domingo, 5 de fevereiro de 2012

CINEMA E BARBITÚRICOS

Carmella Jarvi

[Para ler ao som de Beirut : ‘Elephant Gum’]

Trajando sua habitual camisola longa de algodão branco, com bordados delicados na gola e nos punhos, ela flanava pelo quarto. Os cabelos vermelhos e cacheados pendiam até a cintura e encobriam parte do rosto delicado e pálido como porcelana. Seus passos inaudíveis eram agitados, como se seus pés alvíssimos não tocassem as madeiras velhas do assoalho.

Através da alta janela, com sacada debruçada sobre o jardim interno, entrava a luz fraca do entardecer. Essa luz se confundia com a da televisão sem som, onde as cenas finais de um filme antigo eram exibidas para ninguém. O quarto estava imerso em uma penumbra e um silêncio sepulcral. Ela estava inquieta. O branco de sua camisola parecia reluzir, quando iluminado pela luz vespertina. Abriu todas as portas dos armários, pegou uma velha mala de couro caramelo, forrada de cetim carmim estampado, e jogou-a sobre a pequena cama de ferro. As molas do colchão rangeram com o gesto abrupto.  Após, revirou gavetas e jogou suas poucas roupas sobre a mala de forma desordenada. Fechou-a como pode e colocou-a junto à porta. Retornou para a escrivaninha. 

Em meio a fotografias antigas de família e de atrizes de cinema dos anos 40 e 50, pegou um bloco de papel e um lápis de uma gaveta. Balbuciando palavras soltas, bradou com raiva: “Jamais sentirei fome novamente. Então, tá. Quando sobem os créditos é hora de enxugar as lágrimas. Não importa ter visto o filme mais de vinte vezes, sempre choro. Eu também sei levantar de uma queda. Mesmo que isso seja apenas mais uma ilusão que criei para sobreviver ao seu lado, meu querido”.

Sentou-se encolhida aos pés da cama e pôs-se a escrever no pequeno bloco: “Decidi ir embora para sempre. Juntei memórias, dores, desilusões, maquiagem, valise e coragem enquanto não vinhas. Tudo que ainda tenho, tudo que me restou, coube em uma pequena mala. Por mim, podes guardar todas as sobras do que fomos nós. Retornarei ao meu lar e pensarei numa forma de tê-lo de volta! Afinal, amanhã é um novo dia. Não me indagues pelos motivos que tive. Apenas sei, no fundo da alma, que esta é a única atitude que posso tomar agora.

Estas terras cultivadas por nós, meu caro, não me servem mais. Tornaram-se inférteis. Estéreis como o nosso amor. Sairei da tua vida para entrar como um soco nas tuas lembranças. Um dia estarei tão apagada em teu coração que mal lembrarás meu nome. Não quero me despedir de ti, não quero olhar nos teus olhos. Quero apenas desaparecer da tua vida, se é que isso é possível, e ir para minha terra estimada, terra de paz, terra de gozo.

Aqui neste lugar, entre estas paredes opressivas, mesmo com estas grandes janelas e com este pé direito tão alto, mesmo podendo ver do balcão toda a imensidão das nossas terras, eu sempre fui uma estrangeira. Este nunca foi o meu lugar. Fui uma estrangeira na tua casa, um fantasma na tua vida. Nunca fui vista, nunca fui notada, nunca fui reconhecida. Quero deixar estes versos, retirados de um livro que estou lendo, como uma recordação minha. Eu sou isto agora, nada mais:

“Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada... a dolorida ...”  [*]

Jamais sentirei fome novamente. Minha fome insaciável é de amor, fome de viver cada gesto, cada palavra, cada alegria, cada tristeza. Queria que tudo isso fosse contigo, meu querido. Mas tu andas tão ausente! Não tenho notícias tuas, não sei se foste para a guerra. Nem sei se a guerra já acabou. Quando penso em tudo isso fico tão triste, como se quisesse viver e não conseguisse. E na verdade não vivi. Mas sei, lá no fundo, que conseguirei viver. Ainda posso ser eu mesma, apesar de estar sem ti.

Como diria o poeta, “um erro em bronze é um erro eterno”. Não quero que nossa vida seja um erro em bronze. Não quero essas marcas indeléveis no meu peito, essas marcas que deixaste em meu rosto e em minha alma. Deixo tudo para trás. Mesmo que esta carga dramática toda seja apenas para rimar e ficar bonito nesta carta que deixo agora para ti, meu querido Rett. Mesmo que me olhes com desdém e digas que não dás a mínima. Quando leres esta carta, provavelmente estarei longe daqui.

Da sempre sua,

Scarlett. ”

Após concluir a carta, arrancou as folhas do bloco, pegou uma rosa que estava em um vaso na cabeceira da cama, beijou-a e colocou-a junto a carta dobrada sobre o travesseiro de plumas. Pegou rapidamente a mala que estava junto à porta e saiu do quarto, entrando em um grande corredor escuro, de onde era possível apenas ver um ponto de luz ao fundo.

Ela foi em direção a essa luz, atravessou o hall ornado de espelhos bisotê e abriu a grande e ruidosa porta nacarada da entrada. O barulho da porta sendo aberta ecoou por toda a casa. Quando estava atravessando o jardim, porém, ouviu algumas vozes que gritavam seu nome. Apressou o passo, na tentativa de atravessar o portão de entrada. Mas quando chegava ao portão, um grupo de homens a alcançou. Ela jogou a mala contra eles, na tentativa de barrá-los. Porém, foi imobilizada por um grupo de quatro homens, todos trajando jalecos brancos, e foi levada para a enfermaria, onde foi sedada mais uma vez. A mala ficou esquecida no jardim naquela noite, suas camisolas e fotos antigas de Vivien Leigh e Clark Gable espalhadas pelo jardim. E ela esquecida para sempre sobre a cama de um quarto com janelas gradeadas do manicômio judiciário.

Vez ou outra, todos são acordados com os gritos de socorro a Rett Butler e com os brados, com o punho cerrado contra o nada, como se ainda segurasse o punhal ensangüentado com o qual ceifou a vida de seu marido: “Rett, querido, venha me encontrar. Venha me salvar. Onde, Deus, queira que você esteja, venha! Acho que cometi um assassinato, mas não vamos pensar nisso hoje, só amanhã. Eu vou viver com isso e quando tudo acabar, eu jamais sentirei fome novamente. Se eu tiver que mentir, roubar, enganar ou matar. Como Deus é minha testemunha, eu jamais sentirei fome novamente.”
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[*] “Eu”. Florbela Espanca, Livro de Mágoas, 1919.