchas de retalhos com temas específicos, que é uma tradição bastante comum no interior dos Estados Unidos. Juntas formavam o que chamavam de Clube da Costura. Naquele verão, o tema da colcha que o clube preparava era o resgate das memórias de amor daquelas artesãs, sob o título “Onde Mora o Amor?”. Cada uma delas seria responsável pela elaboração de um quadrado da colcha e o trabalho final seria presente de casamento para Finn. Desse trabalho artesanal são tecidas suas histórias de amor (e de dor) ao longo da vida até chegarem àquele momento.

Alguém aí deve estar se perguntando: por que resgatar esse filme lá do fundo da prateleira para escrever sobre ele agora? Tenho alguns - talvez bons - motivos para escrever sobre ele. Assisti a esse filme pela primeira vez há muitos anos e sempre fiquei com uma sensação de que faltava algo e que eu precisava revisitá-lo para costurar o que ficou para trás. Sempre deixei para depois. E isso é uma característica minha também. Procrastinar ou postergar poderiam ser agregados ao meu nome de batismo. Não costuro meus retalhos muito bem por falta de jeito ou preguiça mesmo. Mas lá no fundo eu sabia que precisava revisitar as sensações que tive quando assisti ao filme pela primeira vez e que uma hora dessas seria o momento. Aconteceu agora.

Nesta época do ano, quando somos enxovalhados por rituais externos a nós, quando somos impelidos a repensar nossas vidas, avaliar o que vivemos e projetar nossos sonhos frustrados de hoje com o combustível da esperança num futuro distante e incerto, porém melhor (?), senti que precisava rever algumas coisas esquecidas por aí. Certo, assisti ao filme para começar. Isso foi há alguns dias atrás. Demorei a escrever porque precisava decantar minhas emoções. Até porque assisti ao filme em um momento de letargia deliciosamente preguiçosa e amorosa de feriado. Agora, passado algum tempo, sento-me e tento escrever sobre minhas impressões para não ficar falando sozinho pela casa.

Abri a janelas e deixei a luz da manhã entrar, tomei um banho demorado, vesti uma roupa confortável. Cheiro de sabonete, pasta de dentes e café recém passado. Limpeza. Do corpo e da alma. Café de um lado, cigarros do outro (nem tão limpo assim). Não bebo nem fumo, entretanto, mas deixo tudo ao alcance da mão. Cerco-me de coisas que podem me proporcionar familiaridade, aquela almofadinha fofa nas costas, a xícara grande de porcelana branca, incenso de alfazema, a camiseta velhinha de “andar em casa”, chinelos de dedo e Billie Holiday como trilha sonora. Queria uma vitrola para ouvir o chiado do vinil harmonizado com a voz potente de Holiday e uma máquina de escrever igualzinha à da personagem Finn. O som seco dos tipos marcando o papel é delicioso e lembra algo da minha infância. Se sons tivessem cheiro esse teria o cheiro do pão-de-ló da minha mãe recém saído do forno.

O que mais me tocou no filme foi a forma de retratar a construção das memórias e os vínculos que formamos com outras pessoas, através dos rituais que desenvolvemos para que essas relações aconteçam. Fiquei pensando no quanto esses rituais podem ser reveladores para (e de) nós mesmos. Por mais automatizados e instintivos que sejam, esses rituais nos conectam com o que temos de mais essencial. Fazemos nossos retalhos sozinhos, mas quando olhamos para o lado, o retalho do outro encaixa perfeitamente no nosso. Então tecemos juntos uma mesma colcha de histórias amorosas. Penso que o mais fundamental é sempre o mais esquecido. De tempos em tempos, precisamos parar e revisitar nosso passado para encontrarmos a nós mesmos. É o que as mulheres do filme fazem. Cada uma à sua maneira, cada uma com suas particularidades, todas revisitam suas histórias para desconstruir e reconstruir significados através dos retalhos de tecido colorido. E é um trabalho de buscar o retalho mais apropriado, costurar ponto a ponto, refazer quando a costura não está perfeita, juntar todos os pedaços de história que tecem o que chamamos de “Vida”.

Finn não costura. Ela é o tipo de mulher que tece sua história através de uma máquina de escrever. Ou pelo menos tenta se encontrar através do academicismo, cético e racionalista, que guia seus passos e suas escolhas. Ela é uma artesã tão habilidosa quanto as costureiras da comunidade. Ela também tece uma trama para construir significados para sua própria existência. Ela também faz retalhos com costuras tortas. Ela também precisa desmanchar a costura e refazê-la quando não está perfeita. Ela também tenta excluir ou ocultar alguns retalhos da trama para que ela tenha um significado esperado ou ideal.

