sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

DOS RITOS DE PASSAGEM

Photoallegory of Sarolta Bán 

“E é hoje o dia da faxina mental. Jogue fora tudo que te prende ao passado, ao mundinho de coisas tristes. Fotos, peças de roupa, papel de bala, ingressos de cinema, bilhetes de viagens e toda aquela tranqueira que guardamos quando nos julgamos apaixonados.
Jogue tudo fora, mas principalmente esvazie seu coração. Fique pronto para a vida, para um novo amor.”
(Carlos Drummond de Andrade – Faxina na Alma) 

“Amar é mudar a alma de casa”. Esta frase de Mário Quintana tem me perseguido nos últimos dias. Perseguição boa, diga-se. Tenho sido perseguido por memórias, afetos, lembranças de um passado distante e de um passado recente, enquanto remexo baús e reencontro coisas bonitas, que foram guardadas com carinho e acabaram esquecidas, porque esquecer é tão necessário quanto relembrar.

A frase está impressa em uma caneca de louça amarela, onde também está estampada uma caricatura do autor. Foi um presente recebido há muito tempo, de uma pessoa que foi muito importante no passado, com quem vivi durante alguns anos, mas que hoje não existe mais em minha vida. Encontrei-a guardada no fundo de um armário, quando fazia a chatíssima e sempre necessária limpeza de final de ano. Encontrá-la me fez pensar nos significados que dou às coisas. 

No início, a caneca tornou-se um objeto de decoração na “nossa casa”. Mudei minha alma de casa e a antiga morada deixou de ser “nossa”. Tempos depois, na morada seguinte, minha e da minha alma, a caneca virou um porta canetas sobre minha escrivaninha, que ficava de frente para uma janela ampla, por onde entrava toda a luz que na casa anterior eu não tinha. Um dia a luz dessa casa se foi e mais uma vez mudei-me.

Em meu novo lar, esse porta canetas virou simplesmente uma xícara. Quando recebia visitas, oferecia nela bebidas quentes aos meus visitantes. Eu mesmo usei-a pouquíssimas vezes para beber algo. Não sei conscientemente por qual razão nunca a utilizei no meu dia a dia. Vez ou outra alguém comentava algo sobre o objeto, mas para mim não passava mais de uma bonita caneca amarela com a cara do Quintana estampada num sorriso meio irônico.

Como tudo é impermanente, mudei novamente de casa. A caneca me acompanhou, por questões de necessidade, porque eu precisava do utensílio. Mais uma vez acabei substituindo-a por outras xícaras, copos e canecas, comprados ou presenteados por outras pessoas que habitaram o meu mundo. E ela foi ficando de lado, indo cada vez mais para o fundo do armário onde guardava louças, encoberta por novas lembranças.

É por isso que gosto de fazer uma faxina no fim de cada ano. Aproveito esse momento de me desfazer de coisas que não servem mais para fazer meus balanços e reavaliar todo o ano que vivi. Repenso meus erros e meus acertos e vejo no que progredi e no que regredi. Separo três caixas: na primeira aquilo que realmente necessário; na segunda, o que talvez seja; e na terceira, tudo aquilo que não me serve mais que deverá ser descartado para me libertar de toda a energia estagnada ao longo do ano. Guardo o conteúdo da primeira e os das duas outras me desfaço, dispenso, doo, coloco no lixo. Faço essas reflexões sobre minhas posturas e minhas atitudes o tempo todo, em qualquer época do ano, mas costumo esvaziar armários nesta época. Essa materialidade de separar coisas que não servem mais dá outro clima à reflexão.

Percebo que a vida tem sido um devir cada vez mais intenso. Mudei de cara e cabelos, mudei de olhos e riso, mudei de casa e de tempo, mudei de roupas e vícios, mudei minha alma de morada. Tive também minha casa abandonada por outras almas em outras situações. Mas percebi que tenho mais experiências acumuladas na primeira caixa que nas duas seguintes. Minha caixa das coisas necessárias ao coração e ao espírito está muito mais cheia neste ano que as caixas com as coisas que devem ser abandonadas.

Mais uma vez refaço trajetos e ressignifico experiências. É neste momento que me reencontro com essa caneca. Fiquei um tempo com ela nas mãos, como se fosse um relicário, resgatando e reconstruindo memórias. Então, embrulhei-a em jornais velhos e coloquei-a na primeira caixa. E junto com ela, as memórias de todas as pessoas que passaram pela minha vida neste ano. Algumas dessas pessoas ficaram, outras seguiram seus caminhos, mas de alguma forma todas ficarão gravadas indelevelmente nas minhas retinas. A caneca vai comigo para minha nova morada, porque agora é hora de mudar a alma de casa mais uma vez. Talvez sirva para eu preparar cup cakes para meus queridos, cobertos com confeitos coloridos ou chantilly, ou para colocar ração para o meu gato, quando eu tiver um.  

E nesses dias de retrospectiva, no meio de toda a agitação consumista, festiva e espiritualista desta época, onde sempre tem um novo patuá para amarrar na cueca da cor do orixá regente do ano, para que o ano que vem seja “o ano”, penso nas minhas maneiras de viver, de buscar amor e de guardar memórias. Penso na minha forma de atravessar meus ritos de passagem e em como construí minha história até agora.

Não acredito em listas de metas, porque não costumo atingi-las, nem de desejos, porque sempre quero muito, mesmo que pareça ser modesto, tampouco faço promessas para o ano que vem, porque no fundo sei que não cumprirei. Apenas renovo esperanças. Não no ano que começa, nem nas pessoas, mas em mim mesmo. Talvez seja o máximo de generosidade que consiga exercitar comigo. Deixo que a vida me leve, que se seja suave, que seja consciente, que seja plena. Lembro-me de Drummond, que falava sobre o Ano Novo e sobre as possibilidades de renovarmos esperanças e zerarmos os contadores de tempo. É dele a frase: “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. 

Acho que é isso. Não é no calendário maia que está a resposta para nossas vidas. A verdade nunca esteve lá fora, contrariando o que diziam no seriado. O Ano Novo vai ser o início de mais uma sequência de dias, que inicia e finda, finda e inicia e vice versa, mesmo que digam as más línguas (maias) que será o último. Para muitos será mesmo o último, para outros será o primeiro, mas para a maioria será apenas um ano a mais, parafraseando Saramago. Não sei ainda o que o destino reserva para a caneca amarela do Quintana ou para mim. Quem sabe no próximo ano ela e eu tenhamos lugares completamente novos.