terça-feira, 11 de setembro de 2012

A GRANDE MUDANÇA



Alberto Pancorbo: "Laberintos del Alma"

“Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior”
(Retrato em Branco e Preto – Chico Buarque)

Olhou para seu rosto refletido no pequeno espelho do banheiro como se fosse a primeira vez. E talvez realmente fosse. Pela primeira vez conseguia ver a si mesmo daquela forma crua e fria. Sentia uma dor seca no estômago. Angústia. Fome. Medo. Ou somente desilusão, sem máscaras, exposta como as vísceras de um cervo devorado por chacais. Não era a primeira vez que olhava para seu rosto tão detidamente, mas era a primeira em que não havia admiração, não havia vaidade, não havia orgulho. Houve um tempo em que ele foi muito bonito e exageradamente vaidoso. Mas Narciso definhou de tanto admirar sua própria imagem refletida no espelho d’água do lago. E exatamente naquele momento, em frente ao espelho, tentava achar algum resquício escondido atrás das marcas fundas em suas faces. O tempo havia passado e ele estava inexoravelmente condenado, como todos os vivos, a não poder voltar atrás e a carregar as marcas de suas escolhas equivocadas pela vida afora.

No momento em que percebeu nitidamente todos os equívocos do passado e tomou consciência de que sua realidade atual era fruto de escolhas anteriores o que restou foi uma amargura infinita e a sensação de que a vida passou em um piscar de olhos. De tal forma que dos pouco mais de quinze anos de idade subitamente foi jogado diretamente para os mais de quarenta, talvez porque tenha passado tempo demais forasteiro de tudo e alheio a todos – inclusive a si mesmo. E seu rosto de mais de quarenta anos, com as rugas dos de mais de quarenta anos, as olheiras negras e fundas e a amargura de mais de quarenta anos, faziam de seu olhar sem sonhos um mar de tristezas impossíveis de serem ocultadas com sorrisos falsos. Decorrência do tempo perdido, das noites insones, dos uísques falsificados, dos beijos vazios, do sexo ordinário e de tantas outras epifanias cotidianas que são infinitamente mais sentidas quando se tem mais de quarenta anos.

Se sua vida tivesse sido diferente, se tivesse escolhido outros caminhos, se tivesse aproveitado outras oportunidades, se tivesse tido consciência de si, todas essas marcas, essas ausências e essa amargura não existiriam, pensou pragmático, enquanto estivava a pele seca e vincada do rosto com as mãos ásperas e procurava obsessivamente no fundo dos olhos negros o menino bonito que um dia foi. Tentando resgatar uma leve sombra de euforia adolescente, pensou que ainda poderia ser infinitas coisas na vida. Poderia ser o que quisesse. Quando tinha vinte anos. Mas com mais de quarenta desaprendera o ofício de sonhar. Não desenvolveu a habilidade de projetar desejos na realidade. Era inábil em viver. E deixou inúmeras situações inconclusas, planos inacabados, portas abertas, mantidas assim para que fossem fechadas ou deixadas entreabertas sem qualquer razão.

Naquele dia, quando se deparava com quarenta anos mal vividos, barba de uma semana, umas dores estranhas no peito e na alma, reconhecia-se com um intermédio, como um esboço, como uma construção abandonada que mal saiu dos frágeis alicerces, como um “quase”.  Quase feliz, quase realizado, quase vivo.  Quase se casou com Denise, moça de palidez e magreza de sobrevivente de Auschwitz, estudante de arquitetura. Ela possuía um ar altivo e independente, lia revistas especializadas em arte e filosofia, tinha a soberba que cegou Édipo estampada nas faces bem desenhadas de vinte e bem poucos anos. Óculos de sol, modelo tartaruga de diva do cinema dos anos cinquenta, que escondia perfeitamente a mediocridade, óculos de grau, seguindo as tendências da moda em design italiano, para aparentar ainda mais o que não era. Vagava pelos botequins, cafeterias e salas de cinema vomitando comentários sobre os filmes de Pasolini ou Godard que jamais assistiu e sobre os quais assumia como seus comentários alheios (e não menos vazios de sentido), bradando que para ela as obras “eram manifestos pelo amor livre, que davam a exata noção da finitude humana, ao passo que faziam emergir um humano superior, capaz de superar a própria finitude em favor de um sentimento universalizante, possibilitando o surgimento de uma subjetividade que permeia o verdadeiro Eu universal, mesmo em ambientes opressivos”.  

