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sábado, 21 de abril de 2012

INDISPONÍVEL E INTRANSPONÍVEL


Robert Longo. From the Men in the Cities series. 1981--(montagem)


[Morte] Quer garantias?
[A. Block ] Chame como quiser. É tão inconcebível tentar compreender Deus? Por que ele se esconde em promessas e milagres que não vemos? Como podemos ter fé se não temos fé em nós mesmos? O que acontecerá com aqueles que não querem ter fé ou não tem? Por que não posso tirá-lo de dentro de mim? Por que ele vive dentro de mim de forma tão humilhante, apesar de amaldiçoá-lo e tentar tirá-lo do meu coração? Por que, apesar de Ele ser uma falsa realidade, eu não consigo ficar livre? Você me ouviu?
[Morte] Sim, ouvi.
[A. Block ] Quero que Deus estenda as mãos para mim, que me mostre seu rosto, que fale comigo.
[Morte] Mas Ele fica em silêncio.
[A. Block ] Eu O chamo no escuro, mas parece que ninguém me ouve.
[Morte] Talvez não haja ninguém.

(Trecho do Filme O Sétimo Selo, Det Sjunde Inseglet,  1957, Ingmar Bergman)


Poderia ser a cena do filme de Bergman onde o cavaleiro joga xadrez com a Morte: “Você joga com as pretas”, disse Antonius Block para a Morte. “Muito apropriado, não acha?”, ela responde.  Sentados frente a frente, duelaram suas vaidades, asperezas, incertezas e solidões. Estudaram meticulosamente cada gesto, cada palavra. Olhares vazios, copos cheios. Sobre a mesinha redonda de madeira escura e pés de metal escovado da cafeteria, estavam dispostas ao centro duas xícaras de porcelana brancas com café até a metade, duas taças de água já sem gás, uma tigela de biscoitos amanteigados intocados. De um lado, os óculos de grau de um deles sobre o livro O Silêncio dos Amantes, de Lya Luft. Do lado oposto, e o telefone celular do outro, sempre em modo silencioso e virado para baixo. Polidez? Reserva? Privacidade? Olharam simultaneamente para os pertences alheios, entre a curiosidade e o desdém, pensando que eram muito apropriados aqueles objetos dispostos sobre a mesa daquela forma e naquele momento. Quatro mãos bonitas, muito brancas, pousadas cruzadas sobre o tampo, contrastavam com o escuro da madeira e emolduravam a cena. Assim como os olhos que não se cruzavam, as mãos jamais se tocaram. No máximo, vez ou outra, dançavam no ar, nervosas, entediadas ou explicativas, nunca divertidas ou amorosas como antes. “Esta é a minha mão. Posso mexê-la. O sangue pulsa nela. O sol está alto no céu e eu, e eu, Antonius Block, jogo xadrez com a morte”.  Tamborilavam os dedos na mesa para que pelo menos houvesse algum barulho que pudesse desfazer aquele deserto de incertezas e silêncios inférteis.  Às vezes um deles apoiava o queixo na mão aberta enquanto ouvia o outro dizer alguma coisa. Essa poderia se uma atitude que demonstrava interesse pelo outro. Ou poderia ser apenas cansaço de tudo. Nunca saberão. Havia um abismo entre eles. O abismo era Intransponível. E se não fosse, seria Indisponível.

Indisponível, chamemos assim porque era assim que o outro o denominava, era um homem bonito de meia idade. Altivo, sensato, sereno, olhos de um verde profundo, pele muito clara. Barba rala, sempre bem aparada, cabelos negros. Seu sorriso era franco, às vezes meio retraído, especialmente quando espremia os cantos da boca e desviava o olhar para o infinito. As covas das bochechas ficavam levemente salientes e combinadas com o brilho dos olhos cor de esmeralda, que também sorriam, desenhavam um ar de menino que cresceu de repente e ainda não se adaptou à vida de adulto. Era tímido. Às vezes se refugiava atrás de uma autoestima e segurança inabaláveis, talvez na tentativa de não ter sua personalidade em eterna construção colocada à prova. Seus pensamentos e atitudes eram firmes, mas ele era doce e conseguia ver beleza nas menores coisas da vida. E essa doçura deixava transparecer que por trás dessa casca de altivez e autossuficiência o mais importante para ele era o que o coração e a alma ditavam. Tinha a fala mansa. Possuía um jeito de quem já viveu tudo e encontrou o ponto de equilíbrio eterno e imutável. Meio espiritualizado, meio transcendente, meio Shiva, meio Nossa Senhora, meio Madre Tereza, meio Ghandi. Mas esse Sidarta que não a abandonou o castelo paterno de origem para atingir a iluminação não tinha se livrado das ilusões do Samsara. Pelo contrário, era cada vez mais vítima na teia do real. Em rompantes de lucidez (ou acidez?) dizia-se despertando de um sonho difícil para a realidade “tapa-na-cara”. Sempre tinha uma frase grandiloquente para ilustrar, acalmar, confortar ou contextualizar qualquer situação, o que lhe conferia, entre os seus, um ar sábio do tipo “pergunte-qualquer-coisa-e-responderei”.

Intransponível, que também será desta forma nomeado por ser assim que o outro o via, era o oposto complementar de Indisponível. Ambos tinham mais ou menos a mesma idade. Intransponível era ligeiramente mais jovem que o outro. Tinha o olhar oscilando entre a catatonia perdida em pensamentos neuróticos e o nervosismo de querer dizer tudo que sua mente frenética produzia. Era pálido, olheiras fundas, cabelos grisalhos desgrenhados, barba eternamente por fazer, unhas roídas, um ar cansado de quem lutou por anos, perdeu a batalha e voltou, incrédulo e desesperançado, arrastando a armadura e a espada e tentando enganar a Morte. Mas não era derrotista. Era sim amargo e cético, como se houvesse olhado no espelho naquela manhã e tivesse descoberto que é um velho sem futuro. E talvez fosse. Mas no fundo de seus negros e opacos olhos ainda havia sonhos. Mas a vida trancafiou esses sonhos numa carapaça cinzenta, numa pele opaca, num sorriso amarelo de amarguras, cigarros e café, num corpo nem magro, nem gordo, apenas disforme e desajeitado. Desajeitado como seu espírito, como sua alma. Incompreensível e inacessível como seu coração. Tinha apenas histórias para contar. Histórias verdadeiras e fantasiosas (a maioria), porque acreditava que a vida não precisava ser vivida – se dura –, mas devia ser inventada. Vivia cada dia como se fosse o último (pelo menos emocionalmente) e esfarrapado arrastava-se para o dia seguinte porque acreditava que era lá onde e quando seria um homem melhor. Desenhava histórias com finais temerosos. Era hábil com lápis e papel. Superstição de que talvez vivendo maus agouros no papel ficasse livre de vivê-los na vida real. Tinha os livros que leu, os discos que ouviu, os amores que perdeu, as lembranças que não conseguia esquecer, uns trocados no bolso do pesado casaco de alpaca azul marinho de marinheiro e uma vontade imensa de viver outra vida.

Tentaram conversar sobre amenidades. Não foi uma conversa difícil. Ambos tinham o riso frouxo quando estavam juntos, mesmo em situações em que a dor era excruciante e que estavam armados. Possuíam humor ácido e ferino, eram astutos, perspicazes e sempre tinham um comentário sobre tudo o que acontecia à sua volta ou dentro deles. No tempo que permaneceram frente a frente, nessa tarde qualquer de um dia qualquer, na cidade que não era de nenhum e ao mesmo tempo era de ambos, trocaram alguns olhares furtivos, indecisos, receosos. Olhavam detida e disfarçadamente o outro, sem serem flagrados, e perdiam-se em pensamentos silenciosos.  Intransponível sempre foi acusado de não dizer o que sentia. Indisponível de não sentir o que dizia. Eles sabiam, olhando no fundo dos olhos do outro, que se amavam profundamente. Um amor puramente fraterno, cristão, o amor mais nobre e digno que poderia existir. Mas a cada novo suspiro de insatisfação e a cada frase solta, cotidiana ou banal, dita com requintes de crueldade, as diferenças abissais que existiam se tornavam mais fortes.