Em um momento da narrativa, uma das costureiras é inquerida sobre os motivos que a levaram a “contar” sua história com cores que não estavam harmonizadas com as demais. Ela é pressionada a excluir-se do grupo, juntamente com o “retalho” que conta sua história de amor. Isso me faz pensar em quantas vezes queremos contar uma história de nossas vidas com determinada unidade, sem percebermos que a vida é muito mais dinâmica e que não podemos esperar uma unidade estética (ou ética?) ideal porque ela simplesmente não existe. A vida é o que se apresenta diante dos nossos olhos e o máximo que podemos fazer é juntar os pedaços de vida que existem pelos cantos e tecermos nossa trama amorosa.

Contar nossa história é justamente isto. É recortar, juntar, montar, costurar e buscar sentidos novos para nossos eventos passados. E cada vez que visitamos nosso passado construímos uma nova colcha de retalhos, com novos elementos, mais viva. Estamos sempre transformando o que nos cerca externamente e o que nos preenche internamente.

Quero fazer um convite a você que chegou até aqui: Procure aquela velha caixinha de costura, junte panos coloridos, agulhas, linhas e tesouras e visite seu passado. Recrie, corte, recorte, costure com carinho, reconstrua e traga a beleza, mesmo dos eventos tristes, e reavive as cores dos momentos de felicidade. Porque o ano novo já está logo ali e isso não faz diferença nenhuma. Ele poderia estar muito longe de acontecer, caso não seguíssemos o calendário gregoriano, ou poderia nem mesmo acontecer, caso não seguíssemos calendário algum e a vida fosse apenas uma sucessão de dias sem quaisquer fases ou ciclos. Não é o amanhã, mas o que carregamos no peito agora neste exato momento o que realmente importa. Somente haverá um amanhã com lembranças valiosas de ontem se o hoje for lapidado como a pedra preciosa que é.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ONDE ESTÁ (A JANELA DE) WALLY?





“Esses prédios, que se sucedem sem lógica, demonstram total falta de planejamento. Exatamente assim é a nossa vida, que construímos sem saber como queremos que fique.”



O título em português já dá indicativas de como é construída a narrativa desse belíssimo filme, produção argentina, espanhola e alemã, ambientado em Buenos Aires e dirigido pelo novato em longas metragens Gustavo Tarreto, que assina também o roteiro. Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual, como foi batizado no Brasil, é um filme interessante e bem amarrado, com um título infeliz aqui no Brasil, e que não faz jus aos seus atributos. O título original, por si, traduz perfeitamente a atmosfera apresentada pelo autor. A trama trata das buscas e perdas a partir de dois solitários, que nunca se cruzaram, tendo como pano de fundo uma Buenos Aires definida por construções opressoras e pautada por medianeras, como são chamadas em espanhol as paredes cegas dos prédios. Apesar de desconhecidos, eles são vizinhos e vivem vidas semelhantes. Ambos perdidos de si mesmos em uma grande cidade cinza-azulado de concreto contra um céu pouco celeste, imersos em uma penumbra claustrofóbica de seus passados fragmentados, presentes de olhares sem sonhos e futuros sem esperanças. O título, quase em tom de comédia da Meg Ryan, dado pelos nossos conterrâneos tupiniquins, nos possibilita, entretanto, alguns questionamentos, tais como: que “era do amor virtual” é esta onde estamos cada vez mais solitários? Que significados damos ao “amor”? O que é virtualidade?

Tenho percebido que os argentinos tem conseguido tratar desses assuntos de maneira feliz e sensível. A exemplo dos filmes Elza e Fred (2005) e La Vieja de Atrás (2010), que tocam em temas da solidão e velhice, Medianeras traz à tona a angústia e solidão nas grandes cidades, (in)comunicabilidade e isolamento, tendo como cenário uma Buenos Aires cosmopolita, cinzenta e impessoal, angustiante e onde a própria arquitetura da cidade forma pequenos nichos individuais, celas onde indivíduos são – voluntariamente ou não – confinados.

