quinta-feira, 20 de setembro de 2012

ENCRUZILHADAS DA RAZÃO


Alberto Pancorbo: “Poblada Soledad”. (Acrilic on canvas)


[Para ler ao som de “Perfect Day” (Lou Reed), interpretado por Antony & The Johnsons]


"Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
You're going to reap just what you sow" [*]

(Lou Reed)


Meu peito estava apertado. Mas não era angústia. Era como se eu tivesse sido acometido por alguma daquelas enfermidades cardíacas que fazem o coração da gente crescer, inchar, entupido de qualquer coisa podre que não é amor, até entrar em colapso e explodir necrosado em todas as sete direções galácticas. A sensação que eu tinha, porém, era que a qualquer momento meu coração implodiria e abriria um buraco negro bem no meio do peito e sugaria para dentro de si tudo ao seu redor, e a mim mesmo, para o mais profundo esquecimento. Eu estava vazio de tudo e dentro de mim algo crescia de forma incontrolável. Silêncio e inércia sufocam a gente. Poderia ser apenas o anúncio de um enfarte. Poderia ser algo pior e irremediável. Poderia ser o colapso da razão. Colapso porque não dava mais para segurar tantas urgências simultâneas gritando por dentro. Pavor. Um escuro silencioso e frio crescia, duro, como uma estrela que chega ao fim da existência, minguando gradativamente até transforma-se em uma anã branca, sem luz e sem condições de abrigar qualquer manifestação de vida. Eu sentia como se tivesse me tornado um expatriado porque dentro de mim não havia mais possibilidade de existir vida.

Meu coração estava querendo chamar atenção? Provavelmente. Mas para que? Acho que ele só queria dizer que estava ali, vivo, além de involuntariamente pulsante. Eu já o havia relegado ao devido lugar de um órgão que não funciona bem e que tem um defeito congênito e incurável. E já havia realizado o único tratamento ao qual poderia me submeter em casos como esse: re-sig-na-ção. Eu já havia me resignado e tentava aprender a sobreviver com um coração que não funcionava como deveria e que jamais seria curado, porque não havia salvação para um órgão que não cumpria somente sua função principal de bombear sangue para o restante do corpo. Para completar, além de incapaz de cumprir suas funções essenciais, meu coração tinha rompantes de independência dentro de mim. Ora, um coração com vontades! Que disparate! Meu cérebro sempre foi senhor de minhas ações e um coração que ama errado - aliás, um coração que “ama” - só poderia ser fruto de uma mente fértil, romântica e irascível.

Minha mente e meu coração, de fato, não estavam no mesmo compasso. E eu estava perdido entre os dois. Sentia uma dor física que era uma dor de secura, como se acontecesse um processo de desertificação em mim. Fui ficando infértil, árido. Eu sabia, conscientemente, que um coração personificado era fruto de alguma coisa que não funcionava bem em minha cabeça. Sempre fui razoavelmente autoconsciente e sabia que aquilo que estava acontecendo não era indício de sanidade. Mas eram mais fortes que minhas faculdades mentais esses impulsos involuntários.

Meu coração parecia crescer cada vez mais de tanto vazio e minha mente parecia cada vez mais empenhada em certificar esse movimento. E eu atônito, amordaçado e imobilizado, vendo minha própria vida ser tomada de assalto por uma mente ilógica e um coração insano, assistindo pela pequena janela da cela escura de minha alma os vultos de uma vida interior inteira serem refletidos através sombras difusas, sem minha participação.

Foi então que resolvi ir até lá e bater à porta novamente, mesmo sem avisar, mesmo sem ser convidado, mesmo parecendo um completo paspalho. E pareci realmente. Tinha a consciência que era alta madrugada. Chovia e eu andava sem guarda-chuva. Sabia que poderia adoecer fisicamente ainda mais, mas isso me importava menos que a impressão que eu causaria, chegando no meio da noite, todo encharcado e sem avisar. Não importava mais minha saúde física, não importava mais a impressão que eu causaria, não importava mais minha sanidade mental. Bati. Bati novamente. Na terceira e mais vigorosa vez que bati à porta ela se abriu. Por dois segundo quis sair correndo porque sabia o que poderia parecer eu estar ali, assim despido de todos panos coloridos com os quais cobria minha face da verdade.  Uma luz fraca iluminou meu rosto molhado. Senti-me mais uma vez um miserável. Mas era tarde demais para voltar atrás.