Trocaram algumas singelezas e gentilezas. Trocaram presentes porque Intransponível adora cheiros confortantes antes de dormir e Indisponível faria uma grande viagem sozinho. Em alguns momentos a conversa era leve, quando ambos faziam piadas sobre coisas engraçadas da vida que quase tiveram em comum. Em outros era pesada, quando se deparavam com suas limitações e suas incapacidades pela vida em comum que nunca tiveram. Um comentou sobre o livro que estava lendo, que contava a história do amor entre uma mulher e um homem, ambos de meia idade. Esses dois seres se encontraram já na maturidade, vinham de vidas pontuadas por dores e perdas, cicatrizes profundas e resquícios que jamais seriam esquecidos. Porém, ambos tinham um impulso vital de sobreviver a essas marcas e colocar as lembranças – boas e ruins – de uma vida inteira num lugar especial e devido. Narrada em primeira pessoa pela mulher, a história é pautada por sentimentos intensos e conscientes, contextualizados através dos silêncios que somente os amantes entendem, aqueles momentos em que nada é necessário ser dito, onde calar é deixar que o outro entre em seu no universo particular, quando tudo é compreendido e compartilhado apenas com um olhar. Silêncio é cumplicidade também. Coincidentemente ou não, esse silêncio fértil que pontua e tece a trama amorosa era Intransponível.  O outro contava sobre um livro que havia lido, que falava sobre os meandros das relações amorosas, através de explicações pouco ortodoxas e um tanto metafísicas e sobre a necessidade de humor no amor, de condescendência, generosidade e paciência. Ele sempre gostou de manuais sobre amores-que-podem-dar-certo. Essa elucubração sobre uma existência que não era a sua e sobre uma relação que nunca tiveram era Indisponível. E ambos concordavam intimamente, era também Intransponível.

Exaustos do derradeiro embate de horas que pareceram semanas, os duelantes saíram da cafeteria. Precisavam caminhar. Precisavam respirar. Precisavam emergir. Era noite alta. Caminharam lado a lado sob o céu estrelado, em silêncio quase absoluto, somente quebrado por uma ou outra farpa trocada polidamente. Seria a noite perfeita para os amantes. Mas eles não sabiam sê-lo. Eram dois aristocratas ingleses do século XVIII, com seus sobretudos nas mãos e seus chapéus cobrindo as faces marcadas de desgostos, dois oficiais do Führer, de botas reluzentes e semblante austero, duas carmelitas silenciosas e castas indo para o claustro, dois prisioneiros condenados à pena de morte atravessando o corredor frio e sem fim rumo à execução. Um tentou aproximar-se, como sempre do jeito errado, soltando espinhos. Intransponível. O outro não estava mais lá. Indisponível. Haviam se transformado em lembranças esmaecidas de alguém que um dia foi o centro de uma vinda inteira.

Murmuraram, resmungaram, calaram. Corações apertados, nós nas gargantas, talvez tivessem os olhos marejados. Não era possível ver porque andavam por caminhos escuros e estavam em nenhum momento olharam um no rosto do outro. E mesmo que tivessem olhado, talvez não conseguissem ver nada além de um borrão. Seus olhares não se cruzaram na despedida. Despediram-se solenes, desejando sem vontade que a vida fosse doce que o futuro fosse uma nuvem macia onde pudessem pousar, que a vida não fosse mais tão madrasta e desse uma colher de chá, porque o peito já era um copo até aqui de mágoa. Intransponível, mais ácido que nunca, pensou em dizer ao outro sobre o quão cíclicas eram as situações entre eles, que se aproximavam, planejavam o futuro, desejavam, achavam que poderiam conquistar o mundo, mas que depois roubavam sua coragem, o céu ficava cinza, vinham as tempestades, o terreno onde cravavam suas estacas ficava infértil, surgiam os silêncios longos e desesperadores, o afastamento, deixavam de participar um da vida do outro, voltavam a ser desconhecidos. Então aparecia uma nova carta ou encomenda na caixa de correio, um telefonema, uma mensagem qualquer. E o ciclo reiniciava indefinidamente. Mas não disse nada. Abraçou um abraço oco e ainda pensou em dizer suas últimas palavras, apoteótico e dramático. Um gran finale para uma peça em um único ato. Ficou calado, olhar sintomaticamente distante.  E isso era Intransponível. Ao seu melhor estilo, o outro entendeu a mensagem nada subliminar – que ambos detestavam, embora usassem muito - e respondeu à provocação. Indisponível.

E o derradeiro encontro terminou assim:

Luc B. Arquivo pessoal

segunda-feira, 26 de março de 2012

DIA DE SANTO ANTÔNIO

Redentora 2010 DETALHE Solange Palatnik  Brasil Rio de Janeiro 1944 Acrílica sobre tela 70 x 200 cm

