sexta-feira, 5 de março de 2010

WESTERN TRAGICÔMICO

Coração apertado na plataforma. Atraso fenomenal multiplicado por mil, pela ansiedade e pela saudade. Ele sabia que ela seria uma das poucas pessoas, se não a única, que viria para o longínquo lugar onde ele vivia somente para vê-lo, sem titubear, enfrentando uma viagem cansativa, que mais parecia uma daquelas comitivas de carroças puxadas por juntas de bois, e a chegada em um paradouro deprimente. Quase dava para ver a bola de feno rolando pela rua poeirenta e o som do vento nas copas das árvores. Ele valorizava muito o esforço e o desprendimento dela em vir.

Noite alta já, aproxima-se no meio da escuridão um ponto luminoso, talvez do lampião da carroça que puxava a comitiva. Finalmente ela conseguiu desembarcar. Abraçaram-se longamente. Rumaram para casa em altas e divertidas conversas, como se o tempo não tivesse passado e a distância não existisse. E realmente não existia distância nem tempo no amor deles.

Ansiosos e afoitos um pelo outro buscaram pela noite da cidade velha algo que os divertisse como em idos tempos. Sabiam que não era fácil viver em terra de chimangos e maragatos (e realmente não foi), da mesma forma que era praticamente impossível encontrar um restaurante aberto por volta da meia-noite, onde pudessem sentar, comer calmamente e conversarem sem pressa. A província tem hábitos bem característicos.

Passaram por situações peculiares, irritantes e tristes, que poderiam ter sido muito piores se não estivessem juntos. Sentiam-se dois forasteiros procurando um Saloon, estalando botas de couro e tilindando esporas rua afora, com suas calças justas e chapéus de abas largas, num vilarejo esquecido no oeste dos Estados Unidos do século XVIII. Cenário digno de John Wayne.

Enquanto caminhavam pelas ruas passavam pelas pessoas em grupos nas esquinas, encostadas nos carros estacionados com a porta do porta-malas erguido e música alta ou subindo e descendo de carro avenida principal. Essa cena automaticamente reportou a um carrossel girando, girando, girando, e àquela melodia insuportável de caixinha de música que os parques de diversões tocam enquanto as pessoas estão sentadas nos cavalinhos que sobem e descem, sobem e descem. Poderiam elencar com tranquilidade as dez coisas que somente aquele lugar tinha. Mas não, o objetivo deles era outro, de preferência que contemplasse esquecer definitivamente onde estavam. Ademais, haviam decidido não reclamar da vida e não verem o lado ruim das coisas. Sendo assim, como duas Polianas peregrinaram pela noite insólita, o que somente terminou quando, vencidos pelo cansaço e pela certeza de não conseguirem encontrar nada para comer além de cachorro-quente de esquina, decidiram rumar, com seus estômagos preservados da bomba de efeito retardado da esquina, a um bar que ele havia descoberto há pouco. Um oásis no meio do caos. Música boa, ambiente bonito, pessoas interessantes. Nem parecia a cidade que haviam visto poucas quadras atrás. Tiraram seus chapéus e suas esporas e os deixaram na soleira da porta.

Bacantes que eram, beberam, dançaram, cantaram em coro, mataram a vontade um do outro, contaram histórias e principalmente celebraram o mais puro e singelo amor, aquele amor desinteressado que sentiam reciprocamente. Uma noite memorável. Mas a noite na província acaba cedo. Ou eles que costumavam se estenderem demais em suas noitadas. Retornaram para casa, trôpegos e felizes. E repousaram exauridos e satisfeitos.

O dia seguinte amanheceu bonito, embora quente. Passearam pela cidade deserta e rumaram para casa munidos de um pote de sorvete enorme, trazido em riste. Foi um dia de preguiça, o que ambos adoravam: soneca, filme, muito sorvete. Já a noite foi eufemisticamente peculiar. No início foram a um bar frequentado por ele com certa frequência, sentaram-se em uma mesa na beira da calçada, de frente para a praça central. O clima estava agradável e ao fundo ouviram Nina Simone cantar lindamente I Loves You, Porgy. Foram momentos deliciosos que infelizmente duraram pouco. Quando o bar estava prestes a fechar, peregrinaram, mais uma vez, a outros lugares. E a noite terminou num boteco de mau gosto, com cerveja ruim e pagode.

No fim da noite, já em casa, exaustos e jogados na cama de pijama, chapéus, botas e esporas pendurados, entre smirnoff ice e doces de confeitaria, riram de suas próprias desgraças, divagaram sobre a existência, constituiram tratados de psicanálise, filosofia, sociologia e relações humanas, fizeram terapia em grupo, aconselharam-se mutuamente, confessaram-se, deram palpites e pitacos que iam de moda à vida sexual (própria e alheia) e praticaram seu esporte favorito: falar mal dos homens.

Quando o sol raiou, ainda com fôlego para horas de boas gargalhadas, resolveram dormir, com o coração em festa e aquele gosto bom de estarem juntos, embora soubessem que o sonho tinha prazo de validade e esse prazo estava prestes a acabar e a realidade invadiria furiosa suas vidas e seria inevitável esconder as lágrimas na despedida.