terça-feira, 12 de junho de 2012

DO SILÊNCIO


Photoallegory of Sarolta Bán

“Assim
Pouco a pouco
Escolhi
O presente silêncio
Silêncio
Tão pouco querido
Oh, derradeiro momento
Silêncio
Momento
Silêncio"

(Silêncio - Madredeus)

Existe um tempo de calar. Às vezes é preciso criar um espaço (objetivo?) para observar com distanciamento a tempestade, a fim de que se possa ter sobre ela uma dimensão mais ampla e para perceber que talvez ela não seja assim tão grande. E caso seja imensa e impossível de ser atravessada sem marcas, que ao menos seja com o menor número de arranhões possível. É preciso dar um passo atrás para conseguir o impulso necessário para pular o precipício. Para essa tomada de fôlego, acredito profundamente no poder do silêncio reflexivo. Por isso sumo às vezes.
Não sei se me recolher em meu bunker é uma atitude que denota prudência. Às vezes, tenho a impressão que é por absoluta incapacidade de seguir adiante. É catatonia, imobilização, paralisia. “Na dúvida, não ultrapasse”, alerta o luminoso neon em minha mente, quando estou parado sobre um cruzamento escuro da linha de trens e não ouço a composição que se aproxima. Por outro lado, temo que avançando demais nos escuros de mim possa desencadear a fuga de todos os fantasmas trancados no fundo dos enormes baús que guardo, fazendo com que voltem para assombrar meus sonhos. Eles são muitos cá dentro do meu peito - tanto sonhos quanto fantasmas. E alguns deles – dos sonhos e dos fantasmas - são violentos e destrutivos. Normalmente vivem – os fantasmas, não os sonhos - sob controle. Volta e meia um ou outro – dos sonhos, não dos fantasmas - foge e tenta me roubar a paz. Quase sempre consigo domá-los e fazer com que retornem para seus lugares. Mas temo que nessas jornadas de introspecção, quando ando por lugares que nem eu mesmo conheço, possa ficar desatento ou vulnerável e ser tomado de assalto por esses pensamentos obsessivos.  
Calei. Não quero oferecer uma explicação ou uma justificativa. É apenas um desabafo, talvez sem propósito específico. Paralisei, exauri. Não soube como olhar nos olhos dos poucos (e cada vez em menor número) que me são caros e dizer o que sentia. Ou mais: não só não sabia o que sentia como não sabia o que sentir. Não sabia nem ao menos se sentia algo. Claro que sentia, percebi depois de passado o tempo e o torpor. Sempre sentimos algo, seja bom, neutro ou ruim.
A dúvida essencial de não saber-me e o temor de talvez não ser nada me alertaram para algo que estava por vir. A imagem da lagarta que entra no casulo para tornar-se borboleta é apropriada nessa hora. Porém, entrei e saí do casulo uma inefável lagarta. Alguns não nasceram para ser borboleta. Já ouvi de bocas otimistas que seria necessário eu fechar a concha para formar uma pérola. Não consegui, porém, usar minhas mágoas para transformar em pérolas os corpos estranhos que entraram em minha concha. Queria transformar, alquimicamente, cinzas em ouro. Queria sim poder fazer das minhas enzimas que produzo no interior de minha concha um pingente para ornar o pescoço de quem se abriga em meu regaço. Não foi possível. Queria juntar todas as marcas acumuladas pelo caminho e transformá-las em retalhos multi coloridos, com eles costurar uma colcha, pedaço a pedaço, e jogá-la sobre o corpo de quem gostaria que ela aconchegasse e aquecesse nas madrugadas frias. Tampouco isso foi possível. Por isso parei. Por isso voltei. Por isso dei três passos atrás.
Eu tinha um emblemático hematoma na unha do polegar direito – e isto não é uma alegoria -, adquirido no dia que foi o marco do fim de um grande, profícuo e doloroso ciclo. Essa marca, de tom entre o negro e o violáceo, localizada junto à raiz da unha, acompanhou-me por muitos meses. Ao longo do tempo foi transformando-se e movendo-se, passando do negro intenso para o roxo acinzentado, até tornar-se uma mancha levemente esverdeada na ponta do dedo que eu observo diariamente, como faço agora. Cortei a unha cuidadosa e pacientemente, lasca a lasca. Hoje foi cortado o último resquício daquele estigma negro, fazendo-o desaparecer definitivamente. Esse foi o sinal que me fez pensar em tudo o que estava relacionado àquela marca e a todas as outras que existem em mim. Algumas não são visíveis, a maioria é possível de ser identificada em poucos instantes de observação detida sobre mim. Algumas são permanentes, outras transitórias. Algumas guardo com carinho e orgulho, outras tento esconder. Com algumas consigo conviver, outras prefiro nem ver. Mas todas elas fazem parte do que sou.
O jato de água da torneira leva consigo, pragmática, os resquícios do passado que estavam sob as unhas que acabei de cortar. Vejo cada pedaço ir ralo abaixo, rumo ao esquecimento eterno, que é como acredito que as lembranças do passado devem ser guardadas. Retiro a mecha de cabelos grisalhos da face para poder olhar novamente e com mais nitidez meus olhos no espelho embaçado do pequeno banheiro de azulejos úmidos. Mas por enquanto já basta tentar ver o que não tem certeza nem nunca terá, o que não tem conserto nem nunca terá, o que não tem juízo nem nunca terá, o que não tem tamanho. É chegada a hora de tentar ao menos brincar de viver, mesmo que calado.