Aliás, nisso Denise e ele eram parecidos. Ambos gostavam de discursos grandiloquentes, preferencialmente com platéias atentas e burras. Era nessas situações que realmente surgia esse tal “verdadeiro Eu” de cada um. Um dos palcos prediletos dela era a cantina da faculdade. Lá se deleitava numa retórica vazia. E fazia parte do seu show ostentar coques com pincéis (porque pincéis só lhe serviam para ornar a vasta cabeleira cor de mel, já que pintar não sabia nem o mais trivial sol com montanhas), mantas coloridas sobre os ombros esquálidos, enquanto as mãos alvas e finas dançavam no ar, com dedos longos e finos de pianista sueca que lembravam Liv Ulman em um filme de Bergman. Será que Denise também tinha um espelho no banheiro onde observava a si mesma? Ele nunca saberá. Isto porque ela abandonou-o e decidiu dividir seu banheiro, assim como toda sua vida, com uma alemã de nome impronunciável, misândrica ativista feminista, que conhecera numa manifestação qualquer pela libertação de algum grupo oprimido de mulheres sabe-se lá de onde. Também não importava se eram curdas, palestinas, israelenses ou cubanas. O importante era estar engajada em uma causa da moda. Ele sabia que ela era incapaz de sair em praça pública com cartazes em punho, mas acionava todas as suas redes sociais em favor da libertação das cadelas-bomba iranianas, se isso fosse conferir um certo ar vanguardista. No dia em que ela conheceu a tal alemã não foi diferente. Saiu para comprar cigarros e foi engolida pela passeata, embora não fosse simpatizante dessas inserções em manifestações públicas onde fosse inevitável o contato físico com pessoas, conhecidas ou desconhecidas, da mesma forma que não era fumante.

Ele e Denise eram duplo um do outro. Ele lá, entre os latinos, ela entre os alemães, curdos ou paquistaneses. Chegaram a ter planos juntos. Sonhos insólitos, como tornarem-se vegetarianos macrobióticos após retornarem do Tibete, Índia ou Compostela, abrirem um restaurante krishna no bairro judeu da cidade, ou viver de gorjetas tocando sax numa estação qualquer do metrô em Nova Iorque. Eram apenas sonhos e sonhos era tudo o que tinham. E no fim nem os sonhos compartilhados restaram. “Os ratos são os primeiros a abandonar o barco”, cuspia de lado, logo após ser abandonado, entre um conhaque e outro, no bar onde tinha cadeira cativa num canto do grande balcão de imbuia. Passava noites inteiras ouvindo boleros, bebendo, choramingando sua própria miséria e contando ladrilhos coloridos nas paredes e no chão. “O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja”, lamuriava rua afora, após ser expulso do bar pelo adiantado da hora, nas intermináveis madrugadas sem Denise.

“O pensamento é atemporal”, ouviu uma vez de sua analista, porque é cult fazer análise, além de usar os óculos da moda ou ler a literatura da moda, mesmo que sejam assuntos sofisticados e inacessíveis para pessoas medianas como ele. Não importava. O que ele sabia bem sobre o tempo é que ele passara e sustentar essas personagens torna-se cada vez mais pesado. Ele sentia como se vestisse uma fantasia que se avolumava até tornar-se imensa e capaz de sufocá-lo até a morte. O mundo que ele criou já não era mais sustentável. Entrara em colapso porque era uma quimera. E aquele era o dia do juízo final. Percebera que à medida que o tempo passava, além de ser impossível suportar as doses diárias de ilusões, as pílulas douradas e os placebos cotidianos, tornaram-se impossíveis outras coisas também, como passar uma noite inteira com um desconhecido em um quarto incerto de hotel, com vista para o nada, em lençóis sujos. Ele tinha chegado à sombria conclusão que a vida havia sido implacável, colocando-o em xeque, e a autoconsciência acabou sendo inevitável. Quando a consciência emerge, potente e imponente como o muro de Berlim, é necessário derrubá-la em silêncio, sem qualquer alarde e sem câmeras de TV, se quisermos permanecer os mesmos e se empreendermos a hercúlea tarefa de mentirmos para nós mesmos por toda a vida.

