sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

REVEZ(S)ES

Rafael Perez: “Relationship VIII


[Para ler ao som de Juan Carlos Cobian – Nostalgias]

 
Então temos um trato: Você me dispensa e eu fico arrasado. Eu continuo lhe querendo, mesmo de longe, e você pode seguir sua vida como se eu não tivesse atravessado seu caminho. Voltamos à estaca zero, fica tudo igual, zeramos os cronômetros. Ou nada disso aconteceu e foi o mundo que virou do avesso.



Trouxe este presente para agradecer seu carinho. Espero que você goste. Não escolhi muito, não. Nem tinha pensado em fazer uma surpresa para você. Vi uma vitrine e lembrei-me dos seus olhos, tão doces e tão tristes, e achei que esta pequena prenda deveria ser sua. Além desta entrega especial, vim aqui lhe dizer que lhe quero um bem enorme. E dizer que a gente não manda no coração, que ninguém é inocente neste jogo de brincar de viver e nem sempre fazemos escolhas certas.

Sem querer fazer um grande drama, mas já fazendo, porque essa é definitivamente minha natureza, estou acostumado a ser dispensado. Sou bem cafoninha quando estou apaixonado, você sabe. Sou de tentar grandes gestos, grandes façanhas, grandes feitos. E sou das coisas simples também, das singelezas cotidianas, de café da manhã na cama, esperar para alcançar uma toalha sequinha no banho e entregar chinelos para confortar os pés cansados no fim do dia.

Até que encaro numa boa o fato de ter sido quase sempre abandonado. Sempre tem uma música que cante minha dor de cotovelo e mais uma dose para me consolar, desde mi triste soledad e sempre tem a minha mesa no mesmo bar para emborachar mi corazón. Você me conhece há muito tempo, não é mesmo? Quanto? Uns cinco anos? Quantas vezes eu fui abandonado e quantas vezes abandonei alguém? Você lembra? Acho que nunca abandonei ninguém, sempre foi meu papel sofrer por ter sido abandonado. Você acompanhou, com lealdade impecável, todos mis fracassos y mis angustias de sentirme abandonado. Mi vida es un tango, Hermano.

Faz um bem danado ser cortejado, né? Eu não tive muitas experiências dessas de ser objeto de desejo. Isso mexe com meus brios. É delicioso ver que tem alguém cujos olhos brilham só de ver você. E quem disser que não fica envaidecido, mente. Mas não, não gosto dessa situação. Estou tão acostumado a ir à luta e batalhar (muito!) pelo que quero que não precisar fazer nada além de existir, sorrir e estar ali é meio despropositado para mim. Fica uma sensação que a outra pessoa precisa saber algo sobre mim que não está conseguindo ver. E fica uma obrigação cheia de culpa cristã, meio amarga e meio pesada, de retribuir o carinho ofertado. Fico angustiado porque não sei muito bem lidar nem com as minhas próprias frustrações, quanto mais com as frustrações que sou capaz de causar nas pessoas.

Por falar em angústias e frustrações, vim aqui por um motivo em especial. É muito triste ver alguém que gosta da gente realmente e não sentimos nada, absolutamente nada, além do carinho que dispensamos a qualquer ser humano que faz de tudo para nos agradar. Quero dizer que sempre me coloco no seu lugar. No fundo, sei que essas operações tendem, invariavelmente, a se tornarem kamikazes. E quem se ferra sou eu porque serei detestado no momento seguinte e pelo resto da vida. La verdad es que sos um tango en mi vida, Hermano, un tango gris.

A situação de ter que dizer “não quero” é muito mais desconfortável para mim que para você. Y aquí vengo para eso, Hermano: O fato é que você tem interesses e desejos que não poderei satisfazer. Porque eu quero outras coisas e não poderei ser o que você espera de mim. Além disso, você espera de mim coisas que não sou e não poderei jamais ser. É... você me criou. Esse ser que você diz amar não existe. Não vou poder dizer que e problema não é com você. Porque é com você, sim. E é comigo também, claro.

