sexta-feira, 9 de novembro de 2012

QUEM NUNCA?


Desperation - Antonina

“Esquecer o tempo
O céu
O sol
Um som
A pessoa
Um lugar.
Agora me diz o que faz você feliz!"

(Arnaldo Antunes)

Quem nunca sofreu de autocomiseração histérica, parado em frente à vitrine de uma confeitaria, vendo toda sorte de guloseimas irresistíveis e proibitivas e deixou de entrar, se sentindo absolutamente miserável porque antes de sair de casa percebeu que todas as roupas deixaram de servir? Quem nunca desejou sumir para sempre quando, no fim da noite, depois de ter passado horas de preparativos, numa superprodução digna de abalar estruturas, viu que nem com muita determinação e boa vontade sairia do “zero a zero” e que as únicas estruturas abaladas eram as suas próprias? Quem nunca se boicotou e se tornou seu pior algoz quando não se julgava merecedor de qualquer agrado da vida porque existiam coisas ainda mal resolvidas? Quem nunca quis fugir de tudo (principalmente de si mesmo) e correr das sessões de incursões solitárias de autodescoberta para as excursões etílicas em grupos pelos botecos quando olhou no abismo escuro interior e não viu nenhuma luz? Quem nunca desejou abandonar todos os planos e começar do zero porque o namorado não era o ideal, porque o emprego não era o ideal, porque o cabelo não era ideal, porque o corpo não era o ideal ou porque não adiantava querer aprender a cozinhar ou dirigir?

Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. É, pode até ser meio Guevara. Porém, pode ser menos pop, sem precisar estampar em camisetas vermelhas de algodão vagabundo uma ideologia distante e desconhecida. A impressão que tenho, “de tanto levar frechada”, é que na dor que crescemos mais. Mas com amor é muito melhor. Não acredito que consigamos ver progressos pessoais somente com amor, entretanto. Não, não é uma teoria masoquista. E não que eu goste de dor (minha e alheia). Pelo contrário, a vida podia se cor-de-rosa e fofinha que eu ia achar bem bom. Mas de fato, quando sofremos como cães é que a vemos a vida mais crua e nua. Meus olhos são bondosos, mas minha mente é bem madrasta comigo. O inferno não são necessariamente os outros. A realidade talvez seja mais cinza do que eu via aos seis anos de idade.

Pensando bem, não, não é verdade. Acho que quando eu tinha seis anos era pior que hoje. Pelo menos hoje tenho condições de alcançar as prateleiras mais altas da geladeira e preparar sozinho meu cereal matinal com leite. Melhor: não preciso mais beber leite, tampouco comer cereal, porque passei (há tempos) da idade de não poder usar o fogão e não há ninguém no mundo que me demova do sagrado desejo matinal de ovos mexidos, bacon e café preto no meu petit dejeuner.

Admitir-se dependente da bondade de estranhos soa melhor na boca de Blanche Dubois. Ser capaz de me autogerir, mesmo errando o tempo todo, é libertador. Só que é uma espécie de prisão também. Porque não posso pedir ajuda sempre, uma vez que nem sempre tem alguém ao lado, não posso ser negligente e passar incólume porque sempre há uma espécie de cobrança velada. Sou completamente autossuficiente, afinal. A bem-aventurança da ignorância é jaz. Como sou rotulado de independente, então as pessoas não estão disponíveis porque pressupõem que eu não preciso de ajuda alguma. O que também não é verdade. Quero colo e quero fugir de casa, às vezes, mesmo morando sozinho.

Tem horas que a gente exaure. E diz “chega, né?!” para tudo, não tira o pijama de manhã e passa o dia em silêncio, arrastando chinelos pela casa, bem Gal, esperando que a “nuvem negra” passe, largue o dia e leve o mal que o arrasou. Por mais madrasta que a vida seja às vezes, o que ela quer de nós é que sejamos generosos. Com os outros e conosco. E não digo isso com nenhuma espécie de sentimento religioso. Nada disso. É a mais pura generosidade pagã. É bom ser generoso, acredite. Porque nos livramos de algo que talvez não seja assim tão importante para nós e que pode ser fundamental para a outra pessoa.  E se somos generosos com os outros, acabamos sendo conosco também. E dizer “BASTA!”, assim mesmo com letras garrafais, para coisas que nos subtraem, que nos tornam menores, piores, é a atitude mais generosas que podemos ter em relação a nós próprios.

Quando penso em generosidade, e principalmente se minhas atitudes são assim classificáveis, sempre sofro de dúvida atroz. Não sei até que ponto estou sendo realmente generoso ou apenas covarde, egoísta, maníaco obsessivo, que é um grande risco que corro. Mas como uma pessoa pode querer (ou parecer) generosa e ser egoísta? Explico. Se oferecemos a alguém o que temos - supostamente - de melhor e esperamos que ela seja muito mais que aquilo que é e muito mais que aquilo que pode vir a ser, não estamos realmente sendo generosos com ela. Agimos esperando um resultado, almejando um objetivo. E nosso objetivo provavelmente é ter do outro aquilo que NÓS desejamos egoisticamente. Da mesma forma podemos ser covardes ao invés de generosos: Amamos o máximo que podemos, ofertamos o que temos que mais nobre e raro, porque alimentamos o amor com medo de ficarmos sozinhos e perdermos aquilo que julgamos tão imprescindível.

Indo um pouco adiante, assumo que sou um grande entusiasta do ócio lúdico e produtivo. E acredito que ele pode ser também uma atitude de generosidade. O comodismo é irresistível quando tudo está bem. E para que lutar contra ele? Prova disso é que fico preguiçoso até mesmo para escrever. Eu vivo simplesmente. E deixo a vida me afagar com fugazes momentos de felicidade. E exagero na generosidade comigo mesmo porque sou notoriamente desmedido. Se estou feliz, acho que sou mais generoso com os demais também. E se está tudo bem lá em casa eu não faço mais nada na vida além de viver simplesmente, meio gauche, o mais próximo possível da minha natureza mais íntima. Esse lance de uma cabana, uma rede e um amor funciona super bem comigo, mesmo sem um amor, sem rede e sem cabana. Mas se a ideia é ser generoso, tento acertar o que poderá fazer as pessoas felizes e o que me fará feliz. E aqui e agora, neste exato momento, entrego a quem quiser estes meus pensamentos fragmentados e palavras soltas... Foi!

Imagem cedida por Leonardo Cassimiro. Arquivo pessoal