sábado, 5 de janeiro de 2013

O PALHAÇO MAIS TRISTE DO MUNDO



 Andrew Salgado, “If One Man’s Joy is Another Man’s Sadness” (2012). Courtesy Beers.Lambert


“Voltei pra me certificar
Que nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar”
(Bastidores – Chico Buarque)



Tu sabes como é quando ficamos exauridos? É, exauri. Por isso estou aqui, olhando minha cara no espelho mais uma vez. Esfrego um lenço úmido para tirar a maquiagem, mas ela não sai, apenas desenha manchas disformes e coloridas em minhas faces sem expressão alguma. Minha cara é um grande borrão agora. Todas as cores misturadas, sem qualquer lógica, mas com todo sentido. Somente agora vejo que o verdadeiro sentido de minha existência está expresso nesses borrões que desenhei querendo apagar minha própria história de palhaço tatuada para sempre em mim.

Na verdade não vejo sentido no que tenho sentido. E nem sei se deveria ter algum sentido. Talvez não haja sentido no que não é sentido. Ou talvez todo sentido da vida esteja em analisa-la sem procurar sentido. O que eu estou dizendo agora? Deveria suspender o gim. Não! Somente ele me compreende. Por isso ergo o gim! Um brinde, respeitável público! Um brinde ao mais infeliz de todos os palhaços! Não estou referindo-me a ti. Tampouco falo contigo. Estou falando sobre este palhaço besta que vejo no espelho agora. Sim, sou eu mesmo. São para mim os aplausos. São para ti as lágrimas que luto para não derramar cada vez que te vais. Pode ser para nós o brinde? Não, nunca poderá. O brinde é também todo meu.

Tranquei a porta do camarim, fechei as janelas e chorei, chorei, até ficar com dó de mim*. Quero que os aplausos cessem. Quero que as vozes cessem. Quero que as palavras cessem. Quero que os ruídos, interiores e exteriores, silenciem. Existem muitos ruídos aqui dentro de mim. Desejei (e como desejei!) ter junto a ti silêncios povoados de significados indizíveis, aqueles momentos em que os silêncios seriam maculados por palavras. Ficaríamos quietos em nós mesmos e um no outro, enquanto veríamos o tempo rasgar vagarosamente nossas vidas, delegando ao justo esquecimento nossos passados.

Mas silêncios são complexos. Para distinguirmos os férteis dos inférteis é necessário que conheçamos ao outro intimamente. Quanto a nós, nunca chegamos a nos conhecer. Como diz a música, “existe um preconceito muito forte separando você de mim**. Mas não me vitimizo. A culpa foi minha também. Nunca consegui ultrapassar o abismo dos teus olhos esverdeados e brilhantes. Da mesma forma, nunca compreendeste o que calou minha boca seca.

Não esperei grandes demonstrações tuas. Queria as “minimalezas”, as sutilezas, as gentilezas e as cotidianidades. Queria anoitecer e amanhecer contigo. E quando anoitecesse, queria apenas garantias de que amanheceríamos juntos. Queria que tivesses para onde voltar das tuas longas jornadas. Queria a certeza de que eu poderia ir e teria um porto para atracar quando voltasse. Mas sempre voltei para a casa vazia e para a cama fria.

O que precisei a vida toda - e nunca tive de ti - é presença. Nunca foi companhia o que te pedi em todos os momentos de mendicância extrema e indigna. Tampouco me satisfaziam os presentes raros que trazias de além-mar. Tu saías antes do sol nascer porque o cais é apenas uma parada provisória. E deixavas tuas migalhas sobre o criado-mudo esperando calar-me. Quanto a mim, navegar não é preciso. Viver é preciso. Mas exigir isso de ti é muito, não é mesmo? Teu espírito é elevado demais para satisfazer meus desejos tão primitivos e egomaníacos.

Disparatado da minha parte desejar que me quisesses quando estavas aqui olhando-me nos olhos, como dizias querer-me nas cartas, escritas com caligrafia impecável, que mandavas dos portos onde chegavas. Tuas cartas tinham o cheiro dos lugares por onde passavas e se eu inspirasse profundamente o papel conseguia sentir o cheiro acre das tuas mãos hábeis em iludir-me. Sabes, teve um tempo no qual eu seria capaz de identificar de onde o sujeito vinha pelo cheiro de sua bagagem. Os lugares tem cheiros característicos. Este lugar, por exemplo, cheira a mofo. Este é o seu cheiro, por mais que limpem e perfumem com flores, essências e incensos. E a casa que eu queria que fosse nossa cheira a morte, principalmente agora.

Soou a primeira campainha, preciso terminar de vestir-me. Mas não é isso que queria dizer. Minha teoria é que as cidades têm cheiros característicos e que eu consigo identificá-los porque sempre fui um andarilho atento. Pretensão minha? Talvez. Assim como foi pretensão minha achar que serias capaz de transformar nossas vidas ou que eu seria capaz de manter-te junto a mim por vontade tua. Assim como sou um astuto em identificar aromas, sou persuasivo para satisfazer minhas vontades. Eu quis que ficasses porque cansei de ser um cavaleiro andante. Talvez agora tenha conseguido fazer-te permanecer, não? Mas agora não quero que fiques. Acho que teu lugar é o mundo, tua casa são os sete mares. Por isso quero despedir-me definitiva e dignamente de ti.

Defendo-me de ti mostrando-me a ti. Soou a segunda campainha. Hora de entrar no palco mais uma vez. Preciso da peruca colorida, do meu nariz e do sorriso falso. É triste ser reduzido a um personagem, porém esses elementos são minha marca e jamais serei alguém sem eles. Agora eu sou o personagem, a máscara grudou definitivamente em minha cara e devo aceitá-la. Logo precisarei retornar ao que chamamos precariamente de lar para encontrar-te, meu querido. Preciso limpar as marcas do nosso último encontro, recolher os cacos espalhados pelos cantos, arejar e incensar todos os cômodos para as boas energias entrarem, dar-te um beijo de despedida na testa e após carregar até o porto a arca onde o teu corpo que um dia quis meu e jogá-la ao mar.


* Trecho da música Bastidores – Chico Buarque de Holanda
** Trecho da música Preconceiro – Antonio Maria e Fernando Lobo