Fico constrangido e sinto vergonha por nós dois. Por mim porque acho que não é nada nobre da minha parte essa covardia de não dizer que não adianta você fazer nada para me agradar, porque não vai ser suficiente para eu mudar meus sentimentos. Não acordarei, num passe de mágica, numa manhã ensolarada de primavera e descobrirei que te amei a vida toda e que você é a pessoa com quem quero ficar pelo resto dos meus dias. Não que não goste de você, não é isso. Eu gosto muito, mas justamente por gostar não acho honesto da minha parte apenas dar um sorriso amarelo enquanto você acha que meu sorriso é de admiração porque você fez coisas grandiloqüentes por mim, quando na verdade queria dizer: “Desista! Nada vai adiantar. Só quero que você me faça companhia, sem adereços, sem performances e sem tentar me convencer que lhe amar vai me salvar. Levante agora do chão, não é ajoelhado aos meus pés com essas promessas que você vai me persuadir. Você está sendo ridículo tentando me comprar com declarações pobres e presentes caros!”

Sinto vergonha por você porque você se humilhou todos esses anos, implorando migalhas de atenção que eu não podia oferecer. Porque embora você não veja dessa forma, acho que não foi bonita sua atitude de cercar todos os meus amigos para se infiltrar no meu mundo, fazer serenatas de madrugada debaixo da minha janela, me acordar com ligações melosas e declarações sussurradas com a voz pastosa e a língua enrolada pelo álcool, fazer vídeos com suas memórias da gente, memórias que eram só suas e não minhas. Tornou-se pesado receber seus inúmeros presentes. Você me seguia onde eu estivesse. E suas surpresas sempre vinham acompanhadas de cartões embebidos em seu perfume, porque eu tive a infeliz ideia de dizer que gostava do perfume que você usava e você começou a borrifá-lo em tudo que tocava. Passei a odiar aquele cheiro almiscarado, forte e levemente adocicado. Era o cheiro das suas mãos finas, frias, macias e úmidas. Era o cheiro que ficava impregnado na minha pele depois que você me tocava intencionalmente, sempre quando eu estava distraído ou quando não conseguia evitar contato físico. Aquele cheiro ficava impregnado em mim pelo resto do dia ou da noite, como uma marca de condenação. Eu estava condenado a ter você em mim, quisesse eu ou não.

Assusta-me ser colocado num pedestal, meio sacralizado. Foi isso que você fez. Colocou-me à força num pedestal e borrifou em mim seu sufocante perfume almiscarado que me deixa nauseado. Sei que não sou da forma como você me vê. E me sinto na obrigação de dizer que não é nada disso, ou quase nada. Você deve pensar que estou perdendo a grande chance de ser feliz ao lado de alguém que realmente gosta de mim, que você é capaz de me fazer feliz. Acredito que você tem todos esses atributos que diz ter. Acredito que você é capaz de fazer alguém feliz, sim. Você tem virtudes, tem qualidades, tem caráter. Mas não vai me fazer feliz. Porque aqui dentro de mim não pulsa aquele algo inominado que deveria pulsar toda vez que eu olhasse para você. Meu coração não dispara, minhas pupilas não dilatam, não tenho sudorese quando vejo você. Não acha isso sintomático? Eu acho. Se isso não acontece comigo só pode ser por um motivo.

Não tenho muito tato para dizer as coisas. Talvez eu seja direto demais. Em situações desconfortáveis como esta, de dizer adeus porque sou incapaz de corresponder aos seus sentimentos, tenho vontade de lhe colocar no colo, contar uma história bonita, fazendo um afago em seus cabelos e dizer: “Siga seu rumo, vai ficar tudo bem. Você vai achar alguém muito mais legal que eu. E eu vou achar alguém também, talvez não tão legal quanto você. Mas a gente não manda no coração, não é mesmo?”. Então, depois que você adormecesse, eu levantaria e iria embora sem olhar para trás. Sem ver seus olhos, ainda marejados pelo abandono, e sem mostrar os meus, marejados pela vergonha de ter abandonado você. Mas não sou assim. E é por isso que a hora de ir é agora...Y después, por los dos mi copa alzar, y así poder brindar por los fracasos del amor...