- Sei que você deve estar estranhando eu estar aqui. Na verdade eu também estranho, porque quase não me reconheço nesta atitude impensada. Sinto-me meio ridículo vindo aqui a uma hora dessas, sem avisar, numa noite como esta, sem nem ao menos saber exatamente o que esperar ou o que dizer ou se você me receberia.  Mas vim porque sinto que existem coisas que quero dizer e preciso dizer agora. Sei que estou com hálito de álcool. Apenas tive energia e coragem para vir depois de algumas doses. Mas não quero importunar você com meus sofrimentos. Só vim... na verdade nem sei direito porque vim... Certo, tentarei formular claramente... eu vim porque queria dizer umas coisas que estão me atormentando a razão desde aquele dia que você chegou e me disse aquelas coisas bonitas naquele bar, me olhou daquele jeito tão terno e gentil, bem dentro dos olhos como se pudesse ver minha alma e me despiu de todas as defesas com seus olhos amendoados meio umedecidos, negros e brilhantes, e me trouxe aqui para sua casa. Não, não acho que você me usou para satisfazer seus impulsos básicos. Bem, acho que sim, acho que você queria de mim naquele dia menos que eu quis de você nos dias seguintes. Não vim cobrar minha pureza perdida. Eu não sou puro há muito tempo e não tinha nada perder. Tampouco tinha algo a oferecer a você de puro, raro ou intocado. Ambos há muito perdemos a inocência. Ambos não chegamos – e talvez nunca cheguemos - à idade da razão. E ambos sabíamos exatamente o que estava acontecendo e no que aquilo poderia resultar. Afinal, somos adultos e maduros e conscientes e práticos e perfeitamente capazes de suportar ausências ou negativas. Mas no caminho entre minha cabeça, meu coração e minha pélvis algo que eu sentia fugiu do meu controle. Eu sempre fui aparentemente seguro, você sabe, e sempre soube lidar bem com situações como a que vivemos. Atração física sempre foi um assunto que distingui completamente de qualquer afetividade. Não, não é isso. Não vim aqui para falar de especulações acerca de qualquer espécie de afetividade entre nós. O que estou dizendo? Não vim aqui para falar sobre o que você pensa do que aconteceu entre nós. Vim aqui somente para falar uma coisa. Espera, eu vou conseguir... É que meu coração mandou meu cérebro calar-se. E ele obedeceu, fugindo completamente de qualquer racionalidade. E é por isso que estou aqui, porque não é racional.  Acho que estou aqui porque meu pensamento fugiu a toda lógica, porque sou apenas desejo agora neste momento, desejo errante e selvagem, molhado de chuva, de suor e de algumas lágrimas que não consegui conter, meio zonzo de tantos pensamentos fragmentados e sentimentos arrebentados, talvez um torpor causado pela combinação de álcool e café preto depois de muitas horas de estômago - e alma - vazios. Vou dizer uma coisa correndo o risco de ser ridicularizado ou de você sentir medo de mim. Várias vezes eu passei aqui pela frente da sua casa e olhei para a janela, de madrugada, e vi a luz do nosso, quer dizer, do SEU...do seu quarto acesa, e via dois vultos distintos caminhando ao redor da cama. Você tem todo o direito e reconstruir a sua vida, e eu a minha... na verdade não é uma reconstrução, porque não tivemos vidas destruídas. A bem da verdade, nem construímos uma vida juntos. Nossa história se resumiu a alguns filmes juntos, com roçares acidentais de mãos no escuro, enquanto lhe oferecia pipoca, mesmo sabendo que você detesta, no máximo meia dúzia de beijos roubados quando subiam os créditos e alguns poucos jantares, regados a gentilezas frias, como eu lhe passar a cesta de pães provavelmente dormidos do couvert ou você servir vinho na minha taça sempre vazia. Mas me doeu ver você com sua vida distante da minha, me doeu a possibilidade de alguém deitar sobre os travesseiros onde revelei meus sonhos secretos a você, enquanto você acariciava minha testa, e senti-me meio miserável por não poder ao menos dizer o que estou sentindo agora, porque só restou de você em mim uma saudade de algo que nem sei se foi ou poderia ter sido, uma promessa esmaecida de Polaroid e seu cheiro adocicado e meio agreste impresso em minha pele tatuada de ausências e ressecada de amarguras. O que quero dizer é que eu tenho sentido coisas que nem sei ao certo nominar... Por favor, não feche a porta ainda, deixe eu terminar de falar o que tenho para dizer. Espere! Não me deixe aqui neste escuro novamente! Abra a porta, por favor, abra! Eu só queria dizer que...




[*] “Ah, um dia tão perfeito / Você segura a minha barra / Você vai colher só o que plantou”