terça-feira, 26 de janeiro de 2010

MÍNIMOS MÚLTIPLOS

Não sei se lido bem com negativas. Acho, porém, que hoje melhor que antes. Mas mexer com meus brios pode ser uma péssima ideia. O pior de mim aflora. Viro Bette Davis. Baby Jane Hudson perde feio! Desejos de vingança com os requintes de crueldade mais absurdos passam pela minha mente. De fato, nunca concretizaria nenhum dos pensamentos que tenho. Eles servem apensas para serem pensados e posteriormente esquecidos. É uma espécie de catarse. Preciso pensar para exaurir, para purificar meu coração. E os pensamentos homicidas desaparecem da forma como surgem.

Sou possessivo. Sou neurótico. Sou dramático. Misturar italianos, sírios, libaneses e espanhóis não podia dar boa coisa mesmo. Mas terapia ajuda a controlar os monstros indomados. Pelo menos deveria. Sou do tipo manso, na maior parte do tempo. Reconheço meus limites, respeito os sinais. Ouço a sabedoria do meu corpo. Não contemplo os abismos muito de perto. Mas não me furto de uma ceninha para dizer que estou aqui e a que vim.

Uma vez fui diagnosticado como sendo portador (sei lá se é assim que se diz) de personalidades múltiplas, entre outras pérolas. Na hora achei fantástica a idéia de ser vários, embora tenha ficado arrasado por menos normal que eu suspeitava. Nunca fui muito bom com escolhas e ser múltiplos de mim mesmo poderia ser bem interessante. Eu poderia ser o que quisesse simultaneamente, sem os pudores dos sensatos. Não sei nem escolher uma música, um livro ou um filme prediletos. Por isso seria uma péssima Miss. Ia querer salvar as baleias e as crianças do Haiti no mesmo programa social, citaria Sartre, Nietzsche, Freud, Sade e Saint-Exupery numa única citação separada por ponto e vírgula, teria pelo menos quatro pratos prediletos e cinco músicas que tocam o coração, além de levar uma comitiva para uma ilha deserta. Isso não significa que sou volúvel. Sou absurdamente fiel ao que amo. Mas amo muitas coisas ao mesmo tempo. Claro, não me refiro a pessoas. Quer dizer, não a relacionamentos afetivo-sexuais, namoros e afins. Não que essas dúvidas nunca tenham acontecido nesse campo...Ai, to me complicando!

Voltando, vestir a cara que mais agrada no momento era uma idéia que eu gostava muito. Evidentemente, isso virou um tormento logo depois da descoberta. Não podia ser diferente. Não existe coisa pior no mundo que ser diagnosticado de algo que não se é por alguém que o é. Explico: ouvi a coisa errada da pessoa errada. Caí nas graças de uma psicóloga, se é que realmente era, completamente transtornada. Vejo hoje o poder destrutivo da mente sobre outras mentes. Águas passadas. Hoje sei que não tenho personalidades múltiplas. Nem eu.