“O que esperar de uma cidade que dá as costas ao seu rio? É certeza que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo, são culpa dos arquitetos e incorporadores. Esses males, exceto o suicídio, todos me acometem.” É assim que a trama de Tarreto é descortinada para o grande público. Assim ele apresenta dois dos personagens principais da trama: A cidade de Buenos Aires e Martin (Javier Drolas). Poderia ser a história de qualquer um de nós, vivamos em grandes ou pequenas cidades, em grandes ou pequenos apartamentos, iluminados ou não, sozinhos ou não. Afirmação meio sem sentido? Talvez. Deixo, porém, de lado a identificação pessoal inicial que existe para um cara como eu, que vive sozinho, porque não vem ao caso. A bem da verdade, é inevitável não desenvolver empatia pelos personagens da trama de Tarreto. Todos passamos por momentos de cinza-azulado absoluto, inclusive na mais profunda solidão a dois. Isto porque vivemos até as últimas consequências o mito pós-moderno da liberdade individual e conhecemos muito bem a “angústia da pós-modernidade” - que já é um termo bem ultrapassado, porque a era da tecnologia nos impele cada vez mais rápido de um não lugar para lugar nenhum.

Logo em seguida, é apresentada a outra personagem, Mariana (Pilar López de Ayala): “Há dois anos sou arquiteta, mas ainda não construí nada. Nem um prédio, nem uma casa, nem um banheiro. Nada. Só umas maquetes inabitáveis, e não só por causa da escala. Com outras construções, também não dei certo. Uma relação de quatro anos ruiu, apesar dos meus esforços para mantê-la de pé. Se minha vida fosse um jogo como o Jogo da Vida caberia a mim o castigo de voltar cinco casas. Por isso estou aqui, com a vida desordenada em 27 caixas de papelão, sentada num rolo de 12m de plástico bolha para estourar, antes que eu mesma estoure.”  Somos multidões de engaiolados em mundos cada vez menores e mais individuais. Vivemos cercados, delimitados por nossas paredes cegas para que não vejamos  a intimidade do outro, pelos elevadores que não utilizamos porque somos claustrofóbicos, pelas calçadas que não transitamos porque somos agorafóbicos, pelas pessoas que nos definem e conceituam. Ruminamos ad aeternun  nossas angústias e nossas frustrações. Em nome de nossas liberdades individuais, nos fechamos em caixas herméticas. Criamos uma identidade baseada em toda sorte de rótulos de transtornos modernos e nos anestesiamos com psicotrópicos cosmopolitas.

“Quando vamos ser uma cidade sem fios? Que gênios esconderam o rio com prédios, e o céu com cabos? Tantos quilômetros de cabos servem para nos unir ou para nos manter afastados, cada um no seu lugar? [...] Bem-vindos à era das relações virtuais.”, profetiza Mariana, no alto de sua cela.  O que é mais virtual: uma relação mediada por tecnologias da comunicação ou uma relação “pessoal”? Talvez tudo seja virtual, talvez não nos relacionemos com o outro diretamente. No filme, tanto Martin quanto Mariana tiveram, no passado, relacionamentos fracassados. Até aí nenhuma grande sacada do filme. Porém, esses relacionamentos são retratados como desertos de comunicação e dão indicativas que foi essa incomunicabilidade que fez com que ruíssem. E eles tentam resolver essa necessidade de contato através de outras janelas. E talvez somente nesse momento tenham conseguido estabelecer relações reais com o mundo, com o outro e consigo.  

Mariana era obcecada por encontrar, sem sucesso, o personagem Wally em um livro de gravuras chamado “Wally na Cidade”. E suas reflexões sobre suas buscas mais íntimas se traduzem nessa frustração de não saber onde está Wally na cidade. Martin, por sua vez, em um dado momento retira da embalagem original um boneco antigo do personagem Astro Boy, um mangá dos anos 60 que conta a história de um androide provido de sentimentos humanos. Coincidentemente ou não, esse boneco possui um dispositivo que abre uma “janela” em seu peito, onde é possível ver um pequeno coração brilhante. Essas sutilezas são o que há de mais interessante na obra de Tarreto. Porque talvez Martin seja uma espécie de menino-andróide que descobre que tem coração e Mariana, buscando Wally, busca a si mesma.

O objetivo das medianeras é preservar a privacidade dos vizinhos laterais. É manter certa ordem, um limite. O que fazem Martin e Mariana é justamente subverterem a ordem e abrirem, clandestinamente, janelas nessas paredes para que entre alguma luz. E essa é a maior libertação deles. Como se fossem seres presos em cápsulas, eles quebram a casca que os envolve e se abrem para o mundo exterior, saem do casulo, ou pelo menos abrem uma fresta para enxergarem o que existe além-cárcere. Mas para saber se isso funciona, você precisará assistir ao filme. Ou quebrar uma parede e abrir uma janela em sua própria medianera.