quinta-feira, 11 de março de 2010

DEIXANDO DE SER GAUCHE PELO MENOS UMA VEZ NA VIDA

Ele sabia bem o que o poeta quis dizer. Em seu ouvido a mesma voz do mesmo anjo torto sussurrava bem baixinho: “Vai! vai ser gauche na vida”. E ele foi. Era uma noite clara como poucas vezes havia visto. Silenciosa e um tanto fria. Ele caminhou pelas ruas absolutamente desertas, quase tão desertas quanto seu próprio coração. A lua de São Jorge iluminava, branca e avassaladora, seus escuros caminhos interiores. A medida que adentrava a escuridão e essa escuridão ia sendo clareada pela luz da lua, como se o breu fosse cortado pelas armas de Jorge, via com mais precisão o tempo que se aproximava. A cada passo que dava percebia melhor o tempo que perdeu alimentando-se de migalhas de carinho e atenção, sua incongruência, suas negativas, suas impossibilidades, suas tentativas de felicidade ilusória e seus momentos fugazes de alegria, suas noites insones, imerso em dores, jazz, cigarros e vinho barato.

Conseguia contemplar racionalmente a efemeridade da vida, mas seu coração sempre negava toda racionalidade. Sabia claramente que possuía um coração que o boicotava e que "um coração selvagem, cego e apaixonado" era eufemismo para uma tendência auto-destrutiva. Eufemismos e fugas de ralidade com sofismas sofisticados eram sua especialidade. Dom Quixote lutando contra gigantes imaginários.

Sabia-se errático, havia desejado de tudo ao longo da vida, usando e abusando do verbo provar, queria a sede e a fome eternas de amar e desejar. Via-se agora perdido no meio da vida. Via seus sonhos naufragarem, via que não havia nem sequer tentado realizar determinadas coisas e que as coisas que tentou com mais convicção haviam sido grotescos fracassos. Havia sido impulsivo, intemperante. Mas estava despertando do sono letárgico, guiado pela lua e pela lança de Jorge, talvez, ou pela infinita compaixão de Buda, ou pelo perdão de Jesusinho. Ou simplesmente por um psicanalítico e avassalador insight.

Desejava profundamente, ao melhor estilo Fernando Pessoa, “sair para fora de todas as casas, de todas lógicas e de todas as sacadas, e ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos, entre tombos, e perigos e ausências de amanhãs”. Era uma vontade de fugir de tudo e ver o que é mais essencial e profundo. Necessitava entrar em contato com o que era mais essencial em si e na vida, sem as quinquilharias do cotidiano, sem as interferências do dia-a-dia, sem precisar “dourar pílulas”, sem máscaras, sem fantasias, porque sabia que da noite para o dia não ia crescer. Havia chegado num ponto que de tanto pensar em si mesmo e na realidade que o cercava já não sabia mais o que era sonho, ilusão e o que era realidade. Já não sabia se o que pensava era realmente o que pensava e o que via era realmente o que via ou se havia criado uma realidade paralela (às vezes mais colorida, em outras muito mais cinzenta), onde sonho e realidade eram tecidos da mesma matéria-prima, onde ambos eram, por fim, a mesma coisa. Em todo caso, buscava sem cessar o que havia de mais essencial e verdadeiro, pois já havia cansado de varar noites em busca de algo incerto e obscuro, mesmo que guardasse quase com devoção as marcas conquistadas nas lutas contra o rei e nas discussões com Deus.

Depois de caminhar por horas percebeu que estava longe de casa e que não havia mais como voltar. Conseguia ver bem ao fundo, do alto de um morro, a cidade que contemplava como um amontoado de pontos luminosos longínquos. Como um Sidarta, sentou-se na parte mais alta do morro, isolado de todos e de quase tudo. Via os milhares de pontos luminosos no céu abobadado e lembrara que havia lido - não sabia onde - que aquelas estrelas que via não existiam mais, que eram apenas um resquício da luz que restara, viajando milhares de anos luz perdida no espaço, eram apenas a fagulha que restara do que não mais existia, perdida na imensidão até chegar, como um eco longínquo, como uma reminiscência. O céu salpicado, formando uma abóbada luminosa, quase unia-se às luzes da cidade. Da mesma forma via que nada lá embaixo era da mesma forma que foi, se é que foi um dia da forma como pensava. E ele também não era. E como queria poder voltar no tempo e conseguir manter tudo como sempre foi! Mais um pensamento egoísta e infantil absolutamente impossível de realizar, ponderou.

Deitou-se sobre a grama um tanto úmida de orvalho, sentindo todo seu corpo em contato com a terra. Iluminado pela noite, fechou os olhos, respirou profundamente incontáveis vezes e finalmente sentiu-se pela primeira vez na vida sendo parte de algo maior que ele próprio, absolutamente atemporal e efêmero. Sentiu seu corpo estremecer num calafrio brando e deixou-se levar pelo esvaziamento e pela ausência de sentimentos. Como um ex-voto aos deuses, abandonou-se, ao passo que era esquecido pelo resto da humanidade e a esquecia. E finalmente desapareceu no infinito como uma fagulha de luz entre as estrelas mortas.