sexta-feira, 16 de março de 2012

PARA DEPOIS DA TEMPESTADE

“A tempestade” (1913), por Oskar Kokoschka

“Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.”

(Legião Urbana – Daniel na Cova dos Leões)


Algum lugar ao sul do Equador, dia qualquer de março de dois mil e pouco ou dois mil e muito.

Depois que você foi embora pela última vez, tomei banho novamente para apagar as marcas do seu corpo no meu. Nem com toda água e com todo sabonete de lavanda conseguirei me desfazer do seu cheiro em minha pele. Tentei todos os tipos de banhos aromáticos possíveis: alecrim, arruda, alfazema, perfume barato. Tentei incensos, meditação, terço e novena. Tentei outros corpos e o meu próprio. Tentei banho de sol para energizar, de chuva para refrescar, de mar para purificar, de sete ervas para descarregar. Tentei quarto escuro para desabar. Tentei sacristia, bar e divã para confessar. Tentei vodca, gim, tequila e cachaça para desabafar. Mas você não é solúvel em álcool. Tampouco em crenças vãs. Pelo contrário, sua presença é potencializada pelo álcool, pelos blues ácidos, pela voz melancólica quase em falsete de Holiday e pelos sussurros do trompete de Baker. 

Suas marcas permanecerão em minhas entranhas para sempre, talvez. E carregarei essas marcas sem orgulho, sem saudade e sem glória. Desejo – e ao mesmo tempo não desejo - que você se torne apenas uma lembrança remota no meu peito incapaz de amar direito. Quem sabe um dia eu acorde, kafkiano, um inseto e deixe de sentir o que sinto neste momento. Ou ainda, de uma forma mais romântica, cafona e piegas – ao meu melhor estilo – eu saia do casulo onde voluntariamente entrei para lhe esperar e descubra, depois de não ter me tornado uma borboleta e sim uma lagarta mais disforme e mais antiquada, que o que sinto foi uma criação minha e não havia nada a ser esperado. O que sei é que agora você está cada vez mais vivo em mim. Dolorosamente vivo. Queria lhe apagar da minha vida como fui apagado da sua, se é que algum dia estive vivo em você.

Sob a luz do fim de mais um dia inglório, deitado no chão da sala que já abrigou seu corpo envolvido pelos meus braços, fumo mais um cigarro, brindo com mais um gole de café forte e sem açúcar, como você gosta, preparado na mesma cafeteira que nos confortou nas pouquíssimas manhãs sem volta que tivemos. Na vitrola antiga, coloquei o disco que tem aquela música que cantamos juntos, bêbados, lembrando nossa longínqua adolescência, numa das madrugadas insólitas e deliciosamente amorosas que tive ao seu lado, mesmo que você não percebesse isso. Nas paredes agora reverberam os versos: “E o teu medo de ter medo de ter medo / Não faz da minha força confusão.”.  Acho que é isso que queria lhe dizer agora, se pudesse olhar nos seus olhos. Mas o máximo que consigo fazer é tamborilar os dedos na borda da xícara, meio marejado e distante de tudo, enquanto as cinzas do cigarro entre meus dedos maculam nosso chão.

Eu sabia, desde sempre, que viveríamos uma espécie de crônica de uma morte anunciada. E você seria meu Santiago, errático e louco. E eu, não menos louco, contido em mim mesmo, para não explodir em mil pedaços. Sei que você chegou querendo partir. Partir assim sempre fez parte da sua mise-en-scène. E eu querendo que você ficasse aqui. Para sempre. Ou até o dia em que o gigantesco planeta se chocasse contra o mundo precário que criei para você habitar, como no filme do Von Trier que assisti há algum tempo. No dia do anunciado fim, tudo viraria nada e nada seria tudo o que nos restaria.  Ainda assim eu queria que existisse algo forte que nos ligasse, mesmo que isso fosse destruído no dia seguinte. Mas estava escrito no seu roteiro partir dessa forma violenta e dolorosa para todos, principalmente para você.

