quarta-feira, 10 de abril de 2013

E VOCÊ, JÁ FEZ SEU “OUTING”?



“Lembro quando você me falou,
dentro do armário,
só tem bolor e naftalina.
Vem já pra fora, meu bem,
que só aqui é que tem,
calor e adrenalina.”

(Zeca Baleiro – Armário)


“Sair do armário” é um termo com o qual ainda estamos nos familiarizando. Mesmo quem não sabe exatamente o que significa, já ouviu o termo em alguma roda de conversa e tem uma ideia, mesmo vaga, do significado. Trocando em miúdos, a saída do armário é a decisão de indivíduos, que desenvolvem relacionamentos homoafetivos, de assumir publicamente suas inclinações amorosas. A origem do termo é um tanto controversa. Em uma versão irreverente - que eu particularmente acho engraçada, sendo verdadeira ou não - compara o “Coming Out” ("sair para fora") de indivíduos homossexuais ou bissexuais com um Baile de Debutantes, ou seja, uma espécie de apresentação desses sujeitos à sociedade. O termo “coming out” teve a palavra “closet” agregada posteriormente, segundo consta por volta dos anos 60, a partir do levante de Stonewall, em Nova Iorque, numa alusão à vida no armário como uma vida de negação, sombras, sigilo e segredos escamoteados. Então, sair do armário é sair das sombras, é deixar a escuridão e assumir publicamente “a dor e a delícia de ser o que é”, como cantaria nosso bom Caetano.

Nos últimos dias esse tema tem povoado ainda mais nosso imaginário coletivo e as timelines de nossas redes sociais. Nem sempre de forma positiva, às vezes de forma indigna, vez ou outra em tom um tanto desrespeitoso e jocoso, em vários momentos de forma incoerente, preconceituosa e até mesmo leviana. Mas se há democracia, é necessário que haja esse espaço para o debate, para posturas corretas e distorcidas e para a manifestação livre de pensamentos. Percebo que o tema surge como uma atitude de revolta e repúdio às posturas totalitárias, principalmente de religiosos fundamentalistas. Ao que parece, “o amor que não ousa dizer o nome”, termo que o escritor Oscar Wilde utilizava para referir-se à sua homossexualidade, está mostrando sua cara, em reação a uma minoria que se diz representante de uma maioria. E desconfio que essa “maioria” não foi consultada se queria ser representada por esse seleto grupo. Eu, pelo menos, não fui. Você foi?

Não se faz política apenas em movimentos sociais organizados ou ocupando cargos públicos. Tampouco apenas em redes sociais. Fazemos política a todo momento, da hora de acordar até a hora de dormir, desde os atos mais simples, como o de escovar os dentes todas as manhãs ou o “sagrado pingado com média” em pé no balcão do boteco da esquina. Militamos socialmente com o porteiro do prédio, com o motorista do ônibus, com a atendente da farmácia, com o pai, com a mãe, com o irmão, com o namorado ou a namorada. E até mesmo sozinhos em nossos quartos, no escuro, às três da manhã, enquanto pensamos nas mancadas que damos na vida.

Em uma entrevista dada ao jornal O Estado, Daniela Mercury diz o seguinte, sobre sua recente união homoafetiva: "Ou se assume o ônus de quebrar padrões ou você vive numa posição de discriminado." Esta frase é de uma profundidade enorme. O ato de dizer ao mundo sobre sua orientação sexual é, para muitos, libertador e revolucionário. Mas qual é a real necessidade de falar ao mundo sobre por quem nossos sinos dobram? Simples. Porque é uma forma de fincar a estaca no chão e delimitar nosso espaço, nosso lugar no mundo. Porque é um ato político. No entanto, mais que mostrarmos quem somos, é uma forma de mostrarmos a que viemos.

Ouvi pessoas criticando essa superexposição de algumas figuras públicas em relação a algo que é estritamente de foro íntimo. A quem interessa saber dos sentimentos mais ternos e particulares que dispensamos aos demais? Quem quer saber, em última instância, com quem nos deitamos? Que necessidade é essa que homossexuais ou bissexuais tem de declarar ao mundo suas afeições que heterossexuais não possuem? Essas foram perguntas que eu também me fiz. E arrisco uma resposta. Não interessa a ninguém a quem destinamos nosso amor, ninguém tem que saber quem é o fiel depositário dos nossos sonhos e desejos. E digo que não, não é exclusiva de homossexuais a necessidade de falar publicamente sobre seus sentimentos. É uma necessidade humana. Mas tem um tom contestador (ou subversivo) quando um homossexual vem a público falar sobre sua intimidade. Subverte a ordem porque choca ver quebrado o modelo de amor que povoa nossa imaginação. Alguns ficam, no mínimo, estarrecidos ao imaginar que não existe somente o modelo “Papai e Mamãe”, “João e Maria”, “Adão e Eva”. Como essas pessoas, que tem suas convicções abaladas, vão sobreviver à existência afetiva  - e como estrutura familiar - de “Adão e Ivo”?

Pensado como ato político, “sair do armário” não é somente uma decisão de liberdade individual, é também um direito social. Mais que falar sobre sexualidade, é dizer que sujeitos políticos nós somos. Ao externarmos publicamente o que pensamos, expondo nossos sentimentos mais íntimos, sejam eles quais forem, definimos nosso lugar no mundo. E isso é um ato importante na nossa construção como indivíduos.

Ações afirmativas surgem de uma demanda originada pela suposta maioria hegemônica heterossexual, que normatiza conceitos, posturas e sentimentos, que estabelece o que é certo e o que é errado. Principalmente proíbe veementemente o exercício daquilo que ela própria definiu como errado. E não é uma imposição, não é uma “ditadura” (gay), como muitos bradam com tochas em riste, querer defender o direito a não viver conforme uma norma estabelecida por terceiros sobre algo que é absolutamente íntimo e particular. Por isso é importante que o oprimido mostre sua cara e use sua voz. Por isso é importante que existam grupos organizados para defender esses interesses. Porque é imprescindível dizer que amor não tem credo, amor não tem gênero, amor não tem cor. O amor está em todos nós e é um direito nosso exercê-lo como manda o coração. Como diria Drummond, “Amor foge a dicionários / E a regulamentos vários”.

Precisamos sair do armário. Não para assumirmos publicamente nossa sexualidade. Para muito mais que isso. Para assumirmos quem somos em essência, “assumir o ônus” de declararmos quem somos em profundidade, para lutarmos por dignidade e por nossos direitos mais fundamentais como humanos, para gritarmos em uníssono por aqueles que não conseguem gritar, para estendermos a mão àqueles que são iguais a nós. E àqueles que são diferentes de nós também.

Em tempos de Felicianos e corjas de inquisidores moralistas, covardes e hipócritas, é necessário cada um faça seu “outing” e juntos brademos que somos evangélicos, católicos, umbandistas, budistas, negros, brancos, pardos, índios, homens, mulheres, gays, bissexuais, heterossexuais, transgêneros, jovens e velhos. Porque somente sabendo e assumindo quem somos, poderemos escolher conscientemente quem nos representa.