"Neste lugar tenebroso, os santos brilham como as estrelas do firmamento. E como os calçados nos defendem os pés, assim os exemplos dos santos defendem as nossas almas tornando-nos capazes de esmagar as sugestões do demônio e as seduções do mundo." (Frase atribuída a Santo Antônio)
Ao longo dos anos, o ritual era o mesmo: No alvorecer do décimo terceiro dia do mês de junho ela acordava cedo, munia-se da imagem do homem franzino em vestes franciscanas, retirada do castigo de trezentos e sessenta e quatro dias no congelador de cabeça para baixo, do terço, companheiro inseparável, e peregrinava para a igreja a fim de renovar as promessas antigas - não alcançadas -, realizar novas e agradecer com devoção por-tudo-que-aconteceu-no-ano-que-passou-amém. Não porque possuísse graças alcançadas a serem agradecidas, mas foram tantas promessas não atendidas que as pagava para que não acumulassem a ponto de gerar com o Santo uma dívida impossível de ser cumprida. E fervorosa como era, entendia que ele veria seus esforços e suas súplicas nesses momentos de devotamento interessado e rogaria por ela. “Bendito Santo Antônio, amigo da penitência, alcançai-me que com voluntários sacrifícios, pague por minhas faltas.” 1
Esperava o ano inteiro pelo Dia de Santo Antônio. E tinha se tornado especialista em simpatias para saúde, dinheiro, achar objetos perdidos e principalmente para encontrar o grande e verdadeiro amor, realizadas especificamente nesse dia. Todas as simpatias, todas as rezas, todas as mandingas, todos os sacrifícios já haviam sido feitos. “Vos rogo, bendito Santo Antônio, que me faças participante das incontáveis misericórdias que concedeis a quantos vos invocam com devoção e confiança.” Mas faltava o Santo rogar por ela. Acumulou, ao longo da vida dedicada à adoração, inúmeras imagens dos mais variados tamanhos e materiais. Das barrocas às modernas estilizadas, de madeira esculpida a gesso ordinário. As imagens que se amontoavam sobre o oratório de imbuia requintadamente entalhado, herança de família, eram o retrado de sua obsessão. Em todos os aniversários, natais, páscoas ou qualquer data – religiosa ou não - recebia pelo menos uma nova imagem. Todos sabiam que era necessário ganhar as imagens, não comprá-las, para que o resultado esperado com as simpatias fossem atingidos. E presenteava, solidária, outras tantas imagens às amigas em situação eufemisticamente “delicada” como a sua. Mentalizava constantemente o aforismo, estampado na capa de seu livro de cânticos, cuja autoria é atribuída a ele: "Quem não pode fazer grandes coisas, faça ao menos o que estiver na medida de suas forças; certamente não ficará sem recompensa."
Seguia os rituais dos Santos porque não tinha outra forma de viver. Juntava as poucas esperanças que ainda restavam e depositava-as, como ex-votos num altar, naquelas imagens, nas orações e nas súplicas que tinham a cada dia menos significado. Vendo suas convicções esmaecerem, renovava suas promessas solenes nas palavras do pároco da cidade, nas confissões, na eucaristia, “no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na Comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna”2 e sobretudo em cada nova simpatia, feita sorrateiramente, esquivada dos olhares repreensivos do abade. “Santíssimo e generosíssimo Santo Antônio. Semeador de milagres, protegei-me com vossa intercessão em todo o curso de minha vida.”
Em dias em o sino da igreja ressoava, anunciando mais um casamento, não mais de suas amigas de infância e adolescência, pois todas já haviam casado, mas das filhas delas, seu corpo todo entrava em frêmito, misto de esperanças renovadas e desesperos reavivados. Não deixava de disputar os buquês nas festas, tampouco deixava de escrever seu nome, com caligrafia esmerada, e pregá-lo na barra do vestido da noiva pouco antes desta subir ao altar. “Oh! Santo Antônio, rogai por nós, para que sejamos dignos das promessas de Cristo”. Mas sabia que algo dentro dela estava minguando pouco a pouco, reflexo dos longos anos completamente sozinha no mundo, e que sua juventude estava se tornando uma vaga lembrança, somente vista no fundo dos seus olhos amendoados e fugidios, de íris cor de mel, emoldurados por longos cílios negros.
Naquele dia de santo, no mês em que completaria quarenta anos de idade, ela não mudou os ritos. Já era habitual nessa época do ano debruçar-se sobre sua própria vida para lamentar seu presente, amargar seu passado e idealizar seu futuro. Iniciaria mais uma novena, como tradicionalmente fazia com seu grupo de orações. Idílica, atravessou a praça, arrastando as sandálias de couro de tiras largas pelo calçamento de pedras seculares das ruas da pequena cidade onde viveu a vida inteira, seguindo o som das badaladas do sino que chamava os fiéis para a primeira missa do dia. Carregava nos braços a imagem de “Toninho”, apelido dado carinhosamente ao Santo, como se levasse uma relíquia preciosa ou um ente muito querido. O livro de orações ia firmemente segurado em uma das mãos. Na outra, carregava o terço enrolado em três voltas no pulso e o véu, com o qual cobriria os longos cabelos opacos e grisalhos, amarrados com esmero em um sisudo coque na nuca. Seus passos eram rápidos e determinados. E apenas nesses momentos era visível um resquício de remota determinação. Na maioria das situações seus passos não eram assim firmes, o que era condizente com sua estrutura franzina, frágil, retraída e insegura. Caminhava com graça, apesar da austeridade e amargura que não conseguia mais esconder nas faces opacas e envelhecidas. Seu rosto tinha traços delicados e bem marcados, o que conferia altivez ao semblante. Seu corpo era bem desenhado. Era possível ver levemente os traços de sua boa compleição através do vestido preto desbotado, longo até abaixo dos joelhos, sem qualquer decote ou adorno.  Vez ou outra a barra rendada da anágua surgia reveladora sob o vestido, quando ela caminhava ou sentava com os joelhos juntos e os pés cruzados firmemente debaixo da cadeira. Existia uma vaga luminosidade, talvez atávica, naquela figura encoberta pela aura acinzentada dos cabelos e do vestido.
Chegou à igreja repleta das mesmas pessoas de sempre, benzeu-se na pia de mármore fazendo o sinal da cruz, prostrou-se de joelhos diante do altar com as mãos postas em oração sobre o rosto e aguardou o início da cerimônia. Esperava que o mesmo pároco sexagenário chegasse, proferindo o mesmo sermão, como fazia há quase vinte anos. As palavras dele já confortaram em algum tempo remoto. Porém, depois de tanto ouvir o mesmo discurso carregado de dor e resignação, o conforto que devia proporcionar havia se perdido na poeira. Ainda assim insistia, porque era proibido desistir, mesmo que em pensamento. A velha culpa cristã. Não era concebível não crer. Ela precisava crer para ver, obviamente. Mas não conseguia ver nada. Mesmo assim rezou um sem-número de pai-nossos, ave-marias, Glória a Deus nas alturas, Creio em Deus Pai e Salve Rainha, segurando o terço com tanta força como se ele fosse sua única salvação.
Enquanto rezava, ainda de olhos fechados, ouviu a movimentação na grande nave, ornada com afrescos do século XVIII e imagens barrocas do século XVI, trazidas de Portugal pelos fundadores da cidade. Ergueu os olhos em direção ao imponente altar de mármore e ouro. Seus olhos cansados custaram a acostumar-se com a luz. Lentamente foi conseguindo identificar a silhueta no centro do altar. Para sua surpresa, não era o antigo padre que conduziria o Sacramento da Eucaristia. Era um jovem alto, forte, pele resplandecente de ébano, sorriso largo, olhos negros, grandes e vívidos, nariz fino e lábios rosados. Aquela presença tirou-a de sua zona de conforto. Acostumara-se a viver todos os dias seguindo a mesma sequência de eventos conhecidos e não estava preparada para algo tão inusitado. Ele saudou os presentes e convidou-os para que em pé iniciassem juntos a cerimônia. Sua voz mansa causou nela um calafrio desconfortável e despropositado. Tentou recalcar todas as sensações. Medo. Culpa. Contrição.
Aos poucos aquela voz suave e terna invadiu seu ser e ela sentiu um conforto que há muito não sentia. Era como estar nos braços de um ser que envolvia e protegia. Era como se estivesse deitada em uma cama de plumas coberta por um manto de pura seda. Era como estar aconchegada no seio materno. Era como estar nos braços do Pai. Esse conforto, no entanto, foi se transformando em uma torrente que causava um formigamento nas extremidades e um calor que subia dos tornozelos à nuca, semelhante ao que sentia quando lia os romances de folhetim na juventude, onde as cenas tórridas de amor entre os protagonistas povoavam seu imaginário erótico. Ela sempre sonhou em ser arrebatada por um sentimento que incendiasse todo seu ser causado por um daqueles homens sedutores, viris e apaixonados dos romances. Ela começou a suar frio e os calafrios percorriam seu corpo inteiro. Suas mãos ficaram tão úmidas que mal conseguia segurar a imagem de Santo Antônio e o terço. Um suor frio percorreu-lhe as costas, da nuca ao coxis. Faltou-lhe o ar. A visão ficou turva. Sentiu-se como se todas as pessoas presentes pudessem ver sua reação, ler seus pensamentos e compreender o que estava acontecendo. Ergueu-se da cadeira abruptamente, sem pedir licença aos que estavam sentados ao seu lado, e saiu correndo em direção à rua, deixando para trás a igreja repleta de fiéis.
Atravessou a praça correndo, sob o sol morno de junho. Sem fôlego, sentou-se em um banco e desenrolou o terço freneticamente. “Poderosíssimo Santo Antônio que livrais dos ataques do espírito maligno a quantos vos invocam, obtende-me a graça de que jamais consinta nas tentações dos inimigos de minha alma. Amém.” Tentou desfazer-se desses pensamentos que julgava impuros e abrandar essas sensações desprezíveis. Não conseguiu. Quando recuperou o fôlego foi para casa o mais rápido que pode, sem falar com ninguém no caminho, como costumava fazer, e trancou-se no quarto. Precisava banir aqueles pensamentos de sua mente. Do escuro do quarto completamente fechado conseguia ouvir a procissão na praça. Cobria ou ouvidos com as mãos e entoava os cânticos religiosos em voz alta, buscando desviar a atenção do que acontecia fora e dentro de si. Mas os sons da rua invadiam o quarto e a voz do padre conduzindo o cortejo a invadia. “Inocente Santo Antônio, zelador da justiça, livrai-me das tentações do demônio, e de todo mal.” A noite caiu e a cidade ficou em silêncio. Vencida pelo cansaço adormeceu, abraçada à imagem do Santo e ao terço.
No dia seguinte não saiu de casa. Amanheceu com o corpo dolorido como se tivesse cometido excessos com alguma substância entorpecente. E talvez fosse. Era ressaca causada pela embriaguez de si mesma. Corroída pela culpa e pelo desespero, não quis ver ninguém. Permaneceu trancafiada no claustro criado por ela própria. Mas seus pensamentos estavam cada vez mais revoltos e insistiam em se libertar. Não comeu, não tomou banho, não viu a luz do dia. Apenas rezava em voz baixa e chorava até a exaustão. Vez ou outra adormecia sentada sobre os joelhos, vencida pelo cansaço e pela fome. Nesses momentos, a imagem do jovem e atlético padre, vestido de branco, mostrando o peito desnudo e vindo em sua direção com o sorriso largo e os fortes braços abertos invadia-lhe os sonhos. Ela acordava sobressaltada, rogava a Deus por clemência, pedia perdão a todos os santos, contorcia-se em cólicas, rasgando suas roupas enquanto rolava pelo chão. “Bendito Santo Antônio, amigo da penitência, alcançai-me que com voluntários sacrifícios, pague por minhas faltas.”
Ao longo dos dias seguintes travou, diuturnamente, batalhas quixotescas contra seus desejos. A tensão entre seus valores e juízos morais, de um lado,  e seus desejos mais íntimos, de outro, estava consumindo-a. Seu desaparecimento causou comentários e alvoroçou a cidade. As pessoas revezavam-se em frente ao pequeno sobrado de pedras onde ela vivia, chamando seu nome e batendo à porta. Ela não abria, tampouco fazia qualquer movimento, a fim de não ser descoberta. O delegado local foi informado do desaparecimento. O repórter da única rádio da região noticiava o curioso e intrigante caso da moça que havia desaparecido sem deixar rastros. Todos se perguntavam sobre o que teria acontecido a ela, que sempre foi previsível, amável, bem relacionada, caridosa e prestativa. As companheiras do grupo de oração fizeram vigílias em frente à sua casa e na igreja. Munidas de boa vontade e enormes velas, rezaram para que ela reaparecesse, pondo fim ao mistério. Os homens da comunidade reuniram-se em grupos para realizar buscas nos bosques e cachoeiras das redondezas, além da distribuição de cartazes com fotos pedindo qualquer tipo de informação sobre seu paradeiro.
No fim do nono dia, após ter realizado todo tipo de penitência, ela estava novamente ajoelhada em frente ao oratório, perante as dezenas de imagens de Santo Antônio, Nossa Senhora, São Sebastião, Santo Expedito, Menino Jesus de Praga, Nossa Senhora de Fátima, uma reprodução em resina da Santa Ceia e um esplendor com o Divino Espírito Santo, a fim de concluir a novena em honra a Santo Antônio. “Vos rogo bendito Santo Antônio, que me faças participante das incontáveis misericórdias que concedeis a quantos vos invocam com devoção e confiança.” A palidez de seu rosto e as olheiras fundas eram o retrato do limiar entre loucura e sanidade. Debilitada, ainda mais magra que o habitual, cabelos que nem de longe lembravam o característico coque na nuca. Suas roupas tornaram-se apenas farrapos imundos que mal lhe cobriam o corpo, sua pele estava arranhada, coberta de hematomas e alguns cortes onde o sangue havia coagulado, deixando marcas semelhantes às representações das chagas de Cristo no calvário. As unhas roídas, curtíssimas, estavam cobertas com uma camada escura de poeira do assoalho arranhado, pele dos braços, pernas e rosto e sangue dos ferimentos que havia causado ao longo dos dias de intensa penitência.
Rezou novamente o terço. Quando estava concluindo Salve Rainha pela última vez, os sinos da igreja anunciaram o início da missa. Os sons invadiam seu corpo como um tufão. Ela caiu sobre o chão, contorcida em espasmos avassaladores. A cada nova badalada seu corpo todo se fechava mais sobre si mesmo. Suas mãos brancas, de dedos finos e longos, percorreram, ávidas e trêmulas, a nuca, os seios flácidos e desceram pelo ventre árido até pousarem crispadas entre as coxas alvas. No ultimo toque do sino, seu corpo todo se contraiu e ela soltou um bramido, misto de dor e prazer. As imagens de sua juventude, dos ensinamentos da eucaristia, do padre paramentado no altar de braços abertos como se fosse um Cristo negro, dos livros de romance da adolescência, dos sonhos perdidos e das ilusões desfeitas misturavam-se em sua mente.  “Ainda não vos havíeis procurado a vós mesmos: então, me achastes. Assim fazem todos os crentes; por isso, valem tão pouco todas as crenças. Agora, eu vos mando perder-vos e achar-vos a vós mesmos; e somente depois que todos me tiverdes renegado, eu voltarei a vós.”3 Então, depois de cessados os espasmos, todos os seus músculos relaxaram, seu rosto foi tomado por uma expressão serena e, exaurida, pode finalmente descansar.
Amém.
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1 Este e todos os demais trechos de orações aqui inseridos foram retirados do site http://www.oracoes.info/,  dedicado à Santíssima Trindade e fazem parte das Novenas ou Trezenas em honra a Santo Antônio.
2  Trecho da oração Creio em Deus Pai.
3 NIETZSCHE, F. W. Assim falou Zaratustra. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 14ª edição.