Você foi uma promessa de algo que nunca será. E eu serei aquilo que jamais deveria ser. Serei o equívoco, o engano, a condenação. Eu poderia usar neste momento um clichê meio Roberto Carlos, que é definitivamente a minha cara, dizendo que você foi o melhor dos meus erros. Não direi. Porque não é verdade também. Não é racional o que sinto. Sei que algo brilhava em mim quando estava ao seu lado, uma força estranha resplandecia no meu peito, embora essa força estranha não me levasse a cantar. Mesmo quando perambulávamos perdidos numa noite suja qualquer de uma cidade incerta que não era nossa. Não tivemos uma cidade, não tivemos um mundo, não tivemos uma vida. Tivemos fragmentos de promessas veladas de uma existência que você negou, porque é um menino acuado, escondido no quarto escuro, vendo a vida pelo buraco da fechadura.

As paredes caiadas do pequeno quarto onde tento (em vão) encontrar uma remota e ilusória paz possuem as marcas do pouco que fomos nós. A cama ainda está quente do seu corpo morno, os travesseiros guardam os fios dourados dos seus cabelos revoltos e os lençóis guardam as marcas do que jamais poderei chamar de “Amor”. Porém não sinto raiva.  E não deixo esses sentimentos de lado numa atitude búdica. Pelo contrário, sou o pior dos humanos. Sou raivoso, vingativo, egoísta. Mas agora simplesmente não sinto raiva. E talvez nem saiba ao certo o que sinto. Resignação, talvez. Pela vida desperdiçada, pelo amor que não aconteceu, pela inevitável dor e pela inexorável perda.

Estou ainda sob efeito dos excessos de ontem, que serão os mesmos de hoje e talvez os de amanhã. Não consigo saber até quando essas falhas de minha personalidade perdurarão. E lhe confesso isso porque você sabe melhor que eu que abandonar velhos hábitos é difícil para pessoas como nós. Eu fui a prova, na sua vida, de que você só sabe sucumbir aos seus desejos verdes, primários e egoístas. Não estou longe disso também. Por isso não lhe julgo, apenas comungo da dor que sei que, lá no fundo, você sente.

Resta-me agora fazer o que sempre faço, após minhas catástrofes pessoais: juntar, não sem dor, os poucos pedaços que reconheço e reinventar minha própria vida. Não lhe digo isso para que sinta pena, nem para servir como exemplo para você. Pelo contrário. Não acho nem muito digno o que decidi fazer. Faço isso porque é só o que me resta. E nem sei por que digo isso agora. Seguirei em frente, errando como de costume, mas tentando errar melhor. Não há como voltar atrás e não vejo outro caminho a não ser seguir em frente.

Quero lhe desejar uma existência feliz, onde quer que esteja, e da forma que escolher. Quero que tenha caminhos serenos e que suas escolhas sejam acertadas. Queria poder lhe abraçar com força descomunal, como se pudesse arrebentar com os braços toda defesa que existisse e que pudesse nos afastar. Queria poder lhe querer sempre e muito. E bem do fundo, desejo que você queira a si próprio da mesma forma.

Carinho imenso,
.
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* P.S.: Coloquei esta carta num envelope, lacrei, selei e não postei. Abri, reli e decidi não enviá-la. Um dia, quem sabe, você saiba da minha própria boca o que senti, quando nada disso fizer mais sentido algum ou quando eu encontrar um sentido real para tudo. Quem sabe encontre esta carta, amarelada pelo tempo, perdida no meio de um livro velho de Tolstói, porque ando meio Greta Garbo, a Ana Karenina no filme de 1935. E numa grande associação livre, lhe vejo agora um tanto Fredrich March, o Conde Vronski do mesmo filme. Além disso, as frases “as famílias felizes são todas iguais; as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira", que iniciam o livro, não me saem da cabeça. Quem sabe você encontre o envelope já meio amassado, como se fosse uma garrafa jogada ao mar contendo um bilhete, para quem sabe ninguém e quem sabe nunca mais. Ou a quem possa interessar.