terça-feira, 26 de janeiro de 2010

PRENÚNCIO DO FIM

Tenho o péssimo hábito de achar que nada é bem como eu estou pensando. Eu me engano fácil. Iludo-me com maestria. Uma amiga sempre cita um filme, um tratado sobre desilusões e confusões amorosas. É a bíblia dela. E eu adoro. Sempre penso que ser rejeitado não é assim como eu vejo e sinto. Afinal, sou imaturo às vezes, sou inseguro quase sempre. Não ligou no dia seguinte? E se o celular caiu num rio durante uma trilha de 500km pelo Rio Amazonas? Celular desligado? O sinal pode simplesmente estar ruim em Dakar ou no Sri Lanka. Mas estamos na mesma cidade, melhor pensar em outra alternativa. Deixo umas mensagens para lembrar que estou aqui. Do tipo: “ops, estava aqui fazendo palavras cruzadas e lembre de ti, por isso liguei”. Se for sem retorno, sempre dou uma chance ao imprevisto. Tem gente que não tem o hábito de retornar ligações, ouvir mensagens, ler e-mails. Sim, talvez espere receber um fora nos sete meios de comunicação mais utilizados. Sou um pouco Stalker. Refazer trajetos, procurar pistas. Minha amiga, ácida, sempre lasca: “Isso significa que não está afim de ti.”

O pior é que essas inseguranças não existem somente no começo de relacionamentos ou quando relacionamentos ainda nem começaram. Em relações mais longas (bem mais longas) também tendo a ser maleável, flexível e compreensivo. Uma monja. Só que tem o meu maldito lado tsunami, que também aflora nessas crises de insuficiência de mim.

Fecho os olhos. Respiro. Concentro. Mentalizo. Pro escambau com esse lance de ser centrado! Faço barraco no minuto seguinte. Conto até dez e antes do onze já falei tudo o que penso. E sou verborrágico. Arrependo-me, peço perdão. Às vezes é tarde. As pessoas cansam também.

Não existe coisa pior que insistir quando não se acredita mais. Reanimar um cadáver é muito triste. Sentimento de luto, de perda, de derrota. Pior que a morte física é a morte do sonho, dos planos, dos desejos. Arrancar do peito a ilusão e sepultar com uma pedra o sonho. Mesmo que seja para dar lugar a outro no futuro. Tento escavar com as mãos o mais fundo que posso e descobrir o que existe nas camadas mais profundas. Grandiloquente. E muitas vezes ineficaz. O que a gente faz quando acredita que existe amor lá no fundo, quando ainda temos esperanças de existirem sobreviventes sob os escombros, mas as equipes de resgate já encerraram as buscas? Nem sempre há tesouros enterrados sob uma montanha de realidade dura e fria.

Transmutação. Impermanência. Evaporação. Sim, sentimentos evaporam como éter. Ouvi uma pessoa comentar que tudo no mundo é dinâmico, nada é estático. Só que o tempo do planeta é lento. As mudanças demoram séculos, milênios, mas tudo está sempre em movimento. Temos a sensação da permanência e da estática porque nosso tempo aqui é muito curto. Não é a Terra que não se move, é a gente que dura pouco. Ser poeira cósmica pode ser tranqüilizador. Se tudo muda e estamos sob o júdice dessas forças, seria bom e reconfortante conseguirmos relaxar e deixar fluir, seguir o fluxo da correnteza como um barquinho. Mas acho que não. Acho que a vida espera mais de nós.