sexta-feira, 16 de março de 2012

PARA DEPOIS DA TEMPESTADE

“A tempestade” (1913), por Oskar Kokoschka

“Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.”

(Legião Urbana – Daniel na Cova dos Leões)


Algum lugar ao sul do Equador, dia qualquer de março de dois mil e pouco ou dois mil e muito.

Depois que você foi embora pela última vez, tomei banho novamente para apagar as marcas do seu corpo no meu. Nem com toda água e com todo sabonete de lavanda conseguirei me desfazer do seu cheiro em minha pele. Tentei todos os tipos de banhos aromáticos possíveis: alecrim, arruda, alfazema, perfume barato. Tentei incensos, meditação, terço e novena. Tentei outros corpos e o meu próprio. Tentei banho de sol para energizar, de chuva para refrescar, de mar para purificar, de sete ervas para descarregar. Tentei quarto escuro para desabar. Tentei sacristia, bar e divã para confessar. Tentei vodca, gim, tequila e cachaça para desabafar. Mas você não é solúvel em álcool. Tampouco em crenças vãs. Pelo contrário, sua presença é potencializada pelo álcool, pelos blues ácidos, pela voz melancólica quase em falsete de Holiday e pelos sussurros do trompete de Baker. 

Suas marcas permanecerão em minhas entranhas para sempre, talvez. E carregarei essas marcas sem orgulho, sem saudade e sem glória. Desejo – e ao mesmo tempo não desejo - que você se torne apenas uma lembrança remota no meu peito incapaz de amar direito. Quem sabe um dia eu acorde, kafkiano, um inseto e deixe de sentir o que sinto neste momento. Ou ainda, de uma forma mais romântica, cafona e piegas – ao meu melhor estilo – eu saia do casulo onde voluntariamente entrei para lhe esperar e descubra, depois de não ter me tornado uma borboleta e sim uma lagarta mais disforme e mais antiquada, que o que sinto foi uma criação minha e não havia nada a ser esperado. O que sei é que agora você está cada vez mais vivo em mim. Dolorosamente vivo. Queria lhe apagar da minha vida como fui apagado da sua, se é que algum dia estive vivo em você.

Sob a luz do fim de mais um dia inglório, deitado no chão da sala que já abrigou seu corpo envolvido pelos meus braços, fumo mais um cigarro, brindo com mais um gole de café forte e sem açúcar, como você gosta, preparado na mesma cafeteira que nos confortou nas pouquíssimas manhãs sem volta que tivemos. Na vitrola antiga, coloquei o disco que tem aquela música que cantamos juntos, bêbados, lembrando nossa longínqua adolescência, numa das madrugadas insólitas e deliciosamente amorosas que tive ao seu lado, mesmo que você não percebesse isso. Nas paredes agora reverberam os versos: “E o teu medo de ter medo de ter medo / Não faz da minha força confusão.”.  Acho que é isso que queria lhe dizer agora, se pudesse olhar nos seus olhos. Mas o máximo que consigo fazer é tamborilar os dedos na borda da xícara, meio marejado e distante de tudo, enquanto as cinzas do cigarro entre meus dedos maculam nosso chão.

Eu sabia, desde sempre, que viveríamos uma espécie de crônica de uma morte anunciada. E você seria meu Santiago, errático e louco. E eu, não menos louco, contido em mim mesmo, para não explodir em mil pedaços. Sei que você chegou querendo partir. Partir assim sempre fez parte da sua mise-en-scène. E eu querendo que você ficasse aqui. Para sempre. Ou até o dia em que o gigantesco planeta se chocasse contra o mundo precário que criei para você habitar, como no filme do Von Trier que assisti há algum tempo. No dia do anunciado fim, tudo viraria nada e nada seria tudo o que nos restaria.  Ainda assim eu queria que existisse algo forte que nos ligasse, mesmo que isso fosse destruído no dia seguinte. Mas estava escrito no seu roteiro partir dessa forma violenta e dolorosa para todos, principalmente para você.

Você foi uma promessa de algo que nunca será. E eu serei aquilo que jamais deveria ser. Serei o equívoco, o engano, a condenação. Eu poderia usar neste momento um clichê meio Roberto Carlos, que é definitivamente a minha cara, dizendo que você foi o melhor dos meus erros. Não direi. Porque não é verdade também. Não é racional o que sinto. Sei que algo brilhava em mim quando estava ao seu lado, uma força estranha resplandecia no meu peito, embora essa força estranha não me levasse a cantar. Mesmo quando perambulávamos perdidos numa noite suja qualquer de uma cidade incerta que não era nossa. Não tivemos uma cidade, não tivemos um mundo, não tivemos uma vida. Tivemos fragmentos de promessas veladas de uma existência que você negou, porque é um menino acuado, escondido no quarto escuro, vendo a vida pelo buraco da fechadura.

As paredes caiadas do pequeno quarto onde tento (em vão) encontrar uma remota e ilusória paz possuem as marcas do pouco que fomos nós. A cama ainda está quente do seu corpo morno, os travesseiros guardam os fios dourados dos seus cabelos revoltos e os lençóis guardam as marcas do que jamais poderei chamar de “Amor”. Porém não sinto raiva.  E não deixo esses sentimentos de lado numa atitude búdica. Pelo contrário, sou o pior dos humanos. Sou raivoso, vingativo, egoísta. Mas agora simplesmente não sinto raiva. E talvez nem saiba ao certo o que sinto. Resignação, talvez. Pela vida desperdiçada, pelo amor que não aconteceu, pela inevitável dor e pela inexorável perda.

Estou ainda sob efeito dos excessos de ontem, que serão os mesmos de hoje e talvez os de amanhã. Não consigo saber até quando essas falhas de minha personalidade perdurarão. E lhe confesso isso porque você sabe melhor que eu que abandonar velhos hábitos é difícil para pessoas como nós. Eu fui a prova, na sua vida, de que você só sabe sucumbir aos seus desejos verdes, primários e egoístas. Não estou longe disso também. Por isso não lhe julgo, apenas comungo da dor que sei que, lá no fundo, você sente.

