terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

DO DESAPEGO


O primeiro raio de sol rasgou o escuro do quarto, doloroso. Mas ele respirou aliviado. Havia rolado pela cama, encharcado de suor, inquieto e ofegante, mais uma noite inteira. Entre seus velhos fantasmas. Pesadelos novos e antigos, conscientes e inconscientes. De olhos estalados, olhava compulsivamente para o relógio na cabeceira, cujos ponteiros pareciam estáticos. Levantava cambaleante, fumava mais um cigarro no escuro. O tempo era lento naquele pequeno cubículo de cortinas de veludo pesadas imerso em um cheiro denso e adocicado de mofo.

Seus pensamentos eram uma torrente incontrolável. Sabia, porém, o que tinha que fazer. Mas não conseguia agir. Estava preso à insônia e seus pensamentos o aprisionavam numa esfera distante de tudo. Atormentado. Inerte. Cansado. Humilhado.

Vez enquando, vencido pelo cansaço, adormecia. E sonhava. Em um dos sonhos, caminhava por uma estrada escura, guiado apenas pela luz fugidia da lua e avistou uma mulher aproximando-se. Com grandes olhos negros, descalça, mãos enrugadas crispadas contra o céu, sotaque espanhol, cantava seu futuro numa melodia triste. Ela falava olhando-o fixamente no fundo dos olhos. Parecia rogar por ele, impostava ambas as mãos na direção do seu rosto, em transe, entoando cânticos indecifráveis, parecendo trazer-lhe um aviso. Aviso esse que ele não compreendia. Da mesma forma que nunca, ao longo da vida, conseguiu perceber os sinais com os quais se deparava. Sentia uma espécie de proteção vinda dela, mas sentia um abandono infinito de tudo e uma impotência irreversível frente ao caminho a seguir. Estava completamente sozinho num mundo que sabia não ser o seu, mesmo não sabendo que mundo, afinal, lhe pertencia. Ela falava frases sem sentido numa velocidade desconcertante, com sotaque carregado. Ele não compreendia, mas não sentia medo. Queria pedir-lhe explicações, mas estava catártico, como se seu corpo não fosse seu corpo, como se visse a si mesmo de fora, estando o mais dentro de si que já havia estado.

Havia um caminho a seguir. Ele sabia que o caminho estava à sua frente. Mas não conseguia segui-lo. Como numa cegueira. Com visão turva, pensamentos confusos, ele não conseguia ir à diante. E vinham-lhe à mente situações semelhantes enfrentadas em tempos idos. Mesmo assim ele não tinha atitudes diferentes. Tentava ficar atento ao que a estranha pitonisa de olhos arregalados e vestido rodado lhe falava, buscando alguma lógica nas palavras. Tentava, em vão, refletir sobre a mensagem que ela tentara transmitir.

As palavras dela o despiam. Acordou sobressaltado desse sono que parecia um transe premonitório. E desnudo ficou sem saber o que fazer com aquilo que foi dito. Sentia apenas um vazio imenso no peito. Um desespero brando e angustiante. Queria pegar o telefone, ligar para as pessoas que amava, pedir consolo. Mas não tinha a quem chamar. Talvez nem tivesse telefone. Havia rechaçado qualquer tentativa vã de encontro e de comunicação com outros seres. Esse mundo conhecido não tinha qualquer sentido para ele. Havia abandonado tudo que era relacionado ao mundo exterior e às coisas do cotidiano. E ironicamente não conseguia estabelecer contato com seu mundo interior. Tinha somente a companhia dos livros não lidos amontoados pelas estantes da casa e pelos fantasmas que rondavam sua cama, em sonhos e em vigília. Então suspirou fundo três vezes, fechou os olhos e estendeu a mão para seus companheiros.