Ele sabia que não podia ser guiado por um chakra de frequência energética tão baixa. Só que do chakra básico ao da coroa havia um mundo inteiro de coisas a serem enfrentadas, uma batalha contra tudo, contra todos e contra si mesmo, sobretudo. A consciência é uma maldição, é um caminho sem volta. O processo foi começando devagar, com pequenos indícios, com anúncios quase imperceptíveis. Com o tempo, porém, isso foi se intensificando até tornar-se insuportável. Os momentos de lucidez aconteciam nas ocasiões mais impróprias, como nas fugas corriqueiras da realidade que ele fazia mecânica e providencialmente desde sempre. Por exemplo, logo após os oito maravilhosos segundos do orgasmo, quando a vida toda fica cor-de-rosa, tão caros e necessários a compulsivos e hedonistas como ele. A grande lança da lucidez caía sobre sua cabeça no exato instante em que o colorido vira cinza novamente, escorrendo viscoso entre as coxas, quando as roupas estavam amontoadas no canto do quarto e as cuecas já pelos joelhos e ao seu lado (ou sobre ele, ou embaixo dele) havia outro corpo em igual situação. Como num estalar de dedos, a magia se desfazia e ele era chamado à responsabilidade por seus equívocos. Porém, era hábil em sair pela porta dos fundos da lucidez.

Era impossível criar vínculos, embora fosse mais fácil isentar-se de responsabilidades em relação aos outros. Quando se tem pouca idade esses relacionamentos prêt-à-porter são mais fáceis. É mais fácil protocolarmente olhar, gostar, saciar-se e dispensar. É mais fácil erguer-se da cama, vestir-se e ir embora, sem dramas, sem passado e sem futuro. É mais fácil esquecer. Debruçar-se sobre si mesmo era insuportável para ele. Porém, os pensamentos e as sensações relacionadas a esses pensamentos não cessavam, enquanto olhava fixamente bem dentro de seus grandes e assustados olhos escuros refletidos no pequeno espelho do banheiro.

Como supostamente acontece com pessoas à beira da morte, ele viu sua vida toda passar como num filme noir diante de si. Relembrou dos inúmeros relacionamentos fugazes e fortuitos que teve ao longo da vida, dos tantos corpos que já partilharam de sua mais profunda intimidade e que ao mesmo tempo não partilharam intimidade alguma, porque ele sempre conseguiu esconder-se atrás de seus personagens e sempre conseguiu entrar e sair das vidas sem qualquer remorso ou culpa. Na grande tela que se abria em sua mente via desfilarem os mais variados tipos que já estiveram sob seus lençóis e percebia que em suas relações havia um padrão funesto de repetição, mudavam os atores, mas a trama era a mesma: trocas de olhares, umas frases de efeito soltas e certo charme superficial para seduzir, alguns toques sem carinho, carícias frias, suspiros torpes, espasmos fracos e a saída silenciosa sem olhar para trás. O resto era apenas vazio. Não havia nada antes e a regra era não haver nada depois. Era seguro assim. Riscos ele nunca quis correr. Não esses de ordem afetiva ou sentimental. Corria outros, talvez piores. E era doloroso perceber isso da forma como percebia naquele momento, parado e desprotegido em frente ao espelho.

Embora errático, tornara-se menos inconsequente com o passar dos anos. Havia ficado mais seletivo, mais exigente e mais emocionalmente incompetente também. Incompetente para uma porção de coisas que foram simples e claras, provavelmente porque irrefletidas e porque a juventude traz consigo um sabor um tanto soberbo de saber-se onde, quando e quem. Isso confere grande dose coragem e capacidades de enfrentamento, ao ponto dos sujeitos acreditarem que são capazes de tudo. Ou quase. Talvez seja por isso que realmente consigam, porque não tem consciência de suas limitações. A maior condenação para aquele homem em frente ao espelho era essa: ele era consciente de suas incapacidades. Para ele não eram mais permitidos esses pequenos luxos e não lhe era mais concedido o direito de não saber. Havia sido expulso para sempre do paraíso por haver mordido a maçã proibida do conhecimento. E com essa nova realidade lhe foi imputada toda a carga de ser adulto, o que ele havia tentado negar a vida toda.

Entrara numa espiral de fumaça, vertiginosa e sem volta. Algo incerto e profundo estava acontecendo. Tivera um sonho na noite anterior. Acordara suado e sobressaltado. Nesse sonho, um homem elegante, alto, trajando um terno de linho branco e um chapéu panamá, pele morena, barba clara, olhos de um azul celestial e cabelos cacheados suavemente caídos sobre a nuca conduzia-o pela mão por um túnel. O homem mostrava-lhe o futuro em imagens holográficas gigantescas e alertava para os perigos das armadilhas que ele mesmo criou. Mesmo em sonhos ele era cético. Há tempos perdera a ingenuidade em relação ao seu destino e desaprendera essas coisas simples e cotidianas, como crer no desconhecido, acreditar em sonhos sem explicação psicanalítica, rogar aos deuses antes de dormir, ancorar seu anjo, prostrar-se frente a um altar, ou mesmo aos pés da cama, à noite, vestindo pijama de flanela xadrez, e oferecer seu corpo, sua alma e sua oração a um Deus. E vivera bem dessa forma. Até passar dos quarenta anos e após uma noite mal dormida sentir-se um miserável em frente ao espelho. Pensou em ajoelhar-se e rezar, pensou em preparar um banho com sal grosso e sete ervas, pensou em calmantes, pensou em ligar para seu analista. Mas tudo seria em vão. Sua mente era povoada pela lembrança do homem do sonho dizendo, com ar profético e hálito fresco de anis, palavras que ele não conseguia assimilar porque se detivera nos sapatos reluzentes de bicos finos que usava. Não eram dele ainda as palavras do homem de grandes e brilhantes olhos azuis da noite anterior.