Resta-me agora fazer o que sempre faço, após minhas catástrofes pessoais: juntar, não sem dor, os poucos pedaços que reconheço e reinventar minha própria vida. Não lhe digo isso para que sinta pena, nem para servir como exemplo para você. Pelo contrário. Não acho nem muito digno o que decidi fazer. Faço isso porque é só o que me resta. E nem sei por que digo isso agora. Seguirei em frente, errando como de costume, mas tentando errar melhor. Não há como voltar atrás e não vejo outro caminho a não ser seguir em frente.

Quero lhe desejar uma existência feliz, onde quer que esteja, e da forma que escolher. Quero que tenha caminhos serenos e que suas escolhas sejam acertadas. Queria poder lhe abraçar com força descomunal, como se pudesse arrebentar com os braços toda defesa que existisse e que pudesse nos afastar. Queria poder lhe querer sempre e muito. E bem do fundo, desejo que você queira a si próprio da mesma forma.

Carinho imenso,
.
 ______________________

* P.S.: Coloquei esta carta num envelope, lacrei, selei e não postei. Abri, reli e decidi não enviá-la. Um dia, quem sabe, você saiba da minha própria boca o que senti, quando nada disso fizer mais sentido algum ou quando eu encontrar um sentido real para tudo. Quem sabe encontre esta carta, amarelada pelo tempo, perdida no meio de um livro velho de Tolstói, porque ando meio Greta Garbo, a Ana Karenina no filme de 1935. E numa grande associação livre, lhe vejo agora um tanto Fredrich March, o Conde Vronski do mesmo filme. Além disso, as frases “as famílias felizes são todas iguais; as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira", que iniciam o livro, não me saem da cabeça. Quem sabe você encontre o envelope já meio amassado, como se fosse uma garrafa jogada ao mar contendo um bilhete, para quem sabe ninguém e quem sabe nunca mais. Ou a quem possa interessar. 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

EU NÃO SEI DANÇAR



[Para ler ao som de Over My Shoulder – Mika]

“Me vejo o tempo todo

Começar de novo
E ser e ter tudo pela frente”

(Leila Pinheiro – Abril)

Você chegou dançando bonito. E eu meio bobo, desajeitado, parecendo um boneco articulado sem vida e sem ritmo. Um Pinóquio equivocado, sem Gepeto. Desengonçado, sem saber onde colocar as mãos e sem encontrar um lugar onde pousar os olhos que não fossem os detalhes do seu corpo deslizando no ar em minha frente, realismo fantástico de Fellini. Seus quadris seguiam o ritmo da sua alma. E a minha alma nunca mais seria a mesma depois desse dia. A música não vinha de fora, ela vinha de dentro de você, e não importava que música era. Você dançava o universo todo. E eu lá, parado, vendo você se mover pelas estrelas, querendo lhe acompanhar nessa sua dança bonita. Queria entrar nos seus quadris e ser envolvido pelos seus braços e me perder nas suas coxas. Queria dizer algo. Não conseguia. Porque além de não saber dançar eu não sabia falar. Hesitei. Acendi mais um cigarro e pedi outro conhaque. Aprendi, a duras penas, que às vezes é preciso dar um passo para trás para recuperar o fôlego e conseguir impulso para seguir em frente. Aprendi, também, que isso nem sempre funciona. E eu ficaria nesse dilema entre segurar você pela cintura e dançar a sua dança ou tomar meu conhaque num único gole, que bateria como um soco no meu estômago vazio, e ir embora pela mesma porta por onde entrei. “Feels like I'm falling, far out of sight, cold, drunk, tired, lost…”

Preferi seguir o caminho que julgava ser o meu, mesmo sem saber para onde iria. Mas você não me deixou. Você veio comigo, mesmo tendo ficado lá, na sua dança envolvente. Eu saí pelas ruas escuras impregnado de você. Sua vida é tão diferente da minha. Você tem uma vida. E eu querendo encontrar a minha própria, nas linhas da sua mão que nunca toquei. Eu precisava seguir esse caminho que escolhi, com minha pesada bagagem sobre os ombros, mesmo sem nunca saber ao certo por quais motivos continuar. E é mesmo destrutivo demais insistir sem fé alguma. Eu trouxe você comigo, e você nunca saberá disso. Eu sei, meus olhos me denunciaram, meu sorriso meio amarelo me denunciou, meu ar desacreditado me denunciou. Depois de muito tempo ausente, eu sabia que era hora de voltar para a casa vazia de mim, que havia abandonado para buscar outras coisas que nunca descobri o que eram exatamente. Sobre essas coisas desconhecidas, eu tinha apenas o sentimento de que existiam e que estavam ao alcance da minha mão, como uma fruta madura no pé, pronta para ser colhida. Só que eu fiquei cego com a luz do dia. “Fog out my daylight, torture my night...”

No escuro, procurei as chaves, abri a porta e larguei a mala cheia de lembranças das batalhas contra o Rei e das discussões com Deus. Um cheiro conhecido de um passado perdido envolveu meu ser inteiro. Tudo estava igual, mas nada era como antes na casa vazia de mim. O som retumbante das minhas velhas botas contra o chão de madeira era o único indício de vida. Há tempos eu somente me percebia vivo se fizesse algum barulho. E eu estava cada vez mais em silêncio. Até ver você dançando. Você reverbera em meu peito. Como num holograma, você se surgiu no meio da sala, olhos negros e brilhantes, cabelos desalinhados, a camisa branca meio desabotoada, aquele jeito de quem vai me abraçar forte e para sempre e que vai me fazer sentir que tudo ficará bem. Nada me protegia da vida e nada me protegeria de você. Eu sabia que não devia ver você andando pela casa, dançando ao meu redor como num ritual. Mas já era tarde demais para eu fugir. Eu já tinha mais de trinta e já tinha perdido a inocência. Havia aprendido que nada me faria fugir do que eu realmente queria. 

Vendo você dançar para mim essa sua dança ritualística eu me desfiz das minhas roupas sujas de lama, sangue e tristezas, trazidas das longas viagens, e tentei dançar com você pela casa. A lama que minhas roupas carregavam encobria uma ou outra medalha de honra pelas poucas vitórias sem glória alguma. Até encontrar você eu achava que voltaria para meu refúgio sagrado, que conseguiria retornar para meu bunker e finalmente me conectaria com minha verdade, com aquele elo perdido que seria a chave para que eu me identificasse novamente como humano.  

Você me mostrou um mundo tão diverso do meu, tão colorido e intenso. E eu nunca conseguirei dizer que sou grato por você ter transformado minha vida, porque você nem sabe que eu existo. Nem eu mesmo sei se existo. Achava que existia pelos sons das minhas velhas botas, ou pelos meus gritos sufocados no travesseiro nas infinitas noites estreladas que atravessei sozinho. Agora sei que existo porque você dança para mim, na minha mente e no meu peito. E eu danço pela casa a sua procura, completamente despido de tudo, meu corpo pálido e nu reluzindo contra a pouca luz da noite que entra pelas frestas das janelas é um resquício de existência, vaga e fria, um pequeno indício de que ainda pode existir alguma vida em mim. Aqui dentro você vai estar sempre rodando e movendo os braços como se eu pudesse lhe abraçar forte. Descobri, finalmente, o que é o amor. E ele é uma grande ilusão. Mas não se pode ter tudo na vida. Me ensina sua dança?




domingo, 5 de fevereiro de 2012

CINEMA E BARBITÚRICOS

Carmella Jarvi

[Para ler ao som de Beirut : ‘Elephant Gum’]

Trajando sua habitual camisola longa de algodão branco, com bordados delicados na gola e nos punhos, ela flanava pelo quarto. Os cabelos vermelhos e cacheados pendiam até a cintura e encobriam parte do rosto delicado e pálido como porcelana. Seus passos inaudíveis eram agitados, como se seus pés alvíssimos não tocassem as madeiras velhas do assoalho.

Através da alta janela, com sacada debruçada sobre o jardim interno, entrava a luz fraca do entardecer. Essa luz se confundia com a da televisão sem som, onde as cenas finais de um filme antigo eram exibidas para ninguém. O quarto estava imerso em uma penumbra e um silêncio sepulcral. Ela estava inquieta. O branco de sua camisola parecia reluzir, quando iluminado pela luz vespertina. Abriu todas as portas dos armários, pegou uma velha mala de couro caramelo, forrada de cetim carmim estampado, e jogou-a sobre a pequena cama de ferro. As molas do colchão rangeram com o gesto abrupto.  Após, revirou gavetas e jogou suas poucas roupas sobre a mala de forma desordenada. Fechou-a como pode e colocou-a junto à porta. Retornou para a escrivaninha. 

Em meio a fotografias antigas de família e de atrizes de cinema dos anos 40 e 50, pegou um bloco de papel e um lápis de uma gaveta. Balbuciando palavras soltas, bradou com raiva: “Jamais sentirei fome novamente. Então, tá. Quando sobem os créditos é hora de enxugar as lágrimas. Não importa ter visto o filme mais de vinte vezes, sempre choro. Eu também sei levantar de uma queda. Mesmo que isso seja apenas mais uma ilusão que criei para sobreviver ao seu lado, meu querido”.

Sentou-se encolhida aos pés da cama e pôs-se a escrever no pequeno bloco: “Decidi ir embora para sempre. Juntei memórias, dores, desilusões, maquiagem, valise e coragem enquanto não vinhas. Tudo que ainda tenho, tudo que me restou, coube em uma pequena mala. Por mim, podes guardar todas as sobras do que fomos nós. Retornarei ao meu lar e pensarei numa forma de tê-lo de volta! Afinal, amanhã é um novo dia. Não me indagues pelos motivos que tive. Apenas sei, no fundo da alma, que esta é a única atitude que posso tomar agora.

Estas terras cultivadas por nós, meu caro, não me servem mais. Tornaram-se inférteis. Estéreis como o nosso amor. Sairei da tua vida para entrar como um soco nas tuas lembranças. Um dia estarei tão apagada em teu coração que mal lembrarás meu nome. Não quero me despedir de ti, não quero olhar nos teus olhos. Quero apenas desaparecer da tua vida, se é que isso é possível, e ir para minha terra estimada, terra de paz, terra de gozo.

Aqui neste lugar, entre estas paredes opressivas, mesmo com estas grandes janelas e com este pé direito tão alto, mesmo podendo ver do balcão toda a imensidão das nossas terras, eu sempre fui uma estrangeira. Este nunca foi o meu lugar. Fui uma estrangeira na tua casa, um fantasma na tua vida. Nunca fui vista, nunca fui notada, nunca fui reconhecida. Quero deixar estes versos, retirados de um livro que estou lendo, como uma recordação minha. Eu sou isto agora, nada mais:

“Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada... a dolorida ...”  [*]

Jamais sentirei fome novamente. Minha fome insaciável é de amor, fome de viver cada gesto, cada palavra, cada alegria, cada tristeza. Queria que tudo isso fosse contigo, meu querido. Mas tu andas tão ausente! Não tenho notícias tuas, não sei se foste para a guerra. Nem sei se a guerra já acabou. Quando penso em tudo isso fico tão triste, como se quisesse viver e não conseguisse. E na verdade não vivi. Mas sei, lá no fundo, que conseguirei viver. Ainda posso ser eu mesma, apesar de estar sem ti.

Como diria o poeta, “um erro em bronze é um erro eterno”. Não quero que nossa vida seja um erro em bronze. Não quero essas marcas indeléveis no meu peito, essas marcas que deixaste em meu rosto e em minha alma. Deixo tudo para trás. Mesmo que esta carga dramática toda seja apenas para rimar e ficar bonito nesta carta que deixo agora para ti, meu querido Rett. Mesmo que me olhes com desdém e digas que não dás a mínima. Quando leres esta carta, provavelmente estarei longe daqui.

Da sempre sua,

Scarlett. ”

Após concluir a carta, arrancou as folhas do bloco, pegou uma rosa que estava em um vaso na cabeceira da cama, beijou-a e colocou-a junto a carta dobrada sobre o travesseiro de plumas. Pegou rapidamente a mala que estava junto à porta e saiu do quarto, entrando em um grande corredor escuro, de onde era possível apenas ver um ponto de luz ao fundo.

Ela foi em direção a essa luz, atravessou o hall ornado de espelhos bisotê e abriu a grande e ruidosa porta nacarada da entrada. O barulho da porta sendo aberta ecoou por toda a casa. Quando estava atravessando o jardim, porém, ouviu algumas vozes que gritavam seu nome. Apressou o passo, na tentativa de atravessar o portão de entrada. Mas quando chegava ao portão, um grupo de homens a alcançou. Ela jogou a mala contra eles, na tentativa de barrá-los. Porém, foi imobilizada por um grupo de quatro homens, todos trajando jalecos brancos, e foi levada para a enfermaria, onde foi sedada mais uma vez. A mala ficou esquecida no jardim naquela noite, suas camisolas e fotos antigas de Vivien Leigh e Clark Gable espalhadas pelo jardim. E ela esquecida para sempre sobre a cama de um quarto com janelas gradeadas do manicômio judiciário.

Vez ou outra, todos são acordados com os gritos de socorro a Rett Butler e com os brados, com o punho cerrado contra o nada, como se ainda segurasse o punhal ensangüentado com o qual ceifou a vida de seu marido: “Rett, querido, venha me encontrar. Venha me salvar. Onde, Deus, queira que você esteja, venha! Acho que cometi um assassinato, mas não vamos pensar nisso hoje, só amanhã. Eu vou viver com isso e quando tudo acabar, eu jamais sentirei fome novamente. Se eu tiver que mentir, roubar, enganar ou matar. Como Deus é minha testemunha, eu jamais sentirei fome novamente.”
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[*] “Eu”. Florbela Espanca, Livro de Mágoas, 1919.




quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

PEQUENO RETRATO

Luc B.: Calles de Buenos Aires, 2011.

Depois que você foi embora, a cidade virou um imenso cemitério. Está tudo do mesmo jeito, mas nunca mais nada será igual. Você era minha única referência afetiva neste lugar. Depois de ter você, para que servem as ruas? Protelei o quanto pude este momento. Mas hoje, depois de ficar um tempo impossível de ser contado deitado inerte sobre o tapete que tantas vezes foi nossa cama, neste quarto que tantas vezes foi nosso reino, olhando para o teto que tantas vezes nos protegeu do mundo exterior, resolvi remexer nos baús de nossas memórias. Precisava organizar minhas lembranças, colocar para fora o que estava me atrapalhando de continuar meu caminho e você de continuar o seu. Onde quer que você esteja, espero que seu caminho seja doce, seja bonito, seja iluminado. Assim como tenho tentado tornar iluminados os meus dias sem você. Mesmo tropeçando, mesmo indo por caminhos escuros ou pedindo ajuda para as pessoas erradas, mesmo fingindo que você está aqui e que poderá voltar para me salvar.

Peguei mais uma taça de vinho, meu companheiro depois que você se foi, sentei-me no chão e comecei o doloroso trabalho de deixar você partir definitivamente, embora eu saiba que você nunca sairá de dentro mim. Sempre restará seu cheiro no meu travesseiro, seus carinhos na minha pele e seu abraço envolvendo minha cintura, um pijama esquecido no armário, a escova de dente escondida dos olhos no fundo do armário, um pé de meia solitário, abandonado e inútil num canto da gaveta, a aliança que usávamos guardada no fundo da carteira, uma fotografia em um canto qualquer, físico ou virtual. Engraçado como a gente esquece determinadas coisas. Acho que deixei rastros seus por todos os lugares, como migalhas para que eu não me perdesse pelo caminho.

Deixei sinais seus espalhados pela casa para que não me perdesse de mim. Guardei um sem-número de coisas nossas, pequenas, aparentemente insignificantes. Encontrei o último cartão que tinha para você. Eu deveria tê-lo entregue na última vez em que nos encontramos, alguns dias antes de você desaparecer. O cartão deveria acompanhar o presente que lhe entreguei. Ele estava em branco e eu sem vontade de escrever. Então, não lhe entreguei o cartão, só o presente. Lembro que ainda comentei, em tom irônico, que daquela vez não haveria cartão, que não tinha escrito nada porque não tinha nada a dizer. Ele ficou esquecido numa gaveta, em branco.

Hoje o cartão é a representação de tudo que não tive tempo de lhe dizer. E queria dizer tanto! Lembro que nessa oportunidade você me deu uma imagem de Buda esculpida em madeira, que hoje ela enfeita minha sala. Para cada lugar que olho aqui tem algo que me lembra você e a vida breve e intensa que tivemos. Minha casa, a casa sem jardim que um dia eu quis que fosse nossa, tornou-se uma espécie de templo de nós dois. Uma das inúmeras marcas indeléveis que você me deixou. Não sei o que foi feito das memórias que você tem (ou tinha) de nós. Mas acho que a vida, o destino e essas forças externas tão fortes que levaram você daqui, trataram de apagar minhas memórias em você. Mas não importam essas coisas. O que importa é que dentro de mim você ficou.

Hoje é o dia em que relembro sua chegada, neste mundo e em minha vida. Há alguns dias atrás relembrei o dia de sua partida deste lugar, não da minha vida. Daqui a alguns dias será o dia em que eu cheguei, neste lugar e em sua vida. Em um breve intervalo de tempo minha vida será revisitada a partir dessas lembranças. É estranho como o tempo existe dentro de mim. Você se foi e depois chegou. E eu cheguei depois de você ter partido. E no então, estamos todos aqui o tempo todo. Chegadas, partidas, ausências e permanências são partes de um mesmo todo cíclico e complementar. É mágico, não? A vida é mágica e interessante.

Encaixotando imensas recordações impressas em pequenos mimos que trocamos, encontrei um livro de Fernando Pessoa que lhe dei. Entre as páginas havia um bilhete com a minha caligrafia, dedicado a você. Nele transcrevi o trecho: “[...] de tão interessante que é a todos os momentos, / A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, / A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair / Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas, / E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos.” Esse bilhete foi escrito num bloco de notas qualquer, na mesa da cafeteria onde nos encontrávamos, enquanto esperava você chegar, acompanhado por um café forte e sem açúcar. Nas semanas seguintes, você recostava sua cabeça dourada no meu colo e deitava seus olhos amendoados nas páginas do livro, enquanto recitava trechos para mim, com sua voz mansa e profunda, quase em falsete, entre goles de conhaque e acordes de Coltrane.

Ecoa agora pelo quarto a música Los Paraguas de Buenos Aires. Anja Stöhr, que você adorava, inunda minha alma: “Y cruza lluvias de hace mucho tiempo: / la que al final mojó tu cara triste, / la que alegró el primer abrazo nuestro, / la que llovió sin conocernos, antes.” Em uma caixa de madeira que você me presenteou com trufas, encontrei dois cartões do metrô de Buenos Aires que utilizamos. E olha a grande coincidência: no verso, o bilhete está datado de um ano atrás, exatamente no dia em que nos conhecemos. Junto com eles, fotos que você tirou de mim e outras que eu tirei de você pelas ruas da capital porteña, flagrantes de quando você não estava prestando atenção. Não chovia naquele dia em Buenos Aires e sua cara era de felicidade. “Na fotografia estamos felizes”, diria Chico.

Assim como você, carrego um pequeno retrato seu na carteira. Um recorte de um desses momentos especialmente mágicos que a vida nos presenteia vez ou outra. Tínhamos apenas o pacto de vivermos intensamente o amor enquanto fosse possível. E cumprimos. Por isso quero dizer a você (e sei que você poderá receber meu recado) que continuo cumprindo o que combinamos. Ainda tento sorrir, busco migalhas de alegrias fugazes e cotidianas, tento amar intensamente até o fim. Mesmo não sabendo para onde estou indo, eu vou até o fim. Ainda quero ver o brilho nos olhos das pessoas, como vi nos seus doces e tristes olhos amendoados, sentir meu coração batendo forte, sentir-me vivo. Assim manterei você vivo dentro de mim. Assim cumprirei para sempre nosso pacto de amor humano, intenso e finito.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

SOBRE ALMOFADAS

Lucian Freud: Rose 1990 Oil on canvas 50.2 x 61 cm    19¾ x 24"

[Para ler ao som de Nancy Sinatra: "Bang Bang"]

"Sempre haverá momentos em que duvidaremos se nossos amados existem na realidade como os imaginamos em nossas mentes - ou se não são apenas uma alucinação que inventamos para impedir o inevitável colapso sem amor."

(Alain De Botton)

Bang! Bang! He shot me down. Bang! Bang! I hit the ground. Alguém batia à porta. Isso causou nele um estranhamento desconfortável. Há tempos ninguém chegava tão perto do batente de sua porta. E ele havia desaprendido a reagir a essas situações inusitadas, como receber visitas inesperadas ou ter alguém sentado em seu sofá, recostado em suas almofadas. Não sabia ao certo quem estava batendo. Em seu coração, porém, aquela série de socos secos de punhos cerrados contra a madeira da pesada porta de imbuia de duas folhas, ornada de arabescos pintados de preto, reverberavam como ecos no vazio de seu peito árido. Na vitrola antiga a voz de Nancy Sinatra rasgou o ar, derradeira e melancólica: “Bang bang, my baby shot me down...”

O chiado característico do vinil cessou. Ele atravessou o corredor até o hall sem fazer ranger o assoalho de tábuas velhas. Sentiu a presença vagamente conhecida do lado de fora. Era capaz de ouvir o som familiar daquela respiração pesada, da mesma forma que conseguia ouvir as batidas do seu próprio coração reverberando nas paredes do sobrado impregnadas de memórias. Um cheiro de sabonete de lavanda, que não sabia se vinha do seu próprio corpo ou do outro lado da porta, exalava por todos os cantos, trazendo-lhe uma sensação de lar há muito perdida. Em pé, inerte e em silêncio, pensava nos motivos que a vida, o destino ou Deus teriam para colocá-lo naquela situação outra vez. Por que bateriam à porta novamente? Ergueu a mão. Hesitou, porém, e não conseguiu levá-la à maçaneta de bronze.

Chaves e trancas há muito não faziam parte de sua vida. Apenas havia dado as costas para a porta entreaberta, sem trancá-la, porque não queria ver aquele ser, em quem depositou suas melhores esperanças e lembranças de amor, ir embora para sempre sem que pudesse evitar. Sabia, em seu íntimo, que poderia ter feito algo. Poderia ter chorado, gritado, se jogado no chão aos prantos e pedido para que ficasse, sem carinhos, sem cobertas, no tapete atrás da porta. Poderia ter pedido para que o outro mudasse de ideia, mesmo sabendo que seria em vão. Mas não fez. E jamais faria porque é orgulhoso. Engoliu seu pranto, sufocou a mágoa e canalizou sua dor em lides cotidianas. Ele não se permitiria chorar na frente de alguém, demonstrar fraquezas ou transparecer necessidades. Mesmo sendo necessidades tão intensas e vitais quanto essas.

Já eram suas velhas conhecidas as dores da vida que havia escolhido. Não tinha remorso, não carregava arrependimentos. Tinha a consciência que amor era projeção e que tudo na vida era ilusão, em última instância. Mas sempre havia uma fagulha de luz, lá no fundo. Um sopro de lucidez que o trazia à tona dessa deliciosa nuvem que era o amor. Mas se ele fosse perguntado se preferia viver a realidade ou uma grande ilusão de amor, mesmo que consciente, sempre escolheria o que o amor proporcionava. Sentia plenamente que não importava onde pudesse chegar, desde que o amor fosse o caminho. Precisava manter uma certa "fé precária na espécie" como disse um certo escritor em uma passagem de um livro qualquer que chegou às suas mãos por acaso. E essa fé na espécie era amor. Tinha uma necessidade imensa de acreditar nas ilusões da vida para ultrapassá-las sentir-se vivo.

Vivo e aconchegado. “Amar é recostar-se em almofadas”, dizia em momentos de emoção de bourbon. Para ele, elas eram sinônimo de carinho, de afeto, de aconchego. O amor era, em si, uma almofada, em sua ingênua e romântica concepção. Tinha consciência que essas almofadas, com as quais se cercava e se protegia, eram quimeras. Sabia que se apaixonava pela necessidade que tinha de descansar suas costas doloridas das sovas que a vida lhe dava. E isso ara puro desejo. Amava, portanto, o amor que sentia. Ou mais: amava a possibilidade do amor que podia vir a sentir. Narcisismo, alguns podiam julgar. Ficava pensando nos motivos pelos quais suas relações não davam certo, porque as pessoas se desencontravam antes de se descobrirem. Talvez fosse porque elas não necessitavam amar o amor. Então, aquela pessoa que estava ali, talvez amando, não era o correspondente desse sentimento anterior a ela. Uma delas, pelo menos, não necessitava dessa almofada.

A porta estava destrancada e aquele que chegara sabia disso. O caminho, depois de transposto o obstáculo de negros arabescos, era conhecido e ambos sabiam o que deviam fazer. Num misto de medo e desamparo, porém, ele retornou ao interior do sobrado. Na sala, espanou e afofou freneticamente as almofadas indianas coloridas, sacudiu as pesadas mantas artesanais dos sofás, posicionou melhor sua bergére de veludo verde musgo em direção à luz que entrava pela janela. Rapidamente tirou as cinzas de incensos da pequena mesa nacarada de centro, arrumou as imagens de Shiva, Buda e Nossa Senhora, acendeu uma vela aromática e um incenso, deixando o ambiente pronto para receber quem chegava ou simplesmente para realizar uma ação habitual qualquer, a fim de desviar a atenção dos rumores cada vez mais intensos e incontroláveis que ecoavam dentro de si.

Mais três socos secos ecoaram pela casa, vindos da porta. “É o amor outra vez, veio sem me avisar”, soprou Bethânia em seu ouvido. Seu coração disparou. Não sabia o que fazer. Foi para a cozinha. Encheu de água a chaleira de cobre e colocou-a no fogo. Do armário pegou um vidro com chá de hibiscos e outro com lascas de gengibre desidratados. Em uma bandeja arrumou com esmero duas xícaras de porcelana ornadas com delicadas gueixas e uma tigela com damascos desidratados e amêndoas. No bule, decorado com os mesmos motivos das xícaras, colocou porções das pétalas de hibiscos e de gengibre.

Os sons vindos da porta cessaram. Por breves instantes foi possível ouvir o tempo ruindo através das paredes caiadas. O silêncio da casa foi cortado pelo apito da água fervendo na chaleira. De costas para a porta que dava acesso ao hall de entrada, observava as flores que explodiam em cores no jardim interno do sobrado, emolduradas pela janela cinza da cozinha. Desligou o fogo e despejou a água fervente no bule. Então, um súbito arrepio frio percorreu-lhe a espinha partindo da nuca, seguido por um calor que se irradiou por todo o corpo, do plexo solar até as extremidades. A cozinha foi invadida pelo cheiro adocicado de lavanda misturado ao de hibiscos do chá recém preparado. E sentiu-se, finalmente, abraçado e aconchegado pelas almofadas que lhe eram tão caras. “Remember when we used to play? Bang Bang, I shot you down.”


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ALEGORIA DE ANO NOVO

Katshusika Hokusai.  The Wave.  c. 1830.

“Llegaras mañana
Para el fin del mundo
O el año nuevo
Mañana te mato
Mañana te libro
Estoy adelante ya no
Ya no tengo miedo
Mañana te digo que el amor
Que el amor se ha ido”
(Lhasa de Sela – Para El Fin Del Mundo O El Año Nuevo)


Eu já tinha pulado as sete ondas. Calça dobrada até o meio da canela, salpicada de areia, a barra molhada, a camisa desabotoada. Estava exausto de fazer contagens regressivas e de receber de peito aberto e alma limpa um ano que fosse realmente cheio de todas aquelas coisas que mentalizava, enquanto tomava o banho de ervas, me vestia de branco dos pés à cabeça e me jogava no mar à meia noite. Já havia comido as sete uvas, as romãs e as lentilhas e guardado as sementes no bolso da calça. Já havia bebido a mistura de alecrim, alfazema, louro, sálvia, manjericão, frutas, cidra e mel, porque alguém disse que daria sorte também. Talvez não para o meu fígado. Se é verdade que tudo isso funciona eu nunca saberei, mas realizei esses rituais.

Em postura de lótus sentei-me na areia, voltado para o mar, quando finalmente findou a maratona que exige que sejamos espiritualizados, bem relacionados, felizes e desapegados, que perdoemos nossos inimigos e beijemos nossos algozes, além de desejarmos coisas boas, grandiloqüentes e positivas a todos, indistintamente. Desejos nos quais, bem lá no fundo, nem nós mesmos acreditamos. Cansei de sorrir e, quase entre lágrimas, rogar para que o novo ano fosse maravilhoso para quem cansou de ter esperanças, que fosse o melhor de todos para quem perdeu tudo, que fosse de sorte para quem nunca quis arriscar nada na vida, que fosse repleto de amor para quem jamais será capaz de reconhecê-lo quando encontrá-lo, que fosse de saúde para o moribundo crônico, de riqueza para o irremediavelmente miserável e de felicidade para o infeliz por escolha pessoal. Cansei de desejar “todas as coisas boas do mundo” para as pessoas que cruzavam meu caminho, como se fosse possível existir no mundo – e fora dele – disponibilidade suficiente do que desejei neurótica e exaustivamente aos quatro ventos nesses dias. Não que tenha sido inautêntico com as pessoas, foram desejos sinceros no momento. Só que sinceridade nem sempre anda de braços dados com a lógica. Não há felicidade para todo mundo, assim como não há recursos suficientes para tornar todos saudáveis, ricos, bem alimentados e bem amados. A realidade é triste: nem todos serão felizes. E mais, suspeito que talvez eu não seja um dos felizardos dessa loteria. Mas fico meio anestesiado nesta época, quando sou tomado de assalto por um sentimento de amor externo a mim. Inconsciente coletivo? Catarse coletiva! Alienação coletiva!

Restavam em mim uns poucos desejos e pensamentos positivos, depositados num ramo de rosas brancas embebidas em mel e perfume, ofertadas no mar à Iemanjá. Na hora não pensei muito no que estava fazendo. Era mais um dos rituais irrefletidos desta época caótica. Será que ela saberia que aquelas flores eram minhas? Será que deveria ter colocado um cartão com meu nome completo ou um “De: / Para: / Por favor, me atenda. Com carinho.”? Será que eu precisava ter jogado tudo aquilo no mar para ela saber o que eu desejava intimamente? Não bastaria ter uma conversa, à noite, deitado na cama, na hora das minhas orações? Dizem os entendidos no assunto que se a oferenda volta para a beira da praia logo depois de entregue é porque o orixá não aceitou. Tive medo. Joguei as rosas brancas no mar e saí sem olhar para trás. Não suportaria ser rejeitado. Mas depois pensei que a ressaca traria tudo de volta para a praia, invariavelmente. E amanhã de manhã haverá um monte de restos espalhados na contramão, atrapalhando o trânsito. Senti-me egoísta, porque pensava em agradar Iemanjá para que ela me concedesse o que desejo e nem me preocupei com a aquela velha onda direitista politicamente correta de preservação ambiental encharcada de culpa cristã. Iemanjá, me ajuda a ser menos egoísta e menos neurótico no próximo ano?

Pensei em  oferecer também uma garrafa de espumante junto com as flores. Mas achei que ela não diferenciaria champanhe de cidra ou que não faria diferença um ou outra. Ou ainda, que ela devia gostar mais de cidra, afinal era o que todo mundo oferecia. Então preferi sentar na areia, sozinho como sempre, olhando para o mar sem fim desta noite estrelada de ano novo, com minha única e suada garrafa de Moët & Chandon, oferecer alguns goles para Iemanjá e outros - mais generosos - para mim, no gargalo mesmo. Acho que ela me acompanhou naqueles breves momentos. E acho que ela esteve por lá, me observado e quem sabe me guardando.

Não sei se ela atendeu aos meus pedidos, porque não sei claramente o que pedi. Acho que fiz pedidos grandes, vagos. Não do tipo “acabe com a fome na África” e “traga a paz no mundo”, mas algo menos particular que especificidades das minhas próprias tristezas e asperezas. Porque me sinto meio ridículo pedindo coisas muito pequenas do tipo “me traga um amor, o emprego dos sonhos e me faça emagrecer dez quilos”. Não que eu não precise emagrecer, ter um emprego melhor e um amor ou que não queira ver o mundo em paz e as pessoas sem fome. Seja como for, na hora não sabia o que seria digno pedir porque não havia me programado para pedir nada. Só sabia que queria que fosse algo para mim e para todos. Ou se não para todos, pelo menos para alguns que são importantes na minha vida e de cujos rostos recordaria de pronto sem precisar pensar muito.

Sabe, acho que Iemanjá me atendeu. Por isso você chegou tão de repente. Foi ela quem lhe trouxe. Do mar, talvez. Eu podia ter pedido para que ela me trouxesse alguém ou que me trouxesse você de volta do passado ou do futuro. Mas acho que nem precisei pedir. E você veio, vestido de mar, trajado de branco, envolto em linho, nessa calça larga e nessa bata indiana de cambraia bordada, mostrando parte do peito nu, os cabelos ralos e dourados em desalinho, seus finos e brancos pés descalços molhados e quase desaparecidos na areia fofa, esse ar despretensioso, lento, altivo e levemente arrogante de quem sabe o que quer. E eu deixei você ficar, porque você chegou de mansinho, sentou ao meu lado, estendeu a mão pedindo um gole da minha Chandon e em troca me abraçou docemente. Você não disse nada, você nunca diz nada. E nem precisa dizer. Seus olhos tristes e sua pele cheirando a lavanda já me dizem tudo. Consigo ver seu passado todo através dos seus grandes, profundos e escuros olhos marejados e das marcas no seu rosto queimado de sol. Você pode permanecer calado porque eu sei quem você é e eu já lhe esperava, embora você seja uma projeção minha, a representação de todos os meus desejos mais secretos. Mesmo você não existindo de fato, porque eu criei você para este Ano Novo, você veio para me fazer companhia nesta noite vazia de mim. Então, façamos um brinde a tudo o que inicia a partir deste momento. Porque agora que você chegou, tenho certeza que Iemanjá aceitou minhas flores.