sexta-feira, 6 de julho de 2012

HABILITAÇÃO PARA ENAMORAR-SE



Se viver ao lado de outras pessoas fosse submetido a regras práticas, como as de guiar um veículo, a vida seria mais descomplicada. Que regras, afinal, são essas de viver – se é que existem - que não encontramos descritas em roteiros?


Eu adoraria ser acompanhado e guiado por um instrutor, pelo menos em algumas das manobras que realizo em minha vida afetiva, como se eu fosse um aprendiz em uma autoescola. A pessoa ao meu lado, o “instrutor de vida”, por mais austero que fosse, teria em seu poder dois pedais mágicos que poderiam me frear quando necessário, acelerar quando fosse preciso, e estaria sempre (ou quase) atento ao que eu estivesse fazendo na direção. Se eu errasse, levaria uma bronca, aprenderia o (único) jeito correto de agir e não erraria mais nas mesmas coisas. Consequentemente, eu aprenderia a conduzir com perfeição.

Ter alguém ao lado nos orientando pelos caminhos tortuosos que escolhemos seguir pode ser constrangedor, principalmente quando erramos pela quinta vez a mesma manobra no mesmo ponto do mesmo cruzamento. Pode ser como ter um censor com uma palmatória a postos ou um oficial do Führer com uma chibata em riste. Mas não ter ninguém acompanhando pode ser muito mais traumático. Quando menos esperarmos, podemos estar com a caixa de correio cheia de infrações que sequer sabemos que cometemos e perdemos o direito de dirigir. Certo, a vida é um jogo de tentativa e erro e viver com alguém é como jogar xadrez no escuro. Aprendemos através dos erros e não temos um grilo falante para nos dizer qual a jogada seguinte a fazer. Dramático? Não, pragmático, baby.

Quando estamos sozinhos não conseguimos, e nem precisamos, enfrentar nossas falhas de frente. Ou se as reconhecemos quase ninguém mais as reconhece, a não ser quem foi vítima de nossas barbeiragens. É confortável pensar que podemos viver nesse quase anonimato de nossas mancadas. Só que é impossível viver dessa forma. Nossas infrações não são fiscalizadas por guardas de trânsito. Porém, as regras são compulsórias e as penalidades autoaplicáveis. Quando erramos, sabemos que temos que pagar. E invariavelmente pagamos.

Num mundo perfeito, todos teriam tempo de aprender previamente as regras de comportamento e condução de um relacionamento e somente poderiam se relacionar com outras pessoas, em qualquer nível, quando tivessem passado pelas provas, cumprido a carga horária total de treinamentos e estivessem devidamente habilitados. E seriam obrigados a manter relacionamentos submetidos a essas regras e a cumprir todos os ritos de passagem que culminariam nesse objetivo.

Bem que podia ser mais fácil. Um instrutor ensinaria a fórmula de amar da mesma forma que ensinaria aquelas regrinhas para estacionar. Haveria gente que nem precisaria delas e estacionaria super bem. Existiriam outros, no entanto, que nem com todas as regras do universo conseguiriam. O procedimento seria mais ou menos assim: Sinalizaríamos para estacionar quando víssemos a “vaga-pessoa” certa disponível; pararíamos alinhados ao lado dessa “vaga”, manobrando para ver se existem afinidades preliminares, voltando todas as nossas papilas e pupilas para essa pessoa, a fim de verificarmos se podemos ocupar o espaço disponível; no primeiro contato, visualizaríamos o primeiro ponto, não podendo em hipótese alguma perdê-lo de foco, sob pena de precisarmos manobrar muito para finalizarmos a operação e correndo o risco de transformarmos toda a manobra num grande desastre. Pausa para respiração e avaliação: Funcionou o primeiro movimento de ocupação? Certo, mas ainda não seria suficiente. Engataríamos, então, a marcha para entrarmos nesse espaço, com cuidado para não encostarmos em nenhum ponto proibido, o que poderia ser fatal; então, giraríamos a direção de nossos pensamentos no sentido da “vaga” desejada e iríamos guiando cuidadosamente até que visualizássemos, pelo espelho retrovisor de nossa razão, o próximo ponto desse roteiro; quando conseguíssemos acertar o primeiro ponto e fizéssemos corretamente a primeira manobra, frearíamos nossas ações impensadas, giraríamos a direção para o lado oposto para alinharmos melhor ao espaço; nesse momento visualizaríamos o terceiro ponto, sendo necessária mais uma manobra sutil, girando novamente nossa atenção para o outro lado, mudando a marcha com palavras mais adequadas. Alinharíamo-nos, assim, perfeitamente à vaga. Quando alinhados, operaríamos o ponto neutro de nossa fala retórica e infrutífera, puxaríamos o freio de mão de nossos corações, finalizando. Pronto. E todos seriam felizes para sempre. Seria bonito e fácil, não é mesmo? Tenho certeza que os programas matinais de variedades passariam sempre essa receita. Mas a vida não é assim, Dear. Sorry...

