quinta-feira, 1 de abril de 2010

DAY IN, DAY OUT

                                                                           
                                                                    For my sweet "B."


“That same old voodoo follows me about
That same old pounding in my heart, whenever I think of you
And baby I think of you
Day in and day out

Day out - day in
I needn’t tell you how my days begin
When I awake I get up with a tingle
One possibility in view
That possibility of maybe seeing you”
        - Billie Holiday -
 
Mas também o amanhecer podia ser outro. Imóvel, ainda deitado na cama, com olhos fixos em um ponto imaginário, ele era um amontoado de emoções liquidificadas esparsas sob os lençóis, entre gostos e cheiros da noite anterior. Não tinha passado ou futuro naquele momento. Era apenas devir e desejo. O desejo de ser possuído e consumido pelo ser que reconhecera amado e amante. Queria reter o amor infinita e indefinidamente, queria entrar no outro e queria ser invadido por ele, rasgando-lhe as carnes do peito, deixando marcas indeléveis. Queria ser consumido pelo amor como fogo, transmutando seu corpo e sua alma em outros elementos quaisquer. Cinzas que fossem. Transmutar era mais que um conceito, era uma necessidade e uma certeza entre eles. Sabiam-se incapazes de permanecerem os mesmos. Ao passo que eram capazes de amar intensamente, sabiam que esse amor poderia não durar a vida toda como sonhavam, porque existia o espectro da realidade batendo à porta, por mais que o trancassem para o lado de fora, ele estava sempre presente. Foram inexoravelmente condenados à serem conscientes de si mesmos e reconheciam-se limitados, principalmente no que se referia à entregas e à vida cotidiana. Haviam tido até então um amor que não era parte do contínuo da vida diária de cada um, embora fossem presentes um para o outro ao longo das vinte e tantas intermináveis horas do dia em que não estavam juntos. Era um amor de cativeiro, encerrado entre quatro paredes na maior parte do exíguo tempo compartilhado que tinham. Mas não um amor marginal, apenas um amor desprovido de cotidianidade. Experimentavam, vez ou outra, pequenos fragmentos do dia a dia, doses ínfimas de uma vida a dois que sentiam, bem no fundo de seus corações, ser o mais próximo da plenitude e da paz que haviam conseguido ao longo de suas existências erráticas. Saboreavam cada momento como um fruto maduro, regozijavam-se com esses pequenos átimos de felicidade. Seus momentos eram fugazes e intensos, plenos e precários, mágicos e duramente reais. Eram sonhos pautados pelas incertezas e mistérios da completude.
 
Embora soubesse que era impossível sair dessa fantástica aventura amorosa e de autoconhecimento sendo o mesmo e que as marcas deixadas em seu coração eram indeléveis e imprescindíveis para que se tornasse um humano melhor, não queria aquele vazio, aquela dor, aquela navalha cravada no peito todas as manhãs, quando abria os olhos e permanecia inerte por um longo tempo com olhar perdido entre as ranhuras das paredes. Queria mais, queria luz, queria sair das sombras de si mesmo. Havia recebido a condenação mais atroz concedida a um amante: amar com uma intensidade extrema, até o limite de suas forças, ao ponto de causar dores profundas e deixar marcas eternas.
 
O amor que sentia libertava e paradoxalmente aprisionava. Libertava o ser amado, desobrigando-o de qualquer compromisso ou retribuição, mas aprisionava a ele próprio no amor que sentia. Era cativo de si mesmo, soterrado por um sentimento vindo das profundezas de seus abismos escuros e que certamente acabaria por consumi-lo.
 
Reconhecer o amor pelo outro como libertador não o tornava bom, belo ou justo. Pelo contrário. Ele era hobbesianamente mau. Queria ver aquele ser que dormia indefeso ao seu lado invadido por uma felicidade proporcionada por ele, sem gratidão, reconhecimento ou retribuição. Nutria-se do amor refletido nos olhos do outro. E isso era, em última instância, totalmente narcisista. Não conseguia saber, dissecando tão profundamente as visceras do amor, se amava outro ser, se amava o amor pelo outro, se amava o seu próprio amor dispensado ao outro, se amava sua capacidade de amar ou se era uma mera projeção de seu frêmito de amar após anos de tentativas inúteis e fracassos.
 
Sentia, porém, com absoluta clareza, que amar aquele ser assustado com a fúria de um sentimento novo para ambos era a única redenção possível, a única alternativa para evitar a miséria humana que tão bem conheciam. Quando ouvia daquela boca amada que era amado e quando via nos olhos molhados e profundamente tristes do outro que o amor que sentia era correspondido, seu peito bramia extasiado, seu coração amargurado aquecia-se e sentia sua alma expandir-se em todas as direções.
 
Entretanto, imediatamente após essa explosão de paixão em fúria eram invadidos por uma força contrária avassaladora. Acordados do transe amoroso ouviam as batidas prementes da realidade na porta. E vestiam suas carapaças, porque o sol já havia se posto e era hora de partir, porque era a única forma de suportarem suas existências separados e porque era a maneira que encontraram para proteger, precariamente, o amor que construiram.