segunda-feira, 8 de agosto de 2011

LA QUESTION

Rafael Perez - "Everytime I look At You"

Para ele tudo tinha um lugar definido. A vida estava organizada e todas as peças do quebra-cabeças tinham um encaixe perfeito. Pelo menos essa era a sensação que tinha superficialmente. E superficialmente funcionava bem. Porém, quando lançava um olhar interior mais detido, conseguia ver a desorganização e a poeira que se acumulava nos cantos. Justamente por perceber isso, evitava a tarefa dolorosa de vasculhar seus cantos escondidos. Bastava estar vivo e estar seguindo o que havia sido designado para si por outros. E não viveria mal dessa forma irrefletida. Sabia que era possível viver assim a vida toda.

Começou a perceber, porém, que surgia uma intensa angústia, como se um cordão tensionado estivesse prestes a rebentar ou uma comporta prestes romper em algum lugar ainda desconhecido dentro de si. E sabia que essa explosão seria devastadora. Evitaria o quanto pudesse esse momento. Tratou de cobrir toda a poeira com filosofias orientais, comida macrobiótica, religião, psicanálise, álcool, relacionamentos fugazes. Tentou fechar todas as janelas, todas as portas, cobriu todas as frestas da luz do sol, tirou o telefone do gancho, não leu e-mails, não atendeu à campainha. Como sempre foi cético e um tanto soberbo, achou que conseguiria manter tua vida numa câmara de laboratório com temperatura, umidade e pressão controladas. Era um cientista, trabalhava com dados precisos, tinha metas e queria resultados claros. Imaginava que conseguiria criar um casulo hermético. Afinal, já havia conseguido controlar tantas coisas e era exigido por todos a manter o controle, que essa tarefa parecia ser, além de fácil, o que todos esperavam dele. Vestiria o avental branco, manipularia os materiais e ao fim teria a velha sensação de dever cumprido, de ter feito o que seu pai esperava, o que sua mãe havia planejado para ele, o que seus pares desejavam.

Não adiantou. Existia algo, talvez externo, e muito mais forte que ele.  Foi obrigado a reconhecer que não conseguiria conter ou manipular a energia da vida e da natureza. Essa vida que invadia todos os lugares, penetrava profundamente todas as coisas e tornava-o frágil e desprotegido. Percebeu-se à deriva, inevitavelmente, ao sabor do destino e de suas forças.

Quis outra vida, arrumou a mala e mudou de cidade. Buscou reescrever sua história. Encontrou um trabalho, um grande amor e arrumou a casa. Tentou colocar a vida dentro de uma bolha, alheia às intempéries. Por um tempo conseguiu. Era uma grande ilusão, sabia, embora negasse. No fundo de seu coração sabia que não conseguiria bloquear a vida exterior que insistia em invadi-lo. A cidade se tornou um tropeço, o trabalho uma obrigação, seu amor o deixou para sempre. Viu-se desamparado.

Decidiu, então, mudar de estratégia – porque julgava-se também exímio estrategista. Abriu todas as janelas, todas as portas, desobstruiu todas as frestas e estourou a bolha com força. Deixou a vida entrar, torrencial, carregando todos os entulhos que havia acumulado. E descobriu uma nova possibilidade de amor. Quando menos esperava, alguém entrou pela porta que havia deixado aberta. Viu um ser que chegava de mãos vazias, braços abertos e um olhar que lembrava vagamente o homem que foi antes de tantos desastres. Permitiu que esse desconhecido permanecesse, mesmo que fosse apenas para identificá-lo, classificá-lo, catalogá-lo e arquivá-lo, como fazia habitualmente. Não conseguiu. Era algo inclassificável, um ser etéreo e quase impalpável, que chegou sem pedir nada e nada perguntou. Ele percebia que existia algo de seu nesse outro ser. No fundo sabia que não era por acaso que havia entrado pela porta entreaberta, sem ser anunciado ou esperado.
Natural e amorosamente investigaram-se, esmiuçaram-se, descobriram-se. Mas havia uma barreira entre eles, estabelecida por medos, distâncias e reservas. E não aceitavam essa barreira passivamente. Era desconfortável e dolorosa a limitação. Não conseguiram suportar o distanciamento. Queriam ir ao mais fundo do outro, chegar às entranhas mais remotas, os lugares mais secretos, onde medos, reservas, preconceitos, julgamentos, hábitos e tradições não fariam qualquer sentido.
Questionaram-se mutuamente sobre os motivos desse sentimento de desconforto em relação ao distanciamento que eles próprios estabeleciam. Ambos tinham motivos para manter as armaduras e não conseguiam vencer as barreiras interiores que haviam construído. E sabiam que deviam romper esses limites, porque isso era a vida chamando-os e essas posturas chocavam-se frontalmente com tudo a que se propunham naquele momento, implicitamente, com o outro e com eles próprios.
Então, ele conectou-se ao mais profundo instinto vital que conseguia localizar em meio aos escombros do que era. Varreu a poeira dos cantos, respirou fundo, queimou um incenso, mentalizou um mantra, localizou o velho LP com a música que não saia de sua cabeça: “Je ne sais pas qui tu peux être / Je ne sais pas qui tu espères / Je cherche toujours à te connaître / Et ton silence trouble mon silence”**. Recostou-se e entregou-se.   

** “Eu não sei o que você pode ser / Eu  não sei o que você espera / Procuro sempre te conhecer / E seu silêncio perturba meu silêncio” (Françoise Hardy – La Question)