A imagem mais marcante que surgia era a de uma ampulheta colossal no fim do grande túnel de hologramas, cuja areia esgotando grão a grão chegava perto do fim. A sensação de proximidade do fim trazia um caótico encadeamento de imagens dissociadas: o ponteiro lento dos segundos do relógio na parede da repartição cinzenta onde passava oito angustiantes horas de seus dias, o relógio de corda de seu avô tiquetaqueando em seu pulso no ritmo de seu coração arfante, o relógio cuco na parede, herança de sua avó, esganiçado avisando a hora avançada, as doze badaladas do relógio de pêndulo sinistro no canto do grande salão com vitrais iguais aos da Catedral de Notre Dame, seu rosto cansado em frente ao espelho, a garrafa de gim quase vazia da noite anterior, a voz de Piazzolla ainda retumbando na vitrola desligada “¡Loco! ¡Loco! ¡Loco! / Como un acróbata demente saltaré, / sobre el abismo de tu escote hasta sentir  / que enloquecí tu corazón de libertad”. Ressaca existencial como se tivesse bebido tantas doses de tantas vidas diferentes que seu organismo entrou em colapso catártico.

O homem do sonho dizia-lhe, olhando-o profundamente nos olhos, que havia pedido ao “Juiz” que seu tempo fosse dilatado, mas que ele havia desperdiçado sua vida e que talvez ninguém pudesse salvá-lo. O homem fazia as terríveis revelações caminhando ao redor dele, com os braços cruzados para trás, enigmático, sereno e luminoso como a lua. De repente ambos estavam caminhando lado a lado por uma avenida movimentada, em meio aos carros e pessoas apressadas. Ele estava descalço e sem camisa e parecia que não era visto por ninguém. Enquanto isso, o homem continuava a fazer-lhe revelações, mas ele não conseguia ouvir por causa do barulho dos carros e máquinas. Sabia somente que ele dizia que seu tempo era curto e que ele tinha que operar mudanças radicais. Assustado e atordoado, ele olhou para o céu, buscando fôlego e quando se voltou para o lado, não viu mais o homem. Ele estava sozinho e perdido em uma avenida movimentada qualquer de uma cidade que desconhecia e que poderia ser qualquer lugar. Nada o ajudava a identificar onde estava. As pessoas eram todas iguais, não conseguia ver rosto algum, os carros rasgavam velozes a avenida, via as fachadas dos prédios, mas não conseguia identificar nada nitidamente.  Olhou para o chão e percebeu seus pés brancos nus contra o asfalto, subiu os olhos e viu sua pernas nuas, seu tórax nu, seu sexo descoberto. Mas não sentiu vergonha ou frio, apenas desamparo. Tentava gritar, pedir ajuda, porém sua voz não saia da garganta. Desesperado começou a correr entre as pessoas que iam e vinham e pareciam não ver ou não se importarem com o homem nu que corria. Foi nesse momento que acordou.

Suado, sobressaltado e sentindo a presença do homem do sonho, com seu cheiro incensado e hálito fresco, sentou-se na cama. Foi então que levantou, bebeu alguns goles de gim que restaram no fundo da garrafa e tentou recobrar o fôlego em frente ao espelho, apoiando-se na pia. Sua vida passava como um filme do qual ele não participara. Lembrou-se de sua infância. Fechou os olhos e espirou profundamente três vezes. Quando tornou a abri-los percebeu que sua infância era algo longínquo e inatingível, da mesma forma que seu futuro. Quanto mais olhava para si, mais percebia o quanto era tarde. Sabia que precisava agir, que não era mais possível ficar inerte e lamentar. E sabia que a decisão precisava ser tomada naquele momento, naquele minúsculo e úmido cubículo azulejado, daquela imagem amargurada refletida no espelho. Foi então que decidiu: a partir daquele dia, retiraria da casa para sempre qualquer objeto que refletisse sua imagem. E num soco repleto de toda raiva e pavor que sentia quebrou o pequeno espelho que tinha diante de si.