sábado, 16 de junho de 2012

ACORDEI COM SAUDADE DO CHEIRO DO SEU PESCOÇO

Imagem cedida por Maria Thereza Heim (Arquivo pessoal - "Galeria M")


J'ai connu pour un temps assez court
quelque chose qui ressemble à de l'amour
une voix douce comme le miel
qui me suit jusque dans mon sommeil
une promesse et un battement de cil
et on se croirait presque indivisible
c'est peut-être parce que c'est éphémère
qu'on s'arrache ces morceaux de rêve

j'y pense comme je respire
peut-être même encore pire
même mille fois maudite
j'y pense comme je respire

et surtout qu'il est bon de sentir
qu'on est fait pour ce monde intangible
pour un peu on se dirait presque
qu'on a la belle vie quand même
(La Belle Vie – Holden) *


O chiado do vinil ecoou seco pelo quarto. A última faixa do disco havia sido executada com o único mérito de embalar meu parco sono, inquieto e superficial, enquanto estive encolhido na pequena poltrona de tecido puído e já sem cor, enrolado na nossa manta de retalhos coloridos. Não fiz ideia das músicas que tocaram. E não importava. Lembro que escolhi um dos discos que você gostava, no qual tinha uma faixa que não me saía da cabeça. Que música era mesmo? Da janela entrava um solzinho tímido de outono. A garrafa de vinho jazia caída num canto do quarto, ao lado da taça de malbec, servida até a metade. Juntas criavam um caleidoscópio, quando os raios do sol incidiam sobre elas, e o reflexo colorido rebatia direto nos meus olhos.

São 15h30min de um dia comum que escolhi não viver. Acordei com saudade do cheiro do seu pescoço. Pensei em ligar, mas sei que você não poderá mais atender ao telefone. Chego a ouvir sua voz profunda sussurrando carinhos através do meu travesseiro. Consigo sentir em meus lábios a maciez da sua pele e o característico calor emanado da região próxima à sua orelha.

Desta vez não relutei. Deixei que as lembranças dançassem sobre mim em espiral. Lembro-me quando me aconchegava em você nos dias frios para nos aquecermos. Eu tinha as mãos sempre frias e você os pés constantemente gelados. Ou quando era calor e nossos corpos úmidos de suor formavam uma única massa pegajosa de carnes e pêlos. Encostava meu corpo todo no seu e farejava seus recônditos, buscando conquistar e manter sua essência em meus poros. Sentia cócegas na ponta do nariz quando o encostava nos fios mais finos do seu cabelo, perto da nuca. Eu lhe desejava tanto nesses momentos que se pudesse entrava em você e não saia nunca mais. Eu apertava você contra meu peito e tentava reter ao máximo na minha memória esse cheiro que você exalava. Não era um cheiro específico de nada. Talvez um pouco adocicado, floral. Cheiro de pele, de jasmim, de lar, de almíscar, de lavanda, de desejo, tanto fazia, era o seu cheiro. E eu ficava lhe observando, enquanto você cochilava após o jantar, sentado em sua poltrona Charles Eames favorita, em frente à lareira, envolto até a cabeça em nossa manta de retalhos, parecendo uma obra de Gustav Klimt. Enquanto eu preparava uma xícara fumegante de chá de ervas ou um café bem forte, você colocava mais lenha no fogo. Você sempre teve um fascínio por fogo, lembro bem. E luz fraca e irregular das chamas iluminava ainda mais seu rosto em tons de dourado.

Nos primeiros tempos foi mais difícil viver sem você, sabe. Tudo me doía. A casa vazia, a cidade a cada dia mais aterradora, as pessoas conhecidas – e principalmente as desconhecidas -, as lembranças, a falta da presença, a falta da ausência, a falta até mesmo de ter do que lembrar ou esquecer. Porque você foi embora e me roubou o futuro, me deixou um baú de memórias vazio que eu tive que preencher sozinho. Agora não dói tanto. Consigo falar em você sem aquela vontade desesperadora de chorar e sem ficar marejado. Não sou mais obsessivo com tudo que é relacionado a você. Deixei de sentir saudade de coisas que não vivemos. Deixei de mitificar você.