Não existem instrutores que nos ensinem a guiar a vida “de forma correta”, embora vários já tenham tentado, inclusive e principalmente nesses programas matinais de variedades. Muito menos escolas especializadas nesses assuntos. Isso porque não existem regras fixas e essas coisas não podem ser ensinadas verbalmente, são aprendidas quando e se sentidas. Mente quem promove receitas e fórmulas prontas para viver a dois ou em comunidade. No que depender de mim, os autores de livros de autoajuda (que ajudam somente a eles próprios) poderiam mudar de profissão ou escrever compêndios sobre futebol. Nesses casos sim, existem mais regras que talentos atualmente.

Para viver é necessário certo dom, algum talento e o árduo desenvolvimento de aptidões naturais. E falo em “aptidão natural” porque existem pessoas que simplesmente não nasceram para conviver com outras. Da mesma forma que existem pessoas que jamais estarão aptas a conduzir veículos, sejam fuscas ou jatos supersônicos, existem aquelas que não conseguirão jamais relacionar-se com outros seres de forma saudável. Algumas nasceram para ser passageiras de táxi, bastando entrarem, dizerem o destino desejado em poucas palavras e deixarem-se ser guiadas. Para essas pessoas os relacionamentos são funcionais e verticais. Logicamente elas estão no topo do vértice. Outras existem com a função de taxistas, vivendo apenas para atender às ordens e coordenadas alheias e somente tendo destino quando ordenado do banco traseiro. Para essas pessoas tanto faz para onde ir e colocam-se na confortável passividade de serem dirigidas sem qualquer necessidade de autonomia. Para outras, ainda, somente ônibus, onde não é necessário quase nenhum contato com o motorista ou cobrador, a não ser dois gestos: o de entregar o dinheiro ao cobrador e o de soar a campainha ao motorista quando quiserem descer. Qualquer contato mais próximo com elas seria um ultraje. Todos exercem funcionalidades bem específicas em suas vidas e that’s all, folks. Mas isso é outro assunto.

Observando mais detidamente é possível ver que existem semelhanças entre a condução de um veículo, seja qual for, e a de um relacionamento afetivo, seja também qual for. Em todos os casos é necessário treino, habilidade, calma, coragem e paciência. É preciso controlar a ansiedade, imprimir uma boa dose de prazer, leveza e vigilância. É preciso reconhecer quem somos nós e qual o nosso papel na relação. Precisamos saber das nossas responsabilidades, seja como condutores ou como conduzidos, além de sabermos se temos condições de nos lançarmos em possibilidades. Mais que uma questão de respeito àqueles que nos são por ventura caros é uma questão de respeito por nós próprios. Pena que não sabemos de antemão se a pessoa que queremos para nos acompanhar nessa viagem possui habilitação. Mas não aflijamo-nos, isso é possível descobrir logo depois da arrancada, antes mesmo de engatar a segunda marcha. Portanto, verifique se o seu brevê está válido e é de categoria adequada e caso seja conduzido, observe se o condutor está habilitado. Daí, a decisão de continuar essa super trip é sua.