terça-feira, 30 de agosto de 2011

O IRENE NOSSO DE CADA DIA



“There's a place in the sun for anyone
Who has the will
Chase one and I think I found mine”
("Let Me Kiss You" - Morrissey)



Que bom seria se todas as catástrofes fossem anunciadas como foi a chegada do furacão Irene na costa dos Estados Unidos. Seria confortável e seguro. Teríamos tempo de fechar as portas, reforçar as janelas, construir barricadas, comprar suprimentos, correr para o bunker. Ao menor sinal de ameaça, a sirene de emergência soaria por todos os cantos da nossa vida e já saberíamos o que fazer para nos proteger. Levaríamos nossos bens mais preciosos, nossos queridos e nossos animais de estimação para um lugar protegido e esperaríamos a bonança. Pena que nem sempre há tempo de fugir para um lugar seguro e nos prepararmos para a chegada do furacão. Nem sempre temos equipamentos sofisticados o suficiente para nos avisarem que a catástrofe se avizinha.

Quando vi milhares de pessoas abandonando suas casas para não serem arrebatadas pela fúria do Irene, pensei em quantas vezes eu já deixei tudo para fugir do furacão. Não foram poucas. Mas sempre que isso aconteceu, eu já sentia as rajadas dos ventos na cabeça e as tempestades nos calcanhares. E era, quase sempre, quase tarde demais. Foram retiradas loucas, desesperadas, carregando o que dava e largando um monte de coisas pelo caminho, sem saber se um dia poderia reaver o que havia abandonado. Se as minhas catástrofes pessoais fossem anunciadas com antecedência eu teria feito várias coisas de forma diferente. Teria planejado minha retirada com cautela, teria revisto meu passado e carregado comigo o que era realmente fundamental, teria preparado suprimentos para sobrevivência, me certificaria que havia tomado todas as medidas necessárias para proteger o que estava deixando para trás, na tentativa de reduzir danos.

Não aconteceu assim. Embora várias das minhas catástrofes tenham sido anunciadas, eu não entendia os sinais. E quando vi pessoas negligenciando os avisos de perigo em função de estarem na rota do furacão e decidindo ficar em suas casas durante a passagem do Irene lembrei muito de mim. Porque sou meio soberbo às vezes e acho que posso contornar tudo, até mesmo as forças que desconheço, que independem da minha vontade e da minha ação. Porque eu tenho um ideal romântico e infantil de achar que posso tudo, fusão perfeita entre Peter Pan e Superman. Por tudo isso, nunca tive tempo de planejar uma saída segura. Eu achava que o caminho que seguia era o mais correto, no momento em que o escolhia. E era mesmo, porque assim eu julgava e porque era o que eu conseguia ver no momento. Depois, com o tempo e com as surras, via que não era bem assim. E redefinia rotas. Sem GPS.

Entro em crise o tempo todo, sou surpreendido às vezes pelos Irenes da vida, já que sou demasiado humano, mas tento desenvolver minha capacidade de enfrentar as situações de forma mais plena e consciente. Viver é um jogo de tentativa e erro. Não sabemos muito bem no que vai resultar o que estamos fazendo hoje. Isso me angustia um pouco. Mas vejo que o que diferencia as pessoas é a capacidade de lidar com a dor, com a frustração e com as adversidades, é a capacidade que temos de enfrentar os furacões de forma corajosa. E corajoso aqui não é, definitivamente, enfrentar o furacão de frente. Pelo contrário. Corajoso é saber a hora de recuar, de bater em retirada, porque existe uma força muito maior que a gente. Humildade é coragem. Nessas horas, a soberba é que nos cega e nos joga no olho do furacão, perdidos para sempre. E tento mentalizar, como um mantra, que quanto melhor consigo lidar hoje com as dores que surgem, melhor poderá ser o amanhã. E sim, isto é utopia pura. Na veia. Mas acho que esperanças e utopias devem estar no kit de sobrevivência, junto com água potável, comida desidratada, cobertores e lanternas.