Durante muito tempo tratei sua memória como se você tivesse saído da minha vida para entrar na história. Na verdade foi isso que aconteceu. Mas você nunca foi um mito, nunca foi nada além do que sempre foi, com suas falhas (assim como eu tenho muitas), suas posturas às vezes covardes, sua doçura quase infantil, sua nobreza de valores e sentimentos, sua vileza frente a algumas situações cotidianas, seus dramas existenciais, suas superações diárias. Sempre admirei sua dignidade, principalmente frente a todas as adversidades.

Você foi embora por exclusiva responsabilidade sua. Porque às vezes você era soberbo. Talvez tenha ido sem vontade de ir, mas você fez uma escolha sem volta. E eu tentei transformar as lembranças que tenho de você para sentir menos dor, para conseguir suportar o fato de estar vivo sem você. Acho que hoje estou mais tranquilo. Estou mais desiludido, confesso. Parece contraditório estar desiludido e ter esperanças, não é? Mas é o que sinto. E posso explicar: eu tenho esperanças que a vida pode ser melhor, mas não tenho aquelas ilusões românticas de estar caminhando pela rua ou na fila do supermercado e esbarrar em alguém igual a você (ou alguém melhor que você?), que seja capaz de preencher um vazio existencial que você nunca preencheu. E eu reconheceria essa pessoa como sendo a mais importante e saberia, olhando em seus olhos, que seria para sempre. Não, não tenho mais essas ilusões. Penso que poderei conviver com meu passado doloroso, com meu presente sem ilusões e com meu futuro cheio de esperanças.

Sinto uma leve dor no peito. Dor física. Talvez um pouco de medo, cansaço, angústia, solidão, mas também esperanças contidas e um carinho reprimido imenso. Falo sempre sobre as mesmas coisas. Eu já disse isso em outros momentos, não disse? Acho que hoje essas memórias vêm mais fortes, como a lembrança do cheiro do seu pescoço, porque hoje completa um ano que você se foi. E por isso me repito e digo de novo coisas que tenho pensado e dito ao longo desses meses todos. Exatamente nesta hora, 15h30min, há exatos doze meses, eu soube que você não voltaria nunca mais.

E tenho mantido uns rituais estranhos e compreensíveis durante todos os meses que se seguiram à sua partida. “Que é pra ver se você volta, que é pra ver se você vem”, como na música. Vez ou outra (como agora) visto o casaco verde, estilo militar, com detalhes nos ombros que lembram insígnias, que você esqueceu aqui no último dia em que nos vimos. Ele não tem mais seu cheiro, porque já o lavei propositalmente num daqueles momentos de fúria. Esfreguei tanto sabão e sal grosso neste casaco que minhas mãos ficaram ardendo. Depois o coloquei no sol para absorver energias novas, borrifei doses inebriantes do seu perfume predileto e vesti-o. Assim me senti abraçado por você.

Não, não chamo você para perto de mim. Você nunca saiu daqui. Porque na realidade aqui em mim você ficou. E o cheiro do seu pescoço está marcado em cada esquina da minha pele. Arrumo a casa, queimo incensos, abro todas as janelas para renovar o ar, compro flores para você e enfeito a casa, como se fosse recebê-lo a qualquer momento, do mesmo modo que você fazia quando alguém lhe visitava, rezo para que você tenha paz e encontre luz em seus caminhos e acendo mais uma vela em frente à sua fotografia. Assim, ambos encontraremos a paz.



[*] A Bela Vida  
Eu conheci, por um tempo tão curto, / Alguma coisa que parece com o amor. / Uma voz, doce como o mel, / Que me segue até o meu sono. / Uma promessa e um piscar de olhos / E nos acreditamos quase indivisíveis. / É, talvez, porque é efêmero / Que nos prendamos a esses pedaços de sonho. / Penso nisso como respiro / Talvez até mesmo pior. / Mesmo mil vezes maldita / Penso nisso como respiro. / E, sobretudo, é bom sentir / Que somos feitos para esse mundo intangível. / Por um pouco, quase nos diríamos / Que temos a bela vida mesmo assim.