segunda-feira, 15 de agosto de 2011

À SEGUNDA VISTA

Fernando Barreto - "Intimidade"

Não sou muito manso em primeiros encontros. Sempre fico tenso, sem saber o que falar e onde colocar as mãos. Sinto-me superficial e artificial. E talvez seja mesmo. Neuroticamente, tendo a planejar o que dizer, como sentar, para onde olhar, como me movimentar. Nunca funciona. Eu não sou assim. Na verdade não sei planejar. Nada. Sei sonhar (e isso faço muito), mas planejar estrategicamente, nem minhas contas do mês eu consigo. Em primeiro lugar, nunca sei por onde começar. Em segundo, nunca traço metas claras e objetivas. Em terceiro, mesmo que tivesse metas, não conseguiria segui-las. E não é por rebeldia não, é por absoluta falta de jeito de andar na linha. É, sou um homem de desvirtudes.

Sei que você deve estar pensando: “Péra aí! A gente não deve planejar essas coisas!”. Claro que não devemos. Mas somos tentados a fazê-lo o tempo todo, nem que seja um pouquinho, na tentativa de que tudo saia perfeito. Como todo mundo, tenho lá minhas táticas e idiossincrasias num primeiro encontro. As vontades do Id, as verdades do Ego e a vigilância do Superego. Minhas táticas não funcionam, admito tristemente. Eu acabo me boicotando sem querer. Esteticamente algo sempre sai errado. Seja a calça curta demais, mostrando a pior meia, escolhida ao acaso pela ansiedade, seja a camisa que marca a sudorese em excesso pelo nervosismo adolescente. Por isso detesto os primeiros encontros. Fica uma sensação que sorri com uma sujeira no dente da frente, que respinguei vinho em algum lugar impróprio, que não segurei os talheres corretamente ou que disse alguma grande bobagem. Não tem coisa mais destrutiva que deixar a sensação que fui um imbecil, principalmente quando realmente fui. E quando esses pensamentos me atormentam, o que acontece o tempo todo, procuro respirar fundo e não usar qualquer tática. Tento ser o mais “eu mesmo” que consigo, sempre morrendo de medo e cuidando para não assustar meu interlocutor, o que é bem comum. Tento tirar as máscaras e não usar ardis. Mas sou meio truculento com essas coisas também. Falta-me jeito para achar a medida certa. É, sou um homem de desmesuras.

No segundo encontro já é diferente. Se a pessoa saiu comigo uma vez e aceitou encontrar-me pela segunda, já dá para ter um indício que o primeiro encontro não foi tão desastroso assim. E relaxo um pouco. Mas também pode ser que encontre alguém obsessivo como eu, que talvez queira (também) tirar “a prova dos nove” e desfazer equívocos. Melhor. Porque assim é possível tentar retificar mal entendidos e principalmente, ver as coisas com mais clareza na busca de alguma certeza, mínima que seja. É, sou um homem de desconfianças.

No fundo, eu não sou muito manso com encontros de maneira geral. Primeiros, segundos ou ducentésimos, onde não haja familiaridade e intimidade. Conhecer pessoas é meio desconfortável para mim, mesmo sendo delicioso construir intimidade, algo que adoro. Gosto mesmo do fim do processo. Início e meio me incomodam. Não fico em paz ao “encontrar” algo desconhecido. Quero logo tirar os sapatos, afrouxar o nó da gravata, me jogar no sofá e erguer os pés, comprometida e relaxadamente. Gosto mesmo é de “reencontrar” o que já conheço. Parece meio medíocre querer somente um mundo conhecido. Mas é confortável. O início é aquela “pavonice”, a gente mostra o que - acha que - tem de melhor, cuida de todos os detalhes, mede palavras e gestos. O meio é aquela fase indefinida, ninguém sabe muito bem onde está na história, não sabemos que palavras ou declarações podem afugentar a outra pessoa. Já podemos relaxar um pouco e baixar a guarda, mas ainda não sabemos muito bem onde estamos pisando nem os efeitos dos nossos deslizes. O fim do processo não, nele a gente relaxa e se sente em casa nos braços do outro, aprende a entender suas manias, revela desejos íntimos, compartilha sonhos, conhece os limites e aprende a respeitar o espaço alheio, deixa escapar defeitos, manias e vaidades sem tanto medo de repreensão, divide a pia do banheiro na hora de escovar os dentes, usa o vaso sanitário (com ressalvas, claro) enquanto a outra pessoa está tomando banho. É, sou um homem de desinibições.

Acho que os segundos encontros podem ser mais reveladores. A gente consegue ver melhor a outra pessoa. E talvez a nós próprios. Porque tiramos um monte de pré-julgamentos e expectativas próprios dos primeiros encontros. Notamos desde coisas pequenas, como uma cicatriz escondida, que um olho é mais caído, que o sorriso é meio torto e aquele tique quase imperceptível, até coisas maiores e mais subjetivas, como o brilho no olhar quando a pessoa fala sobre seus desejos. A partir do segundo encontro construímos – ou destruímos - um sonho. Não que no primeiro isso não aconteça. O primeiro encontro é o primeiro filtro. Porém, não considero o melhor. É no segundo encontro que vamos aprofundar nossa expedição nesse novo mundo, sendo permitido ou não. Meu teste de fogo é: se à segunda vista eu tiver um frio na barriga é meio caminho andado para um terceiro encontro. Mas rezo para que chegue logo o dia de andar arrastando o chinelo pela casa, ficar de pijama o domingo inteiro, não me preocupar se acordei com o cabelo desalinhado ou o que vão pensar da minha barriga de chopp ou da minha barba por fazer. Algumas ilusões se desfazem e construo outras imagens, talvez mais reais. É, sou um homem de desconstruções.