segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SOBRE O LIVRE EXERCÍCIO DO AFETO

[Para ler ao som de Nina Simone - Feeling Good:


“Todo mundo se apaixona, ama e sofre por amor; todo mundo tem projetos de vida que luta para realizar.”
(Marcelo Laffitte, sobre o filme Elvis & Madona)



Sábado. Noite meio morna de primavera. Nem fria, nem quente, nem nublada, nem estrelada. Lendo o jornal, descobri que estava em cartaz na cidade o filme Elvis & Madona, do diretor Marcelo Laffitte, com Simone Spoladore e Igor Cotrim. Tentei encontrar alguém que quisesse me acompanhar ao cinema. Em vão. Resolvi, então, assumir que sim, ando meio só. E sim, tenho que aceitar. Sem drama. Nessa noite incerta de primavera resolvi fazer um daqueles programas “a um” que andava meio desacostumado a fazer. A gente desaprende a ser só.

Cheguei à bilheteria vazia, comprei o ingresso e matei tempo até o horário da sessão. Jantei tranquilamente, tomei um café, fumei um cigarro. Dirigi-me à entrada do cinema alguns minutos antes, a tempo de comprar pipoca e algo para beber, como manda o figurino, imaginando que a fila seria considerável e teria dificuldades para encontrar um bom lugar. Para minha grata surpresa e regozijo espiritual a sala estava completamente vazia quando cheguei. E assim permaneceu. Tive uma sessão exclusiva só para mim. Êxtase puro!

Confesso que sou meio neurótico com essas coisas de público, principalmente em cinemas. Mas não tenho ágorafobia, apenas acho super chatos os sons que as pessoas emitem durante os filmes, detesto sessões lotadas, torço sempre para achar um lugar razoável, sem pessoas sentadas muito perto e sem interferências durante o filme. Porque sempre tem alguém comendo batata frita crocante e refrigerante ao lado e alguém atrás enfiando os pés no encosto da frente (o meu!). Acho que as pessoas deviam ter o mesmo respeito em cinemas que tem em missas. Bem, as pessoas não respeitam mais os cultos religiosos de maneira geral. Sinal do fim dos tempos? Talvez do fim dos templos.

Sobre o filme? Ah, sim. É sobre ele também que quero escrever. Meu êxtase inicial por conseguir assisti-lo sem qualquer interferência externa foi diminuindo gradativamente ao longo da exibição. Saí da sala meio incomodado, como se faltasse algo, uma última palavra, um último gesto. Queria saber se o que eu sentia em relação ao filme era uma má vontade voluntariosa (bem característica) ou se tinha alguma necessidade que, como espectador leigo, Laffitte e elenco não tinham conseguido satisfazer. Caminhei pela rua silenciosa e deserta procurando explicações, entre cigarros e pensamentos ruidosos, com a voz rouca da Elza Soares cantando “I Love You, Copacabana”, música-tema do filme.

Foi quando fui interrompido por sax rasgando acordes de uma música conhecida: “It's a new dawn / It's a new Day / It's a new life / For me / And I'm feeling good”. Parei, buscando identificar de onde vinha aquele som. Da penumbra da porta entreaberta surgia uma música contagiante. Entrei. Envolvido pelo jazz apresentado por uma banda que desconheço completamente, sentei-me num canto. Entre goles de cerveja e alguns (pouquíssimos e marginais) cigarros na beira da calçada em frente ao bar, porque estão querendo nos proibir de sermos livres em nome da saúde, pus-me a ruminar Laffitte, Elvis e Madona, enquanto tamborilava “Feeling Good” na mesa de madeira.

Não gosto muito de filmes que falem sobre gênero. Sempre acho que acabam sendo clichês e tendenciosos. Na verdade, não foi o caso deste, em especial. Mas faltou algo, no geral. Achei as atuações dos protagonistas medianas. Impossível comparar a travesti Madona (Igor Cotrim) com personagens como Agrado (Antonia San Juan), de Tudo Sobre Minha Mãe ou com Bree Osbourne (Felicity Huffman), de Transamérica. O rapaz pareceu esforçado em cumprir seu papel. Mas não me comoveu. Em alguns momentos ele peca por falta, em outros por excesso, o tempo todo por não achar o ponto certo do jeito irreverente e ao mesmo tempo delicado e sensível que Laffitte gostaria – interpretação minha - de imprimir à personagem. Não obstante, levemente melhor que Igor, a personagem lésbica Elvis (Simone Spoladore), que em entrevistas Laffitte afirmou querer uma figura feminina e delicada, pesou a mão nos trejeitos “black boot”, jaqueta de couro e pochete, beirando o caricato. A moça ainda é mais convincente que o inexperiente Igor, afinal ela já tem alguma trajetória em cinema, como o belíssimo Lavoura Arcaica, O Ano em Que Meus Pais Sairam de Férias e Primo Basílio. Já o rapaz estréia no cinema nesse filme.

Sei que nadarei contra a corrente agora, afinal o filme foi aclamado pelo público e pela crítica. A obra recebeu mais de vinte prêmios e teve muitos méritos por ser um filme independente, com baixo orçamento (ganhando inclusive um prêmio por isso) e por tratar de temas um tanto indigestos para a grande maioria conservadora deste país. Rendo-me à coragem e obstinação do diretor. Porém, o filme não me convenceu. A narrativa tem um bom ritmo, a fotografia tem seus méritos, embora não existam surpresas, a trilha sonora é interessante e se encaixa perfeitamente à proposta da trama, a ambientação em Copacabana é super apropriada. Gosto dos takes de passagem de tempo, com montagens de fotografias do Rio de Janeiro, numa alusão à profissão de Elvis. Acho que a montagem e a edição do filme pecam um pouco, deixando a narrativa por vezes truncada e um pouco cansativa, principalmente nas cenas finais do filme.

Apesar de todas as ressalvas e resistências que tive com o filme, de alguma forma meio nebulosa ainda eu me sensibilizei com a obra. Nas palavras do próprio diretor, o filme fala sobre sentimentos humanos e universais: “É uma história de amor e de realizações de sonhos, e isto é universal”. Acho sensível e tocante a forma como os personagens transitam pela narrativa, trazendo à tona – superficialmente - seus sentimentos, desejos, buscas e frustrações mais íntimos. Mérito do roteiro. E embora o filme trate de sentimentos universais, e isso é o que liberta os personagens de imposturas sociais, o que une Elvis e Madona são sentimentos/sofrimentos de pessoas marginalizadas justamente por serem impedidas de exercitarem seus afetos - universais - de forma livre e fluída. Esse contraponto deixa um sabor residual meio amargo na gente. Em minha opinião, esse talvez tenha sido o melhor insight do diretor em seu primeiro longa.

Elvis & Madona se diferencia de filmes que tratam das homossexualidades como escusas e marginais e cai melhor no gosto do público porque é um filme com uma história de amor bonita e esperançosa, apesar de todas as amarguras da vida e dos caminhos tortuosos que enfrentamos. Mas, assim como os personagens esperançosos e sedentos por felicidade apresentados por Laffitte, eu queria mais. Mais do próprio filme. Queria mais dos personagens, mais do diretor, mais do sonho, mais das esperanças, mais daquilo ao